17.1.22

A extensão impossível das palavras



No pausado enredo onde absorvo a estranheza 
de uma meninice reinventada, 
irrompem branquíssimos lírios. 
Um tempo inicial inaugura o fulgente esplendor 
da lembrança em aromas de pretérita pureza. 
E vejo-me. Na extensão impossível das palavras. 
Na desmedida e espontânea alegria. 
Na doçura dos dias sem cuidados. 
Na tremenda adolescência dos desejos proibidos. 
E escuto-me para lá de mim, na fragilidade da voz. 

Hoje acordei e voltei a adormecer no teu colo, mãe. 
A manhã inclinada nos teus olhos purificou-me a respiração. 
Tenho o meu rosto tão perto do teu que, da tua ausência, 
apenas sei que é uma estrela a pulsar no firmamento 
e um fio de luz que procuro em momentos sombrios. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 19

10.1.22

Procurou alguém que gostasse de animais

Filomena Fonseca


Procurou alguém que gostasse de animais 
para lhe cuidar do cão. 
O lugar que escolhera para viver o tempo 
que lhe sobrava era só para pessoas. 
Uma espécie de abandono aferrou-se-lhe na pele. 
Porém, os pássaros começaram a demorar-se 
no parapeito da janela do seu quarto. 
Estremecidamente, começou a deixar-lhes sementes. 
E eles vinham. E chilreavam. 
E sobrevoavam a réstia de alegria que ganhara. 
Mas também às aves era interdito que ali pousassem. 
Sujavam tudo, lhe disseram. 
“Quem me dera voltar para a minha casa”, 
chorou baixinho. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 55

3.1.22

A casa permanece




Colhes uma braçada de alecrim e entras em casa. 
O coração bate em todas as paredes. 
Acolhes a intimidade da penumbra, 
o cheiro da lavanda em cada canto, 
a pulsação do passado. 
Quase tocas as faces familiares presas 
ao inquietamento das janelas fechadas. 
O desvio arbitrário dos dedos 
contorna a trama tecida na memória, 
sobre os nomes sem voz, afeiçoados à morte. 
Insinuada na linguagem do sangue, a casa permanece. 
Esta, onde entras para te reencontrares. 
Olhas os móveis. Fitas os olhos no chão 
e o soalho range com o aperto do olhar, 
como um eco dos teus passos. 
Demoras-te. Entregas-te à irrealidade 
de pretéritos rumores, ao alarme 
de uma distância que não alcanças. 
E recuperas o deslumbramento de seres criança 
e de saberes que de qualquer janela se pode ver o mar.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 44


Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui:
                                            
                                                                    https://youtu.be/jR7-CMOf1RY

20.12.21

Em dezembro



Em dezembro entram pelas casas 
os pinheiros mansos. 
O cheiro da resina solta o tumulto 
do pinhal em cada sala. 
A infância ali mesmo a luzir 
em pequenas lâmpadas, 
nas bolas coloridas, 
nas fitas e nos laços. 
E brilham os cabelos das crianças. 
Brilham os seus olhos, os seus dentes, 
o seu riso tocado por uma alegria simples. 

Há carícias esquecidas pelo ar, 
espalhadas por mãos desiguais, 
em casas desiguais, 
em noites desiguais. 
E a escuridão não tarda a doer 
no desalento de quem está só 
na vigília destas horas.


Graça Pires
 Natal 2021


 

Neste Natal deixo em todas as janelas        

a chama de uma vela                                  

para que possam sentir o meu abraço.

UM NATAL PLENO DE AMOR

UM ANO DE 2022 COM SAÚDE, PAZ E CONFORTO.



Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui: 

                                                               https://youtu.be/JQYMIM8yVKs

Voltarei no dia 3 de Janeiro de 2022

13.12.21

Interação Fraterna de Natal 2021

A convite da Amiga Rosélia Bezerra aqui deixo a minha participação nesta fraterna interação de Natal.



Desta vez peço a voz emprestada ao Poeta Miguel Torga, porque ele escreveu o que eu gostava de dizer: 

Nasce mais uma vez, 
Menino Deus! 
Não faltes, que me faltas 
neste inverno gelado. 
Nasce nu e sagrado 
no meu poema, 
se não tens um presépio
mais agasalhado. 
Nasce e fica comigo 
secretamente... 



É dentro de nós que o presépio acontece.

É em nosso olhar que a luz dos sonhos se demora.


Um Natal cheio de Amor para todos.

6.12.21

Em seara alheia



Aos migrantes na fronteira de nenhum futuro

Hoje, pela manhã ouvi o noticiário. 
Nada de novo a espantar o mundo. 
Sem surpresa constatei os mesmos mapas 
a mesma angústia, o frio da ignorância 
o idioma da fome como destino sem fronteira. 
De que espessura é feito o desamor? 
Que trompa enlouquece a humanidade? 
Poupem-me aos discursos eloquentes 
senhores da terra e da miséria. 

Ouvi o noticiário 
e a música 
e as piadas do locutor. 
- Há que falar do tempo que arrefece 
das luzes que acendem à dobra da noite 
o parto das ilusões. 

Afinal nada de novo a espantar o mundo. 

E eis a minha crença: os homens morrem a sós com os seus infernos 
sem o sobrevoo de uma luz que os elucide.

Luísa Henriques 
20 de novembro de 2021

29.11.21

Tornei-me caminhante


Silena Lambertini 



As flores sem rega nos peitoris das janelas 
retalham os punhos, nervo a nervo. 
E, de porta em porta, as mães acendem as lamparinas 
para avistarem as mágoas escondidas nas fissuras 
dos muros sem ramagem. 
Ensombra-me o brilho que incide sobre as pedras 
e sobre a desordem baldia dos taludes. 
Amplio as mãos para que sejam margens 
de um rio caudaloso onde me navego e me aprofundo. 
A luz quase se esgota em meus olhos, 
tão ávidos de paisagens líquidas. 
Para encontrar um veio de água, tornei-me caminhante 
e escalei o declive das nascentes. 
Agora posso abraçar os lírios brancos, 
adorar a lua cheia ou amar as bailarinas de degas. 
Mas não me perguntem por que razão 
se comovem os meus olhos em horas perturbadas. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 50


Para quem gostar de ouvir o poema:

           https://youtu.be/y1sif_TCvEU 

21.11.21

CONVITE - ANTÍGONA PASSOU POR AQUI

Muito obrigada a todas as minhas Amigas e a todos os meus Amigos que fizeram do lançamento deste livro uma festa da poesia e da amizade. Bem hajam! A Festa foi linda!!!



POÉTICA EDIÇÕES está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

 

Tópico: ANTÍGONA PASSOU POR AQUI

Hora: 27 nov. 2021 04:00 da tarde Lisboa





Entrar na reunião Zoom:

https://us02web.zoom.us/j/81341163078?pwd=emtoemNPcmpabDI2NXhRSkFuQ1FZUT09


O livro será apresentado por Carlos Campos.


Convido todas e todos os que puderem e gostarem, a partilhar comigo esta festa de poesia.

                                      Obrigada.


Se desejarem ouvir um poema deste novo livro podem fazê-lo aqui:

https://youtu.be/XyBsesY12Eg


 Lembro que o livro pode ser adquirido na Poética Edições em pré-venda até dia 26 de novembro através do link:

        https://poeticalivros.com/collections/poesia/products/antigona-passou-por-aqui



15.11.21

Aparecia depois das febres

Katharina-Jung


Aparecia depois das febres
no fim dos caminhos 
dos longos roseirais, situados 
a poente da cidade sobrelotada. 
Abria a cancela do pátio 
como quem diz, em voz baixa, uma oração. 
Despia-se e deitava-se na erva 
com as mãos sobre o ventre. 
E, deslembrada de tudo, 
ficava a ouvir o coração comovido e inquieto. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 45

8.11.21

Memórias de Isadora XV

Bill Cooper


A paixão da dança. 
Como disfarçar a indelével marca 
desta febre desvairada que, inteira, me possuía? 

As madrugadas respiravam, em meu hálito, 
a luminosidade despenhada sobre a terra. 

Os ventos, em euforia, ateavam-me 
um incêndio no olhar. 

Por meu corpo, ousado, pressentia 
o harmonioso sobressalto da emoção. 

A cintura rondeava um galope incontrolável 
a percorrer o gozo e a cilada 
na repetição de meus passos. 

Tudo o que sabia era um estremecimento 
intuitivo, uma ansiedade, 
uma aventura, uma sina. 

Entrava e saía de cena como se inventasse 
uma lenda ou escrevesse o meu nome 
no livro dos mistérios. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 33

1.11.21

Encostar o olhar nas sombras

Celeste Alves

Encostar o olhar nas sombras 
para vaguear a luz indecisa 
por entre árvores sem folhas. 
Suspender o vento na ramagem 
onde pousam os pássaros em busca 
do que restou das primeiras penas. 
Improvisar um bater de asas 
até amar a imprecisão do voo.

Graça Pires 
In: Acanto: revista de poesia. Leiria: Hora de ler, 2021, p. 57

25.10.21

Estava sempre a sorrir

Ana Pires Livramento

Estava sempre a sorrir. 
Como se possuísse um código 
clandestino costurado na bainha 
dos lábios para esquecer 
o inútil ruído das mágoas. 
Consideravam-no tonto. 
Mas ele, sentado no degrau de pedra, 
desenhava no chão o silêncio 
de um tempo demorado 
onde se improvisam 
os pensamentos indefesos. 

Graça Pires 
Em A solidão é como o vento, 2020, p. 59


Se quiserem ouvir o poema dito pelo meu filho Pedro no vídeo da minha filha Ana podem fazê-lo aqui:
                                 https://youtu.be/FVTBMZKFzx0                         


18.10.21

Memórias de Isadora XIV

Sandro Botticelli

Vejo-me a decifrar os mitos. 

Os vasos gregos, lembro, 
mostravam bailarinas 
que imaginei dançando a meu lado. 
Depois tornei-as vivas, bailantes. 
Com elas aprendi a silenciar o corpo 
para que o grito fosse a espontânea 
rotação sobre o abismo. 

Também a primavera de botticelli 
me despertou angelicais movimentos. 
Cheguei a ficar horas a fio no assombro 
e no êxtase daquela imagem que fiz minha. 
O sagrado e o profano bailando no meu peito. 

Porque a dança era-me a divina expressão 
do espírito humano em direcção à luz. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 22

11.10.21

Em seara alheia



Vivo no batimento cardíaco 
de uma gaiola de refugiados. 

O novo século anunciava filigrana, 
gargantas sem alçapão, 
altruísmo de medula intacta. 
Recitava-se a amnésia das fronteiras, 
a livre circulação de candelabros na utopia 
e mentes capazes de respirar esculturas de Rodin. 

Atravesso a Europa vestida de arame farpado. 
Passo os meses à espera 
que o estio me dê um autógrafo. 

Vivemos tempos de Goya na boca, 
não pelo tráfego do deslumbramento, 
mas pela imagem sombria pendurada no palato. 
O terror sempre deu braçadas largas. 

Somos o lapso que nunca atinge o degelo.

Alberto Pereira
In: Neve interior. Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2021, p. 36

4.10.21

Elas retêm múltiplas memórias

Solange Firmino


Elas retêm múltiplas memórias 
que definem a vida que lhes coube. 
Possuem, parado no olhar, 
o relevo onde cresceram as rosas 
que amaram até ao absurdo 
quando todas as privações 
se confundiram com o luto. 
Agora só querem contar, com detalhe, 
como sobrevivem ao vagar dos dias.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 42

27.9.21

Memórias de Isadora XIII



O bulício dos pés suspendia e alongava 
o alvoroço das pernas e dos braços, 
à altura de toda a fascinação. 

Pausadamente. 

Adequando o lentor do lanço ao espasmo, 
no seguimento de mim. 

E dançava. 
Incansavelmente dançava. 
No prodígio exacto de uma nostalgia 
tangível à imensidão do assombro 
quando me desagregava flutuando, 
ou sobre as tábuas me agitava como náufraga. 

De meus sortilégios mais nómadas 
tangi os fios do som para flutuar o vulto 
da alma, como se voasse em chamas. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 32

20.9.21

Levemente inclinado sobre os trevos

Ivan Sandorfi

Levemente inclinado sobre os trevos 
erguia a foice para avistar a seara, 
o celeiro e o pão sobre a mesa. 
Diante das árvores sem folhas 
curvava os ombros 
enquanto um súbito recolhimento 
lhe gretava o chão. 
Uma tarde o corpo dele fez-se sombra. 
E um arado o lavrou como se fosse terra. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 10

13.9.21

Dentro da boca



O rio passando 
    sem nunca correr. 


Não lembrar o rio,  
apenas a água 
prometida pela nascente. 

Deslizar um ávido olhar 
pela corrente sem margens, 
sem percurso, sem fundo nem fim

Água a escorrer lentamente 
dentro da boca. 
Puríssima. 

No enrouquecimento da voz. 

Graça Pires
In: Água Silêncio Sede: homenagem poética a Maria Judite de Carvalho no centenário do seu nascimento. Selecção e organização de Lília Tavares e Carlos Campos.  Braga: Poética, 2021, p. 76

6.9.21

Lamento



Olhem para nós. Ouçam-nos. 
Não somos vultos sem identidade.
Somos mulheres. 
Somos mães filhas irmãs amigas. 
Temos um nome. 
Indefesas frente ao terror 
é silencioso o lamento o grito o arrepio. 
Qualquer gesto nos pode destruir. 
Ficámos sem chão. 
Avistamos a montanha 
mas um deserto invisível 
acorrenta-nos os pés. 
O céu é um abismo. 
Onde estão as estrelas 
os anjos o nosso deus? 
Não. Não choramos. 
Temos o olhar parado nos livros proibidos
na inutilidade dos dias que hão-de vir 
nas palavras reprimidas
na mais indecifrável prece 
tão perto da descrença. 
Quem poderá salvar-nos? 

Graça Pires, Set. 2021

30.8.21

Memórias de Isadora XII


No cetim do meu corpo
atraquei as barcas do regresso 
para me não doer 
qualquer ausência, qualquer exílio. 

Nele guardei o novelo 
luminoso dos sentidos, 
à flor de cada gesto 
e me arrostei de melodias 
e de cor, com fios invisíveis 
ajeitados ao legado 
da época que me coube. 

Manipulei o espaço para dialogar 
com a música a impiedade 
da guerra e do caos. 
Para diluir o absurdo inscrito 
nos olhares de toda a gente. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 48

23.8.21

Dual

Amanda Cass


Ao longo da vida houve coisas 
que nunca te contei. 
Não por acanhamento. 
Não por vergonha. 
Mas por saber que, no teu íntimo, 
as conhecias bem. 
Na dualidade que somos 
não há segredo meu que tu não guardes. 
Até aqueles que escondi de mim mesma, 
também os escondias de ti. 
Nunca esqueceste, eu sei, 
as múltiplas travessias da memória 
em todas as idades, tão iguais 
em inocências e remorsos. 
Lembras aquele dia em que enchi 
as minhas mãos de terra 
e dentro das tuas mãos brotaram 
amores-perfeitos 
que as minhas mãos colheram? 

Graça Pires 
In: Sou tu quando sou eu. homenagem à Amizade: antologia de poemas inéditos. Organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Braga: Poética, 2021, p.22

16.8.21

Conhecia todos os rios navegáveis

Dorothea Lange 

Conhecia todos os rios navegáveis 
e a puríssima luz do silêncio 
na solidão das montanhas. 
Detinha no rosto cidades interiores 
com casas à beira da estrada. 
Cumulava nas medas de palha 
a espuma de incontrolados desejos. 
Da sombra de cada árvore 
fazia a sua mesa, a sua cama, a sua morada. 
Todos lhe ignoravam o nome. 
À sua passagem fugiam as crianças, 
ladravam os cães, agitavam-se as mulheres, 
escondiam-se os homens. 
Um suspeito luzimento lhe invadia o olhar 
como se a teimosia dos sonhos o acossasse. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 57

26.7.21

Antes da estrela da manhã

Ana Pires Livramento

Antes que o sol poente 
ultrapasse a linha do horizonte, 
um ângulo de sombra corrige 
a deriva do brilho no meu rosto. 
No arco das pálpebras 
havia a quilha do veleiro 
que me atravessa os olhos 
cada vez mais líquidos. 
O impulso do corpo 
fazia deslizar o vento 
pelo incêndio dos mastros 
na ondulação da noite. 
Antes da estrela da manhã.

Graça Pires

In: Acanto: revista de poesia. Leiria: Hora de Ler, 2021, p.55


Se desejarem ouvir o poema dito pelo meu filho Pedro podem fazê-lo aqui:

                                                https://youtu.be/srbnOQ_TbuY


Minhas Amigas e meus Amigos, vou fazer uma pausa. Voltarei a 16 de Agosto. Desejo que passem bem, com saúde, tranquilidade e conforto.

Beijinhos.

19.7.21

Memórias de Isadora XI



Tentei ignorar o tempo 
golpeado de incertezas, 
recusando o desgaste 
dos caminhos percorridos 
e das lembranças 
deslizando sobre a pele. 

Tão dúplice a farpa da sedução. 

Tão perecíveis os amores. 

Tão tardia a serenidade 
da vida e da morte. 

Tão vulneráveis os passos 
em que me atrevia.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 49

12.7.21

Em seara alheia



Escrevo com uma mulher 
a correr-me nua por dentro das veias. Procuro-a 
com o sangue em delírio e uma rosa de tinta
no desalinho do peito. Escrevo
a sua sombra radiante. Abro livros e encontro-a
por todas as páginas e digo: eis o poema, eis a luz
refratada de um rosto, eis o orvalho mais puro.
E os livros fecham-se e ardem e eu pergunto:
como pode a água arder assim.
E fico preso nos longos cabelos da mulher
e é como se ficasse repentinamente extasiado
no átrio de uma casa muito bela enquanto
as portas de fecham num rumor que não se ouve.

[...]

Escrevo uma mulher nua por entre a erva alta
de um lugar abandonado. E digo: 
tenho sede, ó mulher por entre tanto orvalho.
E os teus olhos tocam levemente os meus lábios
e os meus lábios ardem à luz da água cristalina
e oscilam os teus seios como sinos quase imóveis
e roda uma roda de tinta na cruz do peito
e o teu ventre é felino como uma duna dourada
a estender-se para lá da maré mais alta.

[...]

Rui Miguel Fragas
In: A rebentação das águas. Braga: Poética, 2021, excertos das páginas 43-44


4.7.21

Tinham uma bússola imaginada

Ary Scheffer

Tinham uma bússola imaginada 
no peito, antecipando o destino 
de seus passos transumantes. 
Foram até ao começo do mundo. 
Beberam juntos a água inicial. 
Levíssimas, as mãos dele, 
no modo diverso de tecer afagos. 
Inteiras, as mãos dela, 
de seus vagares vestidas. 
Assim se souberam ávidos um do outro. 
Até ao fim do mundo. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 54

28.6.21

Perfil

Ana Pires Livramento

De passagem, 
como a véspera imprecisa 
do poema, 
principia em mim 
a planície agreste 
da solidão dos outros. 
E a não ser 
o silêncio poente 
dos meus olhos, 
tudo o resto me diz 
que sou um pássaro 
a voar, inconsequentemente, 
no sentido das palavras. 

Graça Pires 
De Poemas, 1990, p. 41


Minhas Amigas e meus amigos, faz no dia 29 de Junho 31 anos que editei o meu primeiro livro do qual vos deixo este poema. Obrigada.

21.6.21

Memórias de Isadora X




Recordo os abraços, os desejos, as paixões, 
a luz aprisionada no meu seio, 
o clarão de lume nos meus olhos, 
os temores que não ousava expressar. 

Arredia como um pássaro retornava 
ao que unia e dividia o rasgão das noites 
mais secretas, mais privadas. 

Desprevenida, errei quase todas as paixões. 
Da ilusão colhi cautelosos desencontros. 
E o aceno da esperança. 
E um aviso abandonado sobre o sonho. 
E a furtiva teia dos dias solitários. 

Sei que as dores e os desencantos do amor 
transformaram a minha arte.
Mas nunca refreei o gozo de dançar  
ou vedei dentro de mim o desinibido 
anúncio do cansaço. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 44

14.6.21

Viagem

Ana Pires Livramento

Não importa se na concha da mão 
continuo a proteger os gestos inquietos. 
Sempre criei rumos desacertados para os sonhos. 
Há um tempo restrito para os numerosos 
anseios que queremos eternos. 
Em lugar algum se assinala a aflição do olhar 
quando fugimos do assomo do medo 
com desnorteados passos. 
Talvez uma geografia pessoal revele 
as coordenadas que as nossas sombras 
desenham no vento como ficções 
em que a viagem recomeça 
cada vez mais perto do início de tudo. 

Graça Pires 
In: Acanto: revista de poesia. Leiria: Hora de Ler, 2021, p. 54

7.6.21

Em seara alheia




Aula prática 

Identifica os obstáculos 
todos os obstáculos 

ignora o riso fácil das musas 
quando em fogo 
se acoitam nas bermas e nas praças 

aprende a repugnância das coisas fáceis 
pequeninas insignificantes 
que em nada te acrescentarão 

percorre o teu tempo 
despojado indiferente sereno 

vira o olhar na direção do Sul 
sacode o pó das sandálias 

por fim 
constrói a tua casa 
no outro lado do caminho 
nesse lugar onde ninguém passa

Victor Oliveira Mateus
In: uma casa no outro lado do mundo. Fafe: Labirinto, 2021, p. 16

31.5.21

Leu a notícia no jornal

Andrey Vahrushew 

Leu a notícia no jornal: 
“Menina de nove anos agredida pela mãe”. 
Sabia que era dela que falavam 
e escreveu no seu diário: 
mãe, o que é que aconteceu? 
O sorriso que começava inteiro nos teus olhos 
tornou-se estrangeiro em tua boca. 
Lembro-me do instante 
em que começaste a fitar-me obliquamente, 
como se um cerco te amordaçasse o olhar. 
Depois, sem suspeitares, 
tinhas as mãos vulneráveis à violência. 
O que é que nos aconteceu, mãe? 
Como dizer o teu andar inquieto, ou calar 
o teu rosto cavado por uma qualquer angústia? 
O que é que te aconteceu, mãe? 
De hoje em diante usarei no tornozelo 
uma pulseira negra, em sinal de protesto, 
por me teres privado tão cedo da tua alegria. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 46

24.5.21

Memórias de Isadora IX



Não tenho pressa. 

Em nome do meu nome, 
inscrevo nas paredes 
os gestos indecisos, 
as palavras sombrias, 
os pressentimentos, 
as lágrimas, as gargalhadas, 
a mordedura do desalento 
a marginar a boca. 

Não basta o eco das lembranças 
para disfarçar a solidão. 

Nada ou quase nada se repete. 
Houve pensamentos que magoaram, 
incertezas e renúncias 
que sitiaram as muralhas do tempo. 

Conheço de cor todos os sons do silêncio. 
Com eles me questiono e me respondo.

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020. p. 17


Se desejarem ouvir o poema dito pelo meu filho podem fazê-lo aqui:

                                            https://youtu.be/RiyYpA0Q1no