Afasto, devagar,
dos ombros da manhã,
a lonjura de cera
implícita nos meus passos
como um aviso de asas.
Já não podem tardar
os dedos que sufocam o medo
nos degraus da noite,
contos de fada
vidrados nos meus pulsos,
ângulo ou curva
de ternuras ausentes,
sinal anterior
a qualquer contradição.
Sou, por instantes,
um sossegado insecto
na flor dos lábios.
Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
29.6.26
Aviso de asas
16.6.26
O grito da fuga
que fez voar o barco
onde a fuga se fez grito.
Foram os pássaros
em silente voo
que no rumo da brisa
incendiaram a noite
para não haver alarme
onde o grito da fuga foi de júbilo.
3.6.26
Em seara alheia
é do barro que moldo a primeira palavra
vou colhendo das sebes e das trepadeiras
vocábulos incomuns
e outros simples
como os que dizem as crianças
quando brincam sozinhas às princesas
enquanto na ampulheta
o sobressalto da areia vai desenhando trajetórias vãs
deixo o poema na mesa a levedar
mas
meu amor
será para ti a primeira fatia.
17.5.26
Convite Poemas escolhidos: 2012-2025
Sei que algumas amigas e alguns amigos são meus leitores desde o primeiro livro e por isso possuem os 11 livros que constam desta antologia. Mas, para os que não os têm, esta pode ser uma oportunidade de adquirirem estes Poemas Escolhidos, se tiverem interesse ou gostarem de oferecer a alguém. Eu agradeço o carinho.
Aqui vos deixo um poema do livro:
O viajante ajoelhou-se sobre a terra
e cantou e cantando rezou.
Carregava nos ombros o afluente de um rio
para o largar no longo chão das lavouras.
O pão ázimo lhe sufocava a fome.
A chuva lhe esquecia a sede.
Seu coração emudecia quando um denso
nevoeiro (quase lágrimas) lhe gravava na boca
o clamor dos glaciares desmoronados.
3.5.26
Mãe
Nunca pedi sempre aceitei
afirmou minha mãe.
Tinha noventa anos
e a autenticidade discreta
de quem sempre soube receber
através do tanto que deu.
Suas mãos tão inteiras
no ensejo de dar
cheiravam a terra e a pão.
24.4.26
Nós somos a liberdade
“a liberdade é minha”.
Alguém riscou a frase e escreveu
“Nós somos a liberdade”
A partir desse momento,
quem por ali passava escrevia também:
“nós somos a liberdade”.
No muro inteiro ficou impressa
aquela litania espontânea de palavras
que esvoaçavam no peito
como uma bandeira.
3.4.26
Em vigília sagrada
onde aceito todas as crenças
como um sacramento,
procuro uma harmonia
de todos os sacrifícios,
Deixo que o incenso
e embacie meus olhos.
Imersa na meditação,
que a cólera dos deuses
Uma súplica, uma dor,
Há desvios subterrâneos onde me perco.
Há em minha boca uma parábola de sangue,
como um castigo, ou uma cruz,
21.3.26
Luz criadora de luz
António Cravo
Para todos os que amam a Poesia
Quando as palavras
abrasam a boca dos poetas
avistamos poeiras
a luzir em suas mãos
e a sede enrolada na língua
a beber o brilho.
Na vastidão do vazio
procuram a luz criadora de luz.
8.3.26
Raiz ou começo
Um busto de mulher:
tronco de uma árvore
fixada à terra e à seiva.
Raiz ou começo.
Fêmea de dor
exposta a múltiplos ardis.
Trilho de sangue
consagrado como origem
da fertilidade materna.
23.2.26
Cobrimo-nos de branco
É-nos interdita a luz absoluta
Por isso nos cobrimos de branco
para que o nosso olhar profano
alcance a origem sagrada
da singular harmonia cósmica.
De Talvez haja amoras amaduras à entrada da noite, 2025, p. 27
9.2.26
Os nomes
Pousei devagar o silêncio por dentro das palavras
sem ignorar seus gumes para que a voz vigiasse
os nomes sombrios pronunciados para sempre.
Agora os nomes são cristais de sangue
que pegam lume à minha língua.
Possuo o tremor do gesto no vitral das mãos
nervo tenso vacilante e silente
ocultado na desordem de um grito.
E sei que cada nome pode ser uma emboscada
um esconderijo um lugar de encontro
um lugar para morar ou a denúncia da morte.
26.1.26
Fascínio da inocência
Manuel Fazenda Lourenço
das fogueiras acesas
sobre a areia húmida
na hora em que a febre e o sal
alucinam o vento.
Cobre-me de linho antigo
se o o ímpeto do sol incide sobre o mar.
Envolvente será a espuma das ondas
aberta ao fascínio da inocência
desoladamente perdida.
12.1.26
A luz das açucenas
sobre os arbustos,
incerto e sem peso.
É o momento em que o olhar
não tolera a luz que incide
sobre branquíssimas açucenas.
Digo pétala, e o perfume de cada flor
estremece no olfacto
como um sismo brando,
com réplicas no chão flexível
que me prende e torna urgentes
os caminhos repetidamente pisados.








