25.3.19

Em seara alheia


Volto sempre aqui. Ao meu lugar de mim.
A serenidade pousa na rocha mais alta. No meu lugar.
O vento cresce na tarde e evoca a noite. No meu lugar.
O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia. No meu lugar.
O amanhã trará no colo uma braçada de flores.
O ar de alfazema deitar-se-à na minha cama.
Nos meus lugares espalhados.
Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.

Lília Tavares
In: Nomes da noite. Modocromia, 2019, p. 15

18.3.19

À espera do poema





Nenhum grito, nenhum indício, nenhum anjo
anunciou que chegarias, assim, poesia,
imprevisível e sedutora, a transfigurar
as palavras que me rebentam na voz.

No pulsar do silêncio te encontrei,
ao escavar os sonhos no meu peito,
na rigorosa idade do assombro.
Como se tivesse uma alegria
quase infantil calada no sorriso,
que se fez bênção, impulso,
canção de louvor ou de protesto,
abraço sem distâncias nem fonteiras.

Agora, quando a rebelde possibilidade das sílabas
convoca o sobressalto das sombras,
e o olhar se embacia de secura,
e as mãos, nómadas de nostalgia,
arrefecem entre as páginas,
diante da emoção da linguagem me debruço
à espera do poema que me salve e me liberte.

Graça Pires
In: A minha palavra: antologia de escritos avulsos. Edição comemorativa do 5º aniversário da Poética Edições. Braga: Poética, 2018, p.17

11.3.19

Um lugar para morrer



Naquele mês espalhara-se a insólita notícia
da vinda de andorinhas brancas
trazidas pelos ventos do deserto.
Todas as mulheres subiram às colinas
mais íngremes abandonando as casas,
dias a fio, com o corpo envolto em panos negros.
Tinham pressentido,
no lentíssimo movimento do voo, que cada ave
procurava apenas um lugar para morrer.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 62

4.3.19

Em seara alheia


Caminham as mulheres com as suas extensas lezírias
e luas em trânsito.
Vêm de cidades submersas anteriores às cidades
dos musgos e fetos de flores primitivas.
Surgem dos lugares iniciais
e trazem o lume da distância para perto.

Vestem brancos linhos azuis que o vento volteia
desde o livro de moisés.
No aceso silêncio dos olhos derramam intensos perfumes
e com o longo lavrado dos cabelos encobrem
o lustro da nuca e inclinam a varanda dos ombros
para uma paisagem de penumbras iluminadas.

Quando sobre o restolho distendem as pernas
definem num sopro o relevo das planícies.
Erguem casas nas margens dos lagos, erguem todas as casas
nas margens do pensamento.
E um palmo depois da soleira da porta a noite reincide
o mundo cai a pique depois da última parede.

Rui Miguel Fragas
In: Sobre o prumo das falésias. Fafe: Labirinto, 2018, p. 41