10.5.21

Em seara alheia



Caligrafia do mar 

No horizonte o mar é uno 
após o abismo de cada gota 
que se estende na maré alta 
tudo que sobra tem gosto de sal 
genuína alquimia 

desarticulado 
até o vento é meio azul 
quando levanta alguns grãos 
onde a espuma dança 
alargando as ondas descontínuas 

Solange Firmino 
In: Diante das Marés. Belo Horizonte: Caravana Grupo Editorial, 2021

Para adquirir este livro a R$ 29,90, acesse o site da Caravana Grupo Editorial.

2.5.21

Grávida da noite


Alfredo Cunha

Grávida da noite 
soube, desde logo, 
que o filho não iria pertencer-lhe. 
Adoptaram-no. 
Antes de o entregar 
ela lavou-o, demoradamente, 
com as próprias lágrimas. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 13

25.4.21

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu… 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pão de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra… 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração.                                                                                                                                               
Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.   

Miguel Torga
In: Diário XII, 1975  

Se quiserem ouvir o poema, dito e interpretado pelo meu filho Pedro podem fazê-lo aqui:

 https://youtu.be/9LPzqrigbJ0                                

                                                                                               
                                                                 

19.4.21

Memórias de Isadora VII



Não omito a fadiga dos recomeços.
Qualquer espelho me garantia a solidão. 

 Em demanda fui da ténue simbiose 
entre a sede e qualquer fonte. 
Meus lábios mordi até sangrar toda a secura 
dos dias e das noites confundidas no olhar. 
Rastejei dentro de mim para escutar, 
atónita, o chamamento da música. 
Da música de chopin, de beethoven, de wagner. 
Música que ninguém ousara dançar. 
Música que de modo espontâneo 
me delineou nos passos as cores eternas 
de um prisma de luz. 

Alguns dos meus trejeitos 
eram o desdobramento de pétalas de rosa, 
ou velas ao vento a pelejar as ondas. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020. p. 31

12.4.21

Trouxe o restolho dos fenos



Trouxe o restolho dos fenos 
e um mel antigo sobre os lábios. 
Furtou um barco no rio para remar 
lentamente no rendilhado 
das margens que oferecem às aves 
um ninho clandestino. 
Mergulhou de cabeça para dar aos peixes 
o suco guardado em sua boca 
e o perfume entranhado nos dedos 
presos ao caudal da corrente. 
Vacilante, enrolou o sorriso no passado 
e chorou com saudades do sul.

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 9

5.4.21

Memórias de Isadora VI


E dancei descalça por todos os lugares, 
imitando os rituais aos deuses 
das límpidas manhãs, 
ou aos anjos das trevas, 
na euforia do enlevo. 

Cúmplice fui de bacantes e de bichos. 
De árvores e de chuvas fui irmã.  

Concebi-me a usar a máscara das tragédias 
gregas até escutar vozes divinas. 

Bailarina imperfeita e persistente 
fiz do meu perfil a promessa inequívoca  
de um cerimonial dos sentidos, 
 um salto mortal do meu próprio começo. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 23

29.3.21

Em seara alheia

 


6.

Garimpar a luz 
de certas palavras mortiças 
até ao doce sabor dos frutos de outono. 
Cuidar dos laços que desataste 
na minha tristeza, 
dos que ataste na minha alegria. 
Cantar. 

Num alfabeto tão leve, tão breve, 
como se nele pousassem apenas borboletas. 
Um alfabeto que viesse acordar os homens 
para o Sol que espera há séculos 
a hora de nascer para todos.

Lídia Borges
In: Que farei com este azul que me beija. Braga: Poética, 2021, p. 18

21.3.21

As palavras andam por aí

Sarah Affonso 

As palavras penetram o espaço e o tempo. 
Amadurecem em papel de seda, 
manipulando a cor, ateando o silêncio, 
incendiando as cinzas, anunciando a luz. 
As palavras andam por aí 
como se fosse a vez primeira: 
solitariamente manejando a noite. 
E desnudam-me. 
Dançam no meu corpo. 
Cobrem-no de malícia. 
Tatuam em minha testa o tom 
das tangerinas para que o seu sumo 
me escorra pela cara até à boca. 

Graça Pires 
De A incidência da luz, 2011, p. 71 (reeditado)

Se quiserem ouvir o poema podem fazê-lo aqui:

https://youtu.be/ynVX8qL11N0

15.3.21

Encontrou-o à entrada do deserto



Encontrou-o à entrada do deserto, 
absorto, como se conhecesse 
todas as invocações do silêncio. 
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento, 
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão. 
Ela saía do deserto. O mesmo deserto. 
Trazia um cacto murcho em cada mão 
e um rio seco a escamar-lhe a pele. 
Olharam-se. E ela contou-lhe. 
Contou-lhe das vezes que se afogou 
no chão pensando que era água; 
como rebentaram seus lábios 
pela sede interminável. 
Disse-lhe que quase morreu 
com saudades do mar; 
que bebeu o próprio sangue 
para curar a febre e o delírio. 
Falou-lhe do medo e do cansaço 
que venceu cambaleando, rastejando, 
dormindo agarrada à noite. 
Ele hesitou. 
Depois, com uma quietude 
que só nos prodígios acontece, 
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 61

8.3.21

Secaram as roseiras bravas

Federica Erra


Secaram as roseiras bravas 
cultivadas no atalho da paisagem. 
Uma mulher canta roucamente 
e o seu canto é um brado 
em desavença com a mudez 
enraizada na garganta. 
Vagarosamente, enrodilha na anca 
as vestes de pano cerzido 
e afaga seu corpo com as mãos ásperas
como as roseiras bravas.
Tão precário, o perfume das rosas! 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 48

1.3.21

Se os despojos da noite

Hengki koentjoro 

Se os despojos da noite 
se insinuavam na gruta do olhar 
como uma advertência, 
com suas mãos se rasgava 
debruando o friso dos ombros 
com o gemido das ondas. 
Aos poucos, apresava a voz ao silêncio 
para escutar o vento a prender-lhe a sombra 
à sombra dos barcos. 
Havia quilhas em círculo no ventre da espuma 
e excesso de lodo à sua volta. 
Ninguém dava conta da névoa 
que entorpecia o grito e estrangulava os pulsos. 
Só a sua sombra, amarrada à sombra dos barcos, 
urdia outra névoa para proteger as quilhas.

Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 44

22.2.21

Memórias de Isadora V



Sobre o esguio molde de minhas pernas 
acoitei o ritmo imprevisto de todos os rumores. 
Com elas soergui o corpo até ficar íntima do chão. 
Sobre elas me suspendi em movimentos 
leves, sensuais, clandestinos quase. 
Para não ruir. 
Para aprisionar os ventos. 
Para silenciar os medos. 

Os habituais saberes do bailado  
não me pertenceram nunca. 
Preferi imitar o desassossego da natureza 
como se uma incompleta dança 
me nascesse nos ossos 
até se esvair, entreaberta, 
no mais fulgurante cansaço.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 20

Se alguém quiser, pode ouvir o poema pode fazê-lo aqui:

https://youtu.be/bXRCgYDb7bg



15.2.21

Em seara alheia



Um dia tudo se resolve 

Um dia tudo se resolve 
E milhares de ansiedades
são atendidas
gerações completam-se 
num dia fraterno
e apertado pelas praças

Um dia e depois passa
fica só a estabilidade
e talvez uma estátua
ou uma lápide à espreita
a macerar a memória desse dia

Quantas lutas ainda por esse dia
de corpo à frente do corpo
e o tempo concentrado
numa garrafa de palavras
e manifestos por esse dia único
dia-noite de todos os cânticos.

Tiago Patrício
In: Altos cumes. Fafe: Labirinto, 2020, p. 30 . 
Prémio de Poesia Victor oliveira Mateus 2019 

8.2.21

Ela bordou ponto por ponto


                                                                                              Para a minha irmã, Teresa Pires
Ela bordou ponto por ponto 
os veleiros que adivinhava no seu peito. 
Colocou o bordado num caixilho 
azul-marinho e pendurou-o 
numa das paredes mais visíveis da casa. 
Garantiu, assim, que a regata 
passará sempre à sua porta. 
Agora um braço de mar 
parece abraçá-la longamente. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 31

1.2.21

Memórias de Isadora IV



Nasci sob a estrela de Afrodite, 
dizia eu, na idade de todas as crenças. 

Hesitei tantas vezes no rio do olhar, 
tão afluente, quando se alongava 
para a margem da quietude 
e percorria todos os recantos de mim. 

Que sinal de lume ardia em meus cabelos 
que, por capricho, teciam sobre os ombros 
o delido incêndio do crepúsculo? 

Em meus cílios, eu sei, cresceram violetas 
de brandura e de revolta. 
Na cor de meus olhos se colheram. 
De seu perfume, imensamente ardente, 
se alagaram. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 19

25.1.21

Memórias de Isadora III



E na trama deste enredo me observo. 
Isadora, o meu nome aqui recordo, 
no desprendimento de mim.
 
Dobo o fio da inocência 
para preservar a infância, 
tão cativa já de minhas fugas 
quando, diante das ondas, 
num desvario louco,
me despia e bailava rente ao gozo, 
na mais leve vertigem de estar só.
 
Perto do mar reservei o lance irrepetível 
da evasão onde me desencontrei de mim 
e me aguardei e me persegui, 
amotinada, sempre, nos atalhos dos dias. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 18

18.1.21

Já se extinguiu a voz


Já se extinguiu a voz 
que lhe ensinou tudo o que sabe 
e que os seus olhos repetem 
em requebros de silêncio, 
até lhe ser nítido tudo o que aprendeu. 
Desfeitos os medos onde se escondia 
nas noites mais antigas, 
colheu no pão e na lã o aconchego certo. 
Uma ave branca esvoaça a cor indecisa 
das lágrimas que lhe encharcam 
as recordações dolorosas. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 18

11.1.21

Memórias de Isadora II



Por meu olhar, repito. 
Pelo olhar mais breve, mais ávido, mais livre. 
O olhar peregrino de abarcar o mundo todo. 
De manhãs claras possuído. 
Com nítidas sombras se ferindo. 
Tão intruso, às vezes, dos leves movimentos 
do meu corpo em vagaroso espanto. 
Tão clandestino, também, dos caminhos 
talhados por meus pés. 
Comovido, até, com a desordem dos pássaros 
no improviso da dança. 

Por meu olhar começa este jeito feroz 
de me enfrentar.

Graça Pires
De Jogo sensual no chão do peito. Fafe: Labirinto, 2020, p. 16

4.1.21

Do outro lado dos homens


Robert Cattan


Do outro lado dos homens 
a memória das sombras e dos mortos 
maneja o exílio das palavras 
e tece um tempo sem bênçãos 
para exorcizar os gritos, as cinzas, 
os nomes, a treva do próprio abismo.

É um tempo que só o silêncio mais íntegro redime.

E como se tudo fosse possível
num horizonte cúmplice e fraterno, 
há um tumulto no olhar inquieto dos homens
que alentam a coragem, 
permutam os abraços, 
buscam a senda da liberdade.

Por isso o poeta usa a inteira limpidez da voz para dizer:
ainda há canções para cantar do outro lado dos homens.

Graça Pires

In: A norte do futuro: homenagem poética a Paul Celan no centenário do seu nascimento. Organização e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Braga: Poética, 2020, p. 30

 



Itálicos tirados da antologia poética Sete rosas mais tarde, de Paul Celan , trad. João Barrento e Y. Centeno