12.4.21

Trouxe o restolho dos fenos



Trouxe o restolho dos fenos 
e um mel antigo sobre os lábios. 
Furtou um barco no rio para remar 
lentamente no rendilhado 
das margens que oferecem às aves 
um ninho clandestino. 
Mergulhou de cabeça para dar aos peixes 
o suco guardado em sua boca 
e o perfume entranhado nos dedos 
presos ao caudal da corrente. 
Vacilante, enrolou o sorriso no passado 
e chorou com saudades do sul.

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 9

5.4.21

Memórias de Isadora VI


E dancei descalça por todos os lugares, 
imitando os rituais aos deuses 
das límpidas manhãs, 
ou aos anjos das trevas, 
na euforia do enlevo. 

Cúmplice fui de bacantes e de bichos. 
De árvores e de chuvas fui irmã.  

Concebi-me a usar a máscara das tragédias 
gregas até escutar vozes divinas. 

Bailarina imperfeita e persistente 
fiz do meu perfil a promessa inequívoca  
de um cerimonial dos sentidos, 
 um salto mortal do meu próprio começo. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 23

29.3.21

Em seara alheia

 


6.

Garimpar a luz 
de certas palavras mortiças 
até ao doce sabor dos frutos de outono. 
Cuidar dos laços que desataste 
na minha tristeza, 
dos que ataste na minha alegria. 
Cantar. 

Num alfabeto tão leve, tão breve, 
como se nele pousassem apenas borboletas. 
Um alfabeto que viesse acordar os homens 
para o Sol que espera há séculos 
a hora de nascer para todos.

Lídia Borges
In: Que farei com este azul que me beija. Braga: Poética, 2021, p. 18

21.3.21

As palavras andam por aí

Sarah Affonso 

As palavras penetram o espaço e o tempo. 
Amadurecem em papel de seda, 
manipulando a cor, ateando o silêncio, 
incendiando as cinzas, anunciando a luz. 
As palavras andam por aí 
como se fosse a vez primeira: 
solitariamente manejando a noite. 
E desnudam-me. 
Dançam no meu corpo. 
Cobrem-no de malícia. 
Tatuam em minha testa o tom 
das tangerinas para que o seu sumo 
me escorra pela cara até à boca. 

Graça Pires 
De A incidência da luz, 2011, p. 71 (reeditado)

Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:

https://youtu.be/ynVX8qL11N0

15.3.21

Encontrou-o à entrada do deserto



Encontrou-o à entrada do deserto, 
absorto, como se conhecesse 
todas as invocações do silêncio. 
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento, 
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão. 
Ela saía do deserto. O mesmo deserto. 
Trazia um cacto murcho em cada mão 
e um rio seco a escamar-lhe a pele. 
Olharam-se. E ela contou-lhe. 
Contou-lhe das vezes que se afogou 
no chão pensando que era água; 
como rebentaram seus lábios 
pela sede interminável. 
Disse-lhe que quase morreu 
com saudades do mar; 
que bebeu o próprio sangue 
para curar a febre e o delírio. 
Falou-lhe do medo e do cansaço 
que venceu cambaleando, rastejando, 
dormindo agarrada à noite. 
Ele hesitou. 
Depois, com uma quietude 
que só nos prodígios acontece, 
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 61

8.3.21

Secaram as roseiras bravas

Federica Erra


Secaram as roseiras bravas 
cultivadas no atalho da paisagem. 
Uma mulher canta roucamente 
e o seu canto é um brado 
em desavença com a mudez 
enraizada na garganta. 
Vagarosamente, enrodilha na anca 
as vestes de pano cerzido 
e afaga seu corpo com as mãos ásperas
como as roseiras bravas.
Tão precário, o perfume das rosas! 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 48

1.3.21

Se os despojos da noite

Hengki koentjoro 

Se os despojos da noite 
se insinuavam na gruta do olhar 
como uma advertência, 
com suas mãos se rasgava 
debruando o friso dos ombros 
com o gemido das ondas. 
Aos poucos, apresava a voz ao silêncio 
para escutar o vento a prender-lhe a sombra 
à sombra dos barcos. 
Havia quilhas em círculo no ventre da espuma 
e excesso de lodo à sua volta. 
Ninguém dava conta da névoa 
que entorpecia o grito e estrangulava os pulsos. 
Só a sua sombra, amarrada à sombra dos barcos, 
urdia outra névoa para proteger as quilhas.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 44

22.2.21

Memórias de Isadora V



Sobre o esguio molde de minhas pernas 
acoitei o ritmo imprevisto de todos os rumores. 
Com elas soergui o corpo até ficar íntima do chão. 
Sobre elas me suspendi em movimentos 
leves, sensuais, clandestinos quase. 
Para não ruir. 
Para aprisionar os ventos. 
Para silenciar os medos. 

Os habituais saberes do bailado  
não me pertenceram nunca. 
Preferi imitar o desassossego da natureza 
como se uma incompleta dança 
me nascesse nos ossos 
até se esvair, entreaberta, 
no mais fulgurante cansaço.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 20

Se alguém quiser, pode ouvir o poema pode fazê-lo aqui:

https://youtu.be/bXRCgYDb7bg



15.2.21

Em seara alheia



Um dia tudo se resolve 

Um dia tudo se resolve 
E milhares de ansiedades
são atendidas
gerações completam-se 
num dia fraterno
e apertado pelas praças

Um dia e depois passa
fica só a estabilidade
e talvez uma estátua
ou uma lápide à espreita
a macerar a memória desse dia

Quantas lutas ainda por esse dia
de corpo à frente do corpo
e o tempo concentrado
numa garrafa de palavras
e manifestos por esse dia único
dia-noite de todos os cânticos.

Tiago Patrício
In: Altos cumes. Fafe: Labirinto, 2020, p. 30 . 
Prémio de Poesia Victor oliveira Mateus 2019 

8.2.21

Ela bordou ponto por ponto


                                                                                              Para a minha irmã, Teresa Pires
Ela bordou ponto por ponto 
os veleiros que adivinhava no seu peito. 
Colocou o bordado num caixilho 
azul-marinho e pendurou-o 
numa das paredes mais visíveis da casa. 
Garantiu, assim, que a regata 
passará sempre à sua porta. 
Agora um braço de mar 
parece abraçá-la longamente. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 31

1.2.21

Memórias de Isadora IV



Nasci sob a estrela de Afrodite, 
dizia eu, na idade de todas as crenças. 

Hesitei tantas vezes no rio do olhar, 
tão afluente, quando se alongava 
para a margem da quietude 
e percorria todos os recantos de mim. 

Que sinal de lume ardia em meus cabelos 
que, por capricho, teciam sobre os ombros 
o delido incêndio do crepúsculo? 

Em meus cílios, eu sei, cresceram violetas 
de brandura e de revolta. 
Na cor de meus olhos se colheram. 
De seu perfume, imensamente ardente, 
se alagaram. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 19

25.1.21

Memórias de Isadora III



E na trama deste enredo me observo. 
Isadora, o meu nome aqui recordo, 
no desprendimento de mim.
 
Dobo o fio da inocência 
para preservar a infância, 
tão cativa já de minhas fugas 
quando, diante das ondas, 
num desvario louco,
me despia e bailava rente ao gozo, 
na mais leve vertigem de estar só.
 
Perto do mar reservei o lance irrepetível 
da evasão onde me desencontrei de mim 
e me aguardei e me persegui, 
amotinada, sempre, nos atalhos dos dias. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 18

18.1.21

Já se extinguiu a voz


Já se extinguiu a voz 
que lhe ensinou tudo o que sabe 
e que os seus olhos repetem 
em requebros de silêncio, 
até lhe ser nítido tudo o que aprendeu. 
Desfeitos os medos onde se escondia 
nas noites mais antigas, 
colheu no pão e na lã o aconchego certo. 
Uma ave branca esvoaça a cor indecisa 
das lágrimas que lhe encharcam 
as recordações dolorosas. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 18

11.1.21

Memórias de Isadora II



Por meu olhar, repito. 
Pelo olhar mais breve, mais ávido, mais livre. 
O olhar peregrino de abarcar o mundo todo. 
De manhãs claras possuído. 
Com nítidas sombras se ferindo. 
Tão intruso, às vezes, dos leves movimentos 
do meu corpo em vagaroso espanto. 
Tão clandestino, também, dos caminhos 
talhados por meus pés. 
Comovido, até, com a desordem dos pássaros 
no improviso da dança. 

Por meu olhar começa este jeito feroz 
de me enfrentar.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito. Fafe: Labirinto, 2020, p. 16

4.1.21

Do outro lado dos homens


Robert Cattan


Do outro lado dos homens 
a memória das sombras e dos mortos 
maneja o exílio das palavras 
e tece um tempo sem bênçãos 
para exorcizar os gritos, as cinzas, 
os nomes, a treva do próprio abismo.

É um tempo que só o silêncio mais íntegro redime.

E como se tudo fosse possível
num horizonte cúmplice e fraterno, 
há um tumulto no olhar inquieto dos homens
que alentam a coragem, 
permutam os abraços, 
buscam a senda da liberdade.

Por isso o poeta usa a inteira limpidez da voz para dizer:
ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.

Graça Pires

In: A norte do futuro: homenagem poética a Paul Celan no centenário do seu nascimento. Organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Braga: Poética, 2020, p. 30

 



Itálicos tirados da antologia poética Sete rosas mais tarde, de Paul Celan , trad. João Barrento e Y. Centeno



20.12.20

Interação Fraterna de Natal 2020

A convite da Amiga Rosélia Bezerra aqui deixo a minha participação nesta fraterna interação de Natal.



Que se descubram palavras 
com asas de aves translúcidas 
para dizer, não o voo, não as penas, não as sombras, 
mas a infinita simplicidade do instante 
em que a noite se inunda de estrelas. 
E que todas as estrelas tenham o nome das pessoas 
que amam a luz e o rumor dos anjos, 
neste Natal que trespassa 
a nossa frágil humanidade. 

Ao silêncio que guardamos no coração

juntemos um cântico de Alegria. 

Porque amamos a Paz. Porque desejamos Vida.

 

Um Natal cheio de conforto. 

Um ano de 2021 com Saúde e Amor.


Até para o ano. Fiquem bem. 

14.12.20

Memórias de Isadora I



Aceito. 
Deliberadamente aceito 
reencontrar-me comigo.

Em confusa harmonia, 
começa por meu olhar 
a urgência inaugural do reencontro. 

Um precavido silêncio ajusta a luz 
ao ritual mais virgem da memória. 

Não recuso o cerco. 
Dou ao tempo o jogo de quem vence. 

Abro devagar a seda de meus véus para 
desvendar o mel e o sangue dos sentidos, 
que a vida e a morte consentiram.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 15

7.12.20

Em seara alheia



A Queda Oca no Silêncio 

Ignoro a vida 
das coisas quando 
o olhar me dói, 
apressada que vou 
para chegar a tempo 
do nascimento das sombras. 
Cantam e esvoaçam os pássaros, 
espreguiçam-se no verde as ondas 
ou adormece o mar, cansado 
de incestuosos arremessos 
na inocência da areia? 
Não sei. 
Ai, como queria permanecer 
no meu lado de dentro 
sempre que de ti me ausento, 
abeto sem mácula, 
poema, 
casa à beira das chuvas 
de amoras no silvado. 
Explica-me a queda oca 
no silêncio provável do nada. 
Como é o grito da árvore?

Lília Tavares
In: A timidez das árvores. Modocromia, 2020, p. 66. Col. Mãos de Semear. Livros Lília Tavares, v. 1

29.11.20

Novo Livro de Poesia


 

Notícia da Editora Labirinto:

Poesia
Título: JOGO SENSUAL NO CHÃO DO PEITO
Autor: Graça Pires
Prefácio: Eugénia Vasques
Capa: Daniel Gonçalves, sob foto de Maycon Marmo
N.° de páginas: 62
ISBN:978-989-54902-7-1
Garanta o seu exemplar em pré-venda (10€), na nossa loja on-line e receba comodamente em casa sem custos.

https://www.editoralabirinto.net/product-page/jogo-sensual-no-ch%C3%A3o-do-peito

Sobre o livro:
 
Quem conhece o que escrevo sabe como gosto de encenar vozes de personagens, imaginando o que elas teriam dito se eu as pudesse ouvir. Por isso tento habitar o enredo que elaboro, para dele me tornar a protagonista.
Porque as pessoas não são apenas o que foram, mas também o que podemos supor que seriam.
É como se as fizéssemos nascer de novo para cumprirem uma viagem através das palavras.
É o poder da inscrição da voz sobre o silêncio.
É a fala da ficção dentro do poema.
É ser, ao mesmo tempo, pensamento e imagem.
Escolhi, Isadora, a bailarina que encantou e chocou o mundo, porque reconheço nela a artista que soube recuperar a inocência através da dança que lhe saía do corpo com uma perturbante plenitude.
Como escreveu Maria Zambrano, para a poesia nada vence a morte, a não ser por momentos, o amor. E foi com amor que incorporei a intimidade de uma mulher que desafiou um a um todos os instantes da sua vida, atravessada por tantos sonhos, tantos êxitos, tantas decepções, sempre de forma fascinante e sedutora.

Graça Pires, Novembro 2020

Se alguém quiser, pode ouvir um poema do novo livro:

https://youtu.be/bXRCgYDb7bg

23.11.20

Apetecia-lhe chorar

Francesca Woodman

Apetecia-lhe chorar
Gritar palavras sem nexo 
até enrouquecer. 
À distância da raiva, 
era visível ainda, a porta 
que ele usara para ir embora. 
Assim. Como quem levanta a bandeira 
do luto na fronteira do olhar. 
Era, agora, interminável o vazio a resvalar 
pelos tabiques, pelos móveis, pelo corpo. 
Tinha insónias. 
E, na língua, cicatrizes profundas 
de tanto soletrar o nome dele. 
O som da sua voz como um chicote.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 29

16.11.20

A redenção de um abraço

Montserrat Gudiol

Para todas as pessoas que estão a sofrer e para todos aqueles que mitigam esse sofrimento

Um cheiro insólito espalha-se pelo mundo
como uma labareda ou uma intriga.
Receamos a rotação dos dias
com sua foice negra.
Cada minuto pode ser um golpe a ferir 
a flor do peito na respiração das manhãs.
De mãos lavadas acenamos de longe
àqueles que, perto do coração, nos acenam.
O céu parece abater-se  sobre a esperança
que renasce a cada hora
mesmo quando o poder das sombras 
nos sobressalta.
Queremos o alento da vida.
Sem luto. Sem iniquidade.
Na frágil redenção de um abraço.

Graça Pires, Nov. 2020

9.11.20

Amava a montanha desde que nasceu

Ansel Adams

Amava a montanha desde que nasceu. 
Amava-a tanto como se fora outra mãe 
que o protegia. 
Um dia em que dilatou o olhar para ocidente, 
entendeu com inexplicável rigor 
um motivo de evasão. 
E quando a neve 
era ainda mais branca nos seus olhos, 
seguiu o chamamento do mar 
na sede das raízes que o prendiam 
ao lugar que amava. 
Agora as gaivotas vêm morder-lhe na boca 
os frutos silvestres.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 27

2.11.20

Deambulou ao acaso

Olívia Marques

Deambulou ao acaso
soltando os fantasmas e os sonhos. 
Transpôs os espelhos quebrados, 
os muros caídos, as árvores já velhas. 
No desfile mágico dos mortos 
procurava pedro páramo, afirmava. 
Mas os caminhos extenuaram-lhe os pés 
e a sua boca inchou com o silêncio, 
com a poeira, com as ervas secas. 
Assombrado, rebolou o corpo 
pelo chão até ser trevo rasteiro.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 53

26.10.20

Em seara alheia


Dragão 
a Alcanhões, a minha terra 

Nasci guardado por um dragão antigo. 

Pedi-lhe que me ensinasse a extrair 
todas as profecias do futuro. 
E ele falou-me da seiva e das raízes, 
legado das oliveiras que herdei, 
e de como o azeite nunca cessou nas candeias 
ardendo no altar da minha casa. 

Perguntei-lhe se me cresceriam asas 
para seguir o curso dos rios 
e segurar a eternidade das estrelas. 

Mas não podendo voar 
nem cuspir o fogo que me ardia no peito 
bebi da água de todas as fontes 
para tocar a mesma luz que há nos astros. 

Samuel Pimenta 
In: Ascensão da água. Fafe: Labirinto, 2020, p. 42

19.10.20

Não é ficção nem simbologia

Adriano Miranda



Não é ficção nem simbologia. 
São homens sem abrigo, 
excluídos da luz, à espera 
de um mês propício para morrer. 
Em seus sonhos não há sol 
e possuem nos pés sem pátria 
todos os vestígios de fuga. 
A pele magoada de ardis 
tem o mesmo cheiro do rio na maré-vaza. 
Sobre os seus ombros apenas a noite: 
sempre tão húmida, sempre tão humilhante. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 52

12.10.20

Habitava aquele sítio por engano

                                                                 Richard Misrach 

Habitava aquele sítio por engano. 
Não era ali o lugar que procurara para viver. 
O que o fascinava era o deserto: 
a boca viciada pela sede, 
o vento ardido no olhar, 
a seiva dos cactos infiltrada nas veias. 
E, à distância da mão, a linha curva 
do poente a incendiar-se de estrelas. 
Em momentos da mais magoada solidão, 
saem de seus olhos tempestades de areia. 
Como se fosse um pranto. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 35

5.10.20

Não frequentou a escola

Adriano Miranda

Não frequentou a escola 
no tempo de criança que lhe coube. 
O trabalho instalou-se, desde sempre, 
na orfandade de suas mãos. 
Queimava alecrim para incensar 
a cal das paredes por onde gotejava 
a secura dos olhos. 
Um cansaço antigo a transformou 
em filha de si própria. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 25

28.9.20

Com as unhas fincadas no vaso de barro

Federica Erra

Com as unhas fincadas no vaso de barro 
onde crescem as sardinheiras brancas, 
ela rememorou alguns poemas 
escritos em folhas de plátano 
quando o outono, em seu percurso, 
as dispersava nos caminhos. 
Eram de amor as palavras que escrevia. 
Palavras de sedução, 
transparentes como a água. 
Resvalando sobre o nome 
que lhe conturbou o sangue. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 11

21.9.20

Não quis falar do vinho



Não quis falar do vinho 
entornado sobre a mesa. 
O bordado da toalha 
escondia enigmas 
que só as mãos das mulheres 
sabem decifrar no resgate 
de um meticuloso nomadismo.  
O jantar estava excelente, 
disseram seus amigos, 
voltando a encher os copos. 
Um rumor de vindimas 
propagou-se pela sala. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 40

14.9.20

Em seara alheia



Amo pelas manhãs o interior da casa 
a calma pousada sobre as coisas 
os objectos poucos 
ou da tua pele as adormecidas ruas 
poema e cidade teu corpo 
quando lá fora só o sol 
bronze longínquo 
e a tua voz como o som da água 
podem ouvir-se iniciando o ciclo do mundo e dos dias rentes 
onde ainda nada fora tocado 

E há em tudo um primordial desígnio de fruto 
porque tu estás 
onde começa cada ruído da casa 

José Pedro Leite 
In: A construção dos lábios. Ilustrações de Inês Cardoso Marques. Braga: Poética, 2020, p. 21

7.9.20

O estranho retorno de um espanto


O estranho retorno de um espanto 
aconteceu-lhe muitas vezes. 
Mas nunca como naquele dia 
em que a luz foi mais intensa 
nos seus olhos de criança. 
Avistou-o ao longe, o seu gato, 
companheiro de todas as tropelias, 
que ficara na quinta dos avós 
quando mudou para a cidade. 
Ninguém sabe como enfrentou 
tanto atalho, tanto quebranto, 
tantos perigos para chegar ali, 
ao sítio onde morava o menino. 
E ele, o menino, afogou a sua mágoa 
nas felinas tonalidades do olhar de um gato 
a quem chamava “bonitinho” e era dele. 

Graça Pires 
A solidão é como o vento, 2020, p.58

31.8.20

Apareceu como uma assombração

Dorothea Lange

Apareceu como uma assombração 
quase imperceptível no meio do inverno. 
Tinha deambulado pelas cidades, anónimo, 
com um saco a tiracolo cheio de raízes e de limos, 
de milho moído, de figos secos. 
Sabia agora como eram neutros,  
em sua vida, todos os silêncios de protesto. 
Queria falar até se tornar 
impronunciável o que dizia. 
Mas as palavras eram navalhas de barro 
que lhe asfixiavam a voz. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 14

24.8.20

Caminham por dentro do próprio desalento

Gregory Crewdson

Caminham por dentro do próprio desalento
com a memória exausta de pretéritos desejos. 
Já não sabem quem são. 
Dia após dia enfrentam a rejeição 
com o áspero calamento do olhar. 
Há golpes migrantes sulcando sua pele. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p.24

17.8.20

Em seara alheia


E VAI LENTO O NAVIO, enorme como os emblemas 
De um longo tempo nos cabelos do mar, 
E assumimos assim a composta melancolia, 
Em novelos de luz tão tocada, pedal azul. 
Vai lento como aquele insólito gigante 
Pedra grande, sentado na vigilância dos dias 
E o corpo em segredo, fantasia de continuar. 
Interrogamos a comissura dessas ilhas 
De que nos falaram em distantes rigores, 
A madeira do soneto, tão lento o navio. 
Tu dizes vou e não faz o mar que aqui havia 
Acaba o mês, os dias todos na pressa do brilho 
Sei baixinho aquele verso de que gostavas 
Para temporadas de silêncio, o teu peito.

Hugo Milhanas Machado
In: Estrela Tambor. Fafe: Labirinto, 2020, p. 36

10.8.20

Foi numa tarde de maio

Albino Moura


Foi numa tarde de maio que as fontes secaram.
 
O primeiro sinal foi dado pelas pombas 
que voavam espavoridas ao rés das janelas. 
Caladas, as mulheres esperaram a noite 
para se sangrarem como num parto. 
Por dentro dos sonhos dos homens 
escorregavam sequiosas serpentes 
que lhes sugavam as veias. 
Só as crianças, em perfeita nudez, 
espalharam o seu riso de água límpida 
e voaram sobre as casas como anjos.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 19


Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:
                       https://youtu.be/2Z20pDs1YMY