19.9.13

A mesma luz

Vincent Van Gogh (detalhe)

A lua quase cheia acentua o ladrar dos cães
em pátios onde crescem 
desordenadamente as giestas.
Um duplo estremecimento lateja nos espelhos
como sombras insinuadas no eixo da luz,
a mesma luz que adivinhamos nas searas,
nas estrelas, nos girassóis de Van Gogh,
no post-it colado na mesa a dizer amo-te,
no risco incontornado dos relâmpagos.
Há um espesso ouro despenhado sobre as árvores 
porque o outono se detém na inclinação dos dias
e a colheita nos devassa a intimidade dos frutos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

12.9.13

Deixa-me beber o mel dos frutos



Vladimir Clavijo


Um pássaro de fogo hesita em atear a noite
porque temos a floração das árvores
atravessada no rosto a consentir-nos
um olhar capaz de agitar as tílias
ou fazer explodir as papoilas por dentro do deserto.

Há medronhos e morangos e bagos de romã
cortando a fome talhada no milho-rei das searas.
Deixa-me beber o mel dos frutos,
a mim, para sempre rendida ao néctar
de teus lábios claramente incendiados
nas primeiras águas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.9.13

O sinal de alarme

katia Chausheva


Regressei com a lentidão de quem vem de longe
do mar com pedras na boca para cuspir nos lugares
onde o vento envolve a gruta das nascentes.
Só a palidez das minhas unhas denunciava
o sinal de alarme que me atravessava os pulsos
mordidos por meus dentes quando a dupla sombra
dos barcos me roubou, em golpes certeiros,
o trigo onde se afundaram as foices.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

29.8.13

Tão frágil a construção do silêncio!

Ana Pires


No verão todas as manhãs são belas,
dissemos um dia, antes de sabermos
como nos pode asfixiar o áspero sangue
das correntes esfarrapando a espessura do lodo.
Tão frágil a construção do silêncio!

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

22.8.13

Sensualidade

Julien Dupré

Quando o estremecimento da brisa 
trazia o cheiro dos arbustos molhados
e o chiar das carroças carregadas de feno, 
as mulheres percorriam os caminhos
bamboleando as ancas em fantasiada dança. 
Seus passos denunciavam 
no chão o gozo dos corpos. 
Suas bocas lascivas cediam e recusavam 
o pedaço da fruta que apetecia 
morder em outras bocas. 
Os homens passavam devagar 
com o cio dos bichos a suar-lhes no sexo.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

15.8.13

Silêncio


andrey vahrushew


Talvez um golpe mudo 
construa a cegueira dos açudes 
talhados pelo vento 
no rastilho das noites, 
ou na corrente de um rio insubmisso. 
Talvez o silêncio seja a voz 
que sufoca o medo quando as aves 
começam a calar-se em nossas bocas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

8.8.13

Um brilho quase fatigado



Anda uma claridade esquiva 
a rondar-nos a casa. 
De encontro às vidraças,
um brilho quase fatigado 
vai abrindo a noite 
à transparência do olhar.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

31.7.13

Na estiagem



Tão íntimo das nascentes, o verde das veredas
desfaz-se em cinza quando as serranias
ondulam o lume sobre o chão.
Na estiagem há-de ouvir-se o murmúrio
agonizante dos rios já perdidos do mar.
E quando o inverno chegar, os caudais galgarão
as margens se o excesso de cimento consentir às águas
que firam as casas e a estreiteza dos caminhos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

23.7.13

Com o silêncio emboscado na voz

Ana Pires


Com o silêncio emboscado na voz
uma mulher atravessou um impossível retorno
rente a horários sem sentido.
Na linha das marés o magoado vértice das sombras
desenhava a solidão dos barcos destruídos.
Como se um frio de aço mutilasse todas as esperas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

14.7.13

Pressinto a hora dos naufrágios

Joakim Eskildsen


Sobre a linha do horizonte sulco 
a tristeza que se apodera da noite 
pela extrema possibilidade da mudez. 
Pressinto a hora dos naufrágios 
em meus lábios onde rangem 
os cascos dos barcos sem rota. 
Tenho nos joelhos a turbulência das marés. 
E fico com os dedos arroxeados 
como se remasse dias a fio 
até amainarem os ventos. 
Quando a cegueira me exigir, 
posso olhar a minha sombra sem medo do luto. 

Graça Pires 
De A incidência da luz, 2011

7.7.13

Segredo

Manuel Fazenda Lourenço


Sem horas. Sem coordenadas. 
Sem pontos de referência. 
Sem pressa nem vagar. 
Diz só onde me esperas 
na véspera do verão que inventaste 
para clandestinamente nos amarmos.

Graça Pires
De Cadernos de significados, 2013

29.6.13

Um lugar para morrer




Naquele mês espalhara-se a insólita notícia
da vinda de andorinhas brancas
trazidas pelos ventos do deserto.
Todas as mulheres subiram às colinas
mais íngremes abandonando as casas,
dias a fio, com o corpo envolto em panos negros.
Tinham pressentido,
no lentíssimo movimento do voo, que cada ave
procurava apenas um lugar para morrer.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

14.6.13

Não falo da importância do brilho


Duane Michals


Nem sempre as janelas oferecem às casas
todas as possibilidades da luz.
Não falo da importância do brilho coado
nas traves, ou do vento espreitando as frestas.
Refiro a transparência consentida às aves
na pressa das cidades onde o voo se faz fuga.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

8.6.13

A eternidade dos abismos

Menez


Possuímos uma nudez que sangra
no barro da encosta mais íngreme
por onde rastejamos a catástrofe da secura,
tão propícia à perturbação das mãos,
quando no coração do tempo nascer
a véspera de um lamento anunciando
a eternidade dos abismos.

A fadiga das mãos pode apressar
a morte dos afectos, me dirás.
Em redor de um barco
apenas os forasteiros desconhecem
quem se salva, hei-de responder-te.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.6.13

Abandono


Johnny Herman

Para a Elisa Cristina

Marcados por todas as violências 
eles afiam as pontas dos dedos 
nos subúrbios da noite 
para que nenhum medo os surpreenda. 
Eles vagueiam por becos 
que cheiram a fogo e a sangue 
armados de raiva, 
privados de sonhos, 
cobertos de abandono. 
São meninos da rua, 
ou pássaros em fuga 
desafiando a própria solidão.

Graça Pires
De Caderno de Significados, 2013

26.5.13

Como se fosse masculino o criador



As bonecas de trapos 
feitas por mãos de meninas
tinham tranças de lã amarela 
para parecerem loiras.
Como se fosse masculino o criador.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

19.5.13

Dádiva


Pedro Pires

Diante do mar dissemos: 
a nossa casa será um lugar sem desvios 
onde os amigos hão-de vir nos dias 
de sol intenso em busca de um recanto 
de sombra só disponível nas fontes. 
Virão, quem sabe, os filhos 
avistar da nossa janela 
o azul puríssimo das manhãs 
e entranhar no hálito o cheiro 
dos limos e do pão. 
Virão, quem sabe, os filhos 
com os filhos que tiveram 
para sabermos que não é tão breve 
coração que temos.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

12.5.13

De tanto chamarem pelos filhos

Di Cavalcanti

A todas as mães a quem desapareceram os filhos

Sentaram-se à roda da mesa, 
de cabeça erguida, 
como se rezassem. 
Ficaram frente a frente 
mutuamente se chorando. 
E tinham a boca inchada 
de tanto chamarem pelos filhos. 
Perturbadas com a própria sombra 
soltam, todas as noites, 
os cães e o desespero. 
E nunca mais dormiram.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

5.5.13

Canções guardadas na lembrança

Ana Pires

À memória da minha mãe e para a minha filha Ana

Há sons que estimulam
todos os enigmas,
mesmo os mais antigos,
tumultuando as violetas
que secam no verão
e  a dor dos filhos
que dura toda a vida,
mesmo quando as mães
guardam na lembrança
as canções de acalentar o sono
na inquietude das noites.

Graça Pires

30.4.13

Em manhãs saturadas de sombras

Josef koudelka


Em manhãs saturadas de sombras
ninguém se reconhece no país
onde os castanheiros velhos não suportaram
a secura que martelou os dias em invisível combustão. 
Rastejamos, então, pelo trilho mais húmido
para que a morte não nos perfure a veia precária
do destino com facas de fogo incendiadas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

24.4.13

Liberdade




Dir-te-ei: há cavalos verdes nas margens do vento arrostando a claridade do dia quando a luz se inclina levemente para um sul inacessível e a palavra mais livre se abre na voz. Haja o que houver a liberdade é aqui, onde apertamos a esperança contra o peito.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

15.4.13

Queria prender no cabelo

Robert Coombs


Queria prender no cabelo
uma haste de sol ou um pássaro,
mas ninguém retirou as trepadeiras secas
para que a hora de verão retocasse a cal
dos muros sulcados pela chuva.
Ninguém indagou o brilho deslumbrado do olhar
quando o golpe da noite desafiava o vulto dos corpos.
Apenas o azul silencioso dos cumes
se abrigou no regaço onde as meninas
escondem o abraço das  mães
para que o mel regresse às colmeias silvestres.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

9.4.13

A rasar-nos o olhar




É indecifrável a mancha de pinheiros
o âmago da sombra
quando a efemeridade do crepúsculo
rasga devagar o coração dos prados.
Aos muros de paredes cruas
agarra-se impetuosamente
uma figueira-brava.
Um punhal de jade a rasar-nos o olhar
golpeia o brilho do trevo ou da trama
na sorte que nos cerca
Apetece colher todo o verde das maçãs
para que não apodreçam nas mãos da chuva
que voa junto ao chão.
Só os salteadores de estrada
conhecem o segredo das ervas rasteiras.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.4.13

Hesitação




Vladimir Clavijo

Não falarei do voo dos insectos em volta das sécias coloridas. Não falarei das marés que desalojam os barcos do rigor da corrente. Não falarei da colcha antiga bordada com lilases sombreados no matiz das cores. Não falarei das palavras que nos cercam de ruídos inúteis. Não falarei do remorso enrolado no sorriso das mulheres que envelhecem a sonhar um destino sem medos. Não falarei. Vou apenas inclinar-me sobre o tempo onde dançam os anjos com as sombras que me procuram.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

19.3.13

Convite

Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo. Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.


Gostava muito da vossa presença, minhas amigas e meus amigos.

13.3.13

Procuro as tuas mãos. Procuro a tua voz



À memória da minha mãe

Viajo com a respiração do mar
agarrada ao tecido do peito.
Foi o vento que rasgou os ombros da noite
e a boca dos marinheiros alagada de azul.
Procuro as tuas mãos.
A recolha das redes prendeu os meus dedos às fragas.
Em contraluz o voo das gaivotas
encheu-me de sal os lábios e a língua.
Procuro a tua voz.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

7.3.13

Desafiando o medo


Vladimir Clavijo


Desafiando o medo, elas aguçaram as unhas
na própria sombra até fenderem a nudez
dos gestos arriscados.
A rigidez das escarpas agravada na fuga.
A flecha e o arco à entrada da boca.
Os dedos torcidos no bolor do pão.
A volúpia tangível à desordem do olhar.
Com as mãos inchadas percorrem
o corpo todo para que o fogo e as cinzas
se confundam com a solidão.
Conhecem a inutilidade das facas no veio do pranto.
E cismam diante dos espelhos onde, no rigor
das noites, vêem definhar os seios e as pernas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

24.2.13

Lentamente



Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

17.2.13

O excesso de luar




A lua abriu um sulco no telhado
e uma estranha névoa cobriu todas as casas.
As aves marinhas alteraram seu rumo.
Algumas mulheres atiraram-se ao mar
e seguiram as embarcações
até se transformarem em gaivotas.
Houve homens que enlouqueceram
com o excesso de luar e acorrentaram os filhos
com medo de os perderem.
Os vasos da varanda alagaram-se de vento
 e os gerânios vermelhos secaram.
As crianças esconderam-se
por trás dos espelhos para não verem
o rosto fascinante da morte.

Graça Pires

De A incidência da luz, 2011

10.2.13

O grito dos cumes



Quero guardar no interior das mãos
a esquiva cintilância das manhãs inadiadas.
Quero palavras com punhais de raiva
a ferir o grito dos cumes,
a riscar o ventre da neve com minuciosas unhas.
E viro do avesso o manto do olhar
para chegar à Montanha Mágica
quando Hans Castorp fazia um esforço
para ver e deparava com o nada,
o remoinho branco do nada.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.2.13

Escrevemos mar


Ana Pires

Escrevemos mar como se fosse a palavra
única que nos circunda a fala.
Quando éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E havia traineiras em que os pescadores manchados
de sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado adeus ao apelo dos corais.

Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012