27.7.20

Conta-se por aí

Maria Clarinda Galante

Conta-se por aí
que ele amava tanto as árvores
que tinha no coração
todas as tonalidades de verde.
O círculo das águas submersas
debandava o longe das nascentes
para adubar sementes e raízes.
Um inesperado cio,
bafo da terra em júbilo,
alojou-se-lhe no sangue.
Cinge, agora, nas mãos a luz de março
aguardando que o sobressalto
verde das folhas o sacie.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 51

Informo todas as minhas Amigas e todos os meus Amigos que voltarei a actualizar no dia 10 de Agosto. Tudo de bom para todos.

20.7.20

Nunca contou a ninguém

Magdalena Russocka


Nunca contou a ninguém
a quantos exílios se forçou
para encontrar a mudez propícia
à urdidura de acautelados gestos.
Vulneráveis, suas mãos
seguraram a pedra
que lhe afiava, no olhar,
todas as sombras que cindiam a luz.
E ela, pródiga de si,
a resgatar nascentes,
a deter revoltas à boca da fala,
a vigiar as cesuras de cada sonho,
a tecer infâncias no seu nome.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 33

13.7.20

Em seara alheia




Aguaceiros, que poderão ser de granizo

Entretanto mudou a hora, acrescentou-se luz 
e heresia  à lenta revelação dos dias maiores,
recomeçou o Verão antes de terminar a
Primavera e eu despi a respiração enquanto
consentias que as sombras das glicínias exalassem
o ofício nocturno das minhas sombras como a
única evidência de que os meus olhos se iam
apagando com versos alheios.

Tão depressa como chegou, esse promontório 
que era a contemplação imóvel e excessiva do
azul desapareceu. Regressou o inverno depois
de começar a Primavera e as previsões nada
escondem: aguaceiros, que poderão ser de 
granizo e acompanhados de trovoada, cobrem 
agora de espessura e transparência tudo o que
na escrita é composição mais terna ou mais
perfeita do amor.

Em desacerto com a chuva, que ora é íntima e 
me desnuda ora é distância e me reveste de sede,
entregue ao frio que só o estado sólido da realidade
não poética consegue provocar, dilacerado por
relâmpagos que iluminam e apagam confidências
em milésimos de segundos como se essa fosse a
duração da eternidade, assim existe e se demora
em mim o único lugar possível onde ainda te
procuro, como um beijo.

Sandra Costa
In: Boletim meteorológico. Volta d'Mar, 2020, p. 23

6.7.20

Naquela aldeia havia uma ribeira

Ossi Saarinen
 

Naquela aldeia havia uma ribeira
onde vinham beber os homens e os lobos.
O menino ficava por perto
à espera que eles
 – os homens e os lobos –
viessem beber nas suas mãos.
Em seu olhar cristalino
há ainda um brilho feroz
que desperta no seu peito
as aves da montanha.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 43

29.6.20

Lugar de junho

Minhas Amigas e meus Amigos, faz hoje 30 anos que foi editado o meu primeiro livro 
"Poemas", ao qual pertence este "Lugar de Junho".

António Cruz

 

É melhor não dormirmos
sob o árido labirinto da tristeza.
À nossa frente existe um pórtico
purificado por uma névoa de sons.
Vamos transgredir o limiar do absurdo,
porque encontrámos um abrigo musical,
onde ninguém pode separar das nossas bocas
o percurso das águas outonais.
É verde o germe do sol nos nossos olhos
e, sem querer, a sombra de um pretexto
emerge do assombro de nós próprios
como um regresso plural da inocência.
Estamos num lugar de Junho
e qualquer sinal de ausência
pode ser apenas um veleiro
que partiu dos nossos dedos.


Graça Pires
De Poemas, 1990, p. 53

Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:

https://youtu.be/50PkaANZstw
                                                


22.6.20

Jovem ruiva com vestido de noite

Amedeo Modigliani


Um incêndio atraiu
os meus cabelos em desalinho.
Emaranhou-os em estrelas luzentes,
porque vou ao teu encontro.

“O verão começa nos teus braços nus”, 
me dirás, na margem mais proibida da noite.

Ai, o rubor do rosto a desvendar
a secreta inocência dos devaneios!
Ai, o lento bailado nas sombras
da madrugada!
Ai, o mel e o néctar na seda de meus seios!

 “O verão começa nos teus braços nus”,
repetirás pela manhã.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 31

15.6.20

Para o meu filho Pedro

Elaborado pelo meu irmão José Pires

8.6.20

Doía-lhe na voz

Daniela Owergoor


Doía-lhe na voz
a crueza das palavras
como se fosse um poeta
sôfrego de silêncio.
Com olhos alagados de tristeza
perdia-se no espaço
mais íngreme das vagas
quando a sombra dos barcos
acostava no seu corpo
até se transformar em tempestade.
Num rodeio de vento sobre as dunas
achou o seu exílio.
As gaivotas começaram a amar-lhe
a fragilidade das mãos.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 7 

Se alguém quiser ouvir o poema pode fazê-lo aqui
https://www.youtube.com/watch?v=4umDyqwFCYw

1.6.20

Menina de azul

Amedeo Modigliani


Em todos os relógios
da cidade, os ponteiros
marcam a hora
inesperada da inocência.
Tudo parece perfeito,
Excepto o meu rosto
de menina, asfixiado
na moldura do tempo.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 13

25.5.20

Em seara alheia


30.

Não tens outro destino que não o mar 

da lusitana terra portuguesa 
teu berço de sangue e tua onda 
azul de espuma à tua mesa. 
Não tens outro remo outro navio 
outro porto outra casa outra corrente 
que a raiz de avós e o sangue antigo 
a correr-te na veia efervescente. 
Não tens outra manhã aberta sobre o peito 
quando a semente é veramente mater 
quando o céu cobre o ardor do corpo 
e as mãos afagam o pulsar do coração. 
Não tens outro destino, não, 
que o mar é uma canção de moinhos sobre as dunas 
afagando a água onde regressas.

Isabel Fidalgo
In: Sou viagem. Braga: Poética Edições, 2020, p.40

16.5.20

Um homem morreu sem ver o mar

Anne-Sophie Gilloen



Um homem morreu sem ver o mar.
Agora na sua aldeia
os barcos sobrevoam as casas.
Os meninos vestem-se de marinheiros
à espera que qualquer barco
encalhe à sua porta.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 37

7.5.20

Para aminha filha Ana

Elaborado pelo meu irmão José Pires

2.5.20

De cabeça baixa

Monia Merlo


De cabeça baixa, carregada de nevoeiro
como árvores no rigor do frio, ela ouvia
os sinos ao longe e recordava
aquela dor antiga, a mesma que sentira
na hora desalentada da morte da mãe.
Desde então as violetas brancas
emurchecem sempre que as amanha
com as mãos trementes e geladas.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 34

25.4.20

As minhas mãos se dão



Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.
Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.

Graça Pires

20.4.20

Em seara alheia





Já isolei o coração. Lavei os olhos

com sal até sangrar toda a doçura.

Coloquei as mãos numa gaveta de silêncio.

As lágrimas estão em confinamento desde

o primeiro dia. Adiei o medo para quando

necessário.  Adiei tudo o resto, na verdade.

Vestidos novos, beijos, viagens e poemas.

Adiei até os filhos. O amor pelo amor.

Entretanto, nas legendas de um filme

leio que a esperança é uma coisa

perigosa. E no entanto, digo,

no entanto há concertos nas varandas

e gestos novos nascidos como planetas

antes desconhecidos. E no entanto

há rosas desenhadas nos nossos rostos.

Feridos, os nossos rostos, ardendo de dor.

E no entanto, é o abraço das cicatrizes

Que nos salva.



Virgínia do Carmo, 2020

Lido pela autora no sarau poético, no dia 7 de Abril, dia Mundial da Saúde, em homenagem a todos os profissionais de saúde que, com enorme sacrifício estão na linha da frente deste combate que a todos assombra.


13.4.20

Do meu país vos digo


Do meu país vos digo:
Dos aromas de urze e alfazema.
Dos caminhos de rosmaninho e alecrim.
Dos matizes, no verão,
rasando a terra sem sombra
e demandando os rituais
das uvas pisadas no lagar,
ou em bocas abertas à dádiva da colheita.
Do intenso tom de júbilo
que retorna em cada primavera
com a insondável melodia
dos jacarandás rondando as ruas
pela cercadura sombria dos arbustos.

Graça Pires
De A incidência da luz, p. 47

6.4.20

Um requiem pelos sonhos

©Shutterstock

Refazemos o tempo nocturno no mais escondido olhar
para que ninguém veja os passos em falso
com que trilhamos o destino.
Olhamos o carvão apagado, como se fosse possível
encontrar a noite debaixo da trempe
onde, no tempo antigo, se poisavam as panelas
e se procurava a promessa de um lugar à mesa.

Contra o silêncio lemos a meia voz: ponham laços
de crepe nos pescoços das pombas da cidade.
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas
de algodão. Voltamos a ler e as palavras de Auden
ecoam como um requiem pelos sonhos
profanados em mãos funestas.
Depois não sabemos como evitar o luto,
ou a culpa, ou a solidão.

Graça Pires
De A incidência da Luz, p. 13

30.3.20

Um surdo alvoroço




Francesca Woodman

Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 59

23.3.20

Em seara alheia


À DERIVA

O mundo é essa nau em desgoverno
que insisto em prender
em minhas mãos inábeis
como aqueles barcos de papel
que eu lançava na enxurrada
e interceptava na esquina
antes de adernar no córrego sujo

Não, eu não pude com seu
pesado trajeto
sendo arrastado na correnteza febril
da realidade e dos exílios

É esse objeto sem tamanho e sem rumo
que não cabe nos meus olhos
nem conhece o rosto da minha amada,

de onde emergem as perguntas
que nunca saberei responder

Endereço onde moram
todos os abismos

Ronaldo Cagiano
In: O mundo sem explicação, Lisboa: coisas de Ler, 2019, p.52

16.3.20

Memórias de Dulcineia

Tomaz Hipólito

Do teu lugar, da tua casa
te ausentaste.
A fantasia moldando teu perfil.
O sonho ludibriando o tempo.
Foste a noite e a claridade.
Circunscreveste o eixo das trevas
e da mais inesperada luz te rodeaste.
Estranhas se tornavam tuas mãos
quando esgrimias impossibilidades
no ruído dos dias.
Ferido ou ileso foste herói,
foste visionário, foste poeta.
Um rumor de festa te seguia.
Um jogo encantatória te cercava.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, p. 23

9.3.20

Terra firme

Jean Dieuzaide


À noite conheces de cor os portos
onde confundes os presságios com o destino.
No molhe acostam os navios
que trazem marinheiros sedentos de terra firme
e de outras sedes rompendo suas águas.
E tu, que conheces de cor todos os portos,
deixas que o corpo se ajuste
ao erótico desejo dos olhares.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 40

2.3.20

De muito longe



Conta-se que há laranjais que rebentam
ao pé dos poços deixando um aroma de pétalas
branquíssimas no bordo dos cântaros.
Todos os dias chegam ali mulheres
vindas de muito longe com punhais de luz
por dentro do olhar e um ramo de oliveira
entrelaçado nos dedos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 26

24.2.20

Cigana com criança

Amedeo Modigliani


Sou uma mulher
que ninguém chama pelo nome.

Hão-de nomear-me filha
do vento e dos caminhos. 
Hão-de ver asas em meus dedos
quando danço.

Mas a nenhum lugar pertenço
e intrusa me sinto do futuro
adivinhado em minhas mãos.

Quando embalo o meu filho
antevejo um estranhamento
gravado em sua sina
e um brasido de fogueira em suas veias.

Acoitarei na água da retina
a linha inacabada dos seus passos.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 25  

17.2.20

A vertigem dos temporais



Pelo ângulo interior dos séculos
uma lâmina de sangue golpeou
as pedras onde explodiam as águas.
Agora a vertigem dos temporais
habita todos os lugares do mundo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 49

10.2.20

Em seara alheia


era uma rapariga de verão

era uma rapariga de verão. 
como beijá-la neste poema
de chuva?


João de Mancelos
In: Luzes distantes, vozes perdidas. Lisboa: Edições Colibri, 2019, p. 23

3.2.20

Cercada de mar

Manuel Fazenda Lourenço

Cercada de mar roço a boca
em sombras que reconheço.
Ressoa no meu corpo a rebentação
violenta das águas estremecendo
nas entranhas como um incêndio secreto.
E procuro recordar o meu primeiro amor.
Contudo só um rosto me perturba:
o único onde a intempérie me salva.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 26

27.1.20

Como um cerco de presságios


Van Gogh

Vem do rio um vento interminável, como um cerco
de presságios que nos gela nos ombros.
As cobras enroscam-se nas pedras,
sobressaltadas com a agitação da terra.
As abelhas escondem-se no regato das chuvas
esperando que as colmeias as procurem.
O chão arde em nossos passos, vítimas
e culpados do desvario dos caminhos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2018, p. 57

20.1.20

A ondulação intensa nos meus olhos

Andrey Vahrushew 
     

                                                                     À minha mãe com amor, in memoriam


Tenho um caule de sangue
espetado na garganta
e os dedos tremem-me demasiado.
Vestida de negro, repouso
sob a árvore mais frondosa
com as nervuras das folhas
a sulcar-me a carne.
A voz declinante do tempo
envolve, imprecisa,
a ondulação intensa nos meus olhos.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015, p. 44

13.1.20

Em seara alheia


99.

Às vezes a vida é uma mulher
a chegar a casa
depois de um dia de trabalho,
lábios sem cor, despenteada,
sacos de supermercado, 
a roupa em desalinho,
os sapatos na mão,
não, os sapatos nos pés,
não se atreve a tanto, 
a sonhar com descalçar os sapatos.
Uma mulher que
sem acender as luzes da casa,
olhos de gato no escuro, 
pode-se viver nos olhos de um gato, 
abre armários, gavetas, arruma o mundo,
o mundo pode ser um apartamento
com duas assoalhadas e as plantas por regar,
amanhã, amanhã sem falta rega as plantas.
Uma mulher que sem jantar,
lavou os dentes, não lavou a cara,
se enfia numa cama malfeita
puxou as orelhas à cama,
se a mãe visse isto puxava-lhe
as orelhas como se fosse uma cama.
Uma mulher sem ninguém,
a vida é só a vida,
a quem dizer boa noite meu amor.

Raquel Serejo Martins
In: Plantas de interior. Braga: Poética, 2019, p. 149

8.1.20

Nas arestas do instante

Solange Firmino


A correnteza da água
nas margens mais agrestes
mancha de lodo os meus dedos aflitos
com o estremecimento dos búzios.
Contudo, amo o equilíbrio dos cactos
presos às areias. Antevejo neles
a quietude da maresia na véspera
dos vendavais quando, nas arestas
do instante, me fere a ausência de uma ilha.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014, p. 44

2.1.20

Zombaria

Cristin Atria


Podem zombar de nós aqueles que não gritam nem choram 
nem imploram à vida a fé que já perderam. 
Podem inventar teorias sobre a sorte 
e rezar a um deus qualquer 
como autómatos da fria engrenagem deste tempo. 
Podem ostentar nos dedos os anéis da indiferença 
e usar em pleno peito os adereços inúteis da bondade. 
Podem zombar de nós. 
Trazemos a transgressão perto do sangue 
e um vendaval na voz 
a bradar o sonho desmedido dos poetas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013, p. 32

17.12.19

Interacção Fraterna de Natal


A convite da Rosélia Bezerra aqui deixo a minha participação nesta fraterna interacção de Natal. 

A minha Noite de Natal é um encontro da Família. 
O conforto e a alegria que isso nos proporciona enche de amor os nossos corações.

A quantos gostam de ler poesia neste meu espaço, desejo tudo de bom. E digo:


Posso escolher um salmo, ou um poema,
ou um coro de anjos para dizer Natal.
Com uma estrela a oriente do olhar em sobressalto.
Com um presépio escondido por dentro da infância.
Com a memória do silêncio agitando no coração noites antigas. 

Graça Pires, Natal de 2019



Quero palavras brancas como asas de anjos para convocar, neste Natal, a promessa de uma Luz de Paz e Amor.
Quero para todos um ano de 2020 MELHOR.

Até  para o ano. 

9.12.19

A respiração do poema

Federica  Erra


As palavras trancadas no labirinto da boca.
A respiração do poema impondo o glossário
nas veias, como uma queixa.
Os meus versos rompendo os pensamentos
que nascem na alma solitária dos homens
porque um útero de argila
moldou os sonhos, como letras,
em frente do meu nome.

Graça Pires
De Labirintos, p. 29