11.10.21

Em seara alheia



Vivo no batimento cardíaco 
de uma gaiola de refugiados. 

O novo século anunciava filigrana, 
gargantas sem alçapão, 
altruísmo de medula intacta. 
Recitava-se a amnésia das fronteiras, 
a livre circulação de candelabros na utopia 
e mentes capazes de respirar esculturas de Rodin. 

Atravesso a Europa vestida de arame farpado. 
Passo os meses à espera 
que o estio me dê um autógrafo. 

Vivemos tempos de Goya na boca, 
não pelo tráfego do deslumbramento, 
mas pela imagem sombria pendurada no palato. 
O terror sempre deu braçadas largas. 

Somos o lapso que nunca atinge o degelo.

Alberto Pereira
In: Neve interior. Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2021, p. 36

67 comentários:

brancas nuvens negras disse...

O caminho que a humanidade está a trilhar não conduzirá a nada de bom.
Bom Dia, um abraço.

chica disse...

Versos fortes, poesia linda escolhida pra hoje! Linda semana pra ti! beijos, chica

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Vivemos tempos difíceis e de incerteza.
Gostei deste poema.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

Vanessa Casais disse...

Fantástico. O retrato cru dos dias que correm.

Beijinhos e boa semana,
Vanessa Casais
https://primeirolimao.blogspot.com/

" R y k @ r d o " disse...

Infelizmente ganância do homem vai acabar por destruir a humanidade.
Belo tema.
Cumprimentos poéticos

Maria João Brito de Sousa disse...

Que fabuloso poema, Graça!

A rota seguida pela nossa humana barca poderia ser a mais bela das rotas, não fosse ela ser capitaneada pelos eternos acumuladores de obscenas fortunas.

Um beijo!

Marta Vinhais disse...

Medo no caminho que percorremos...
Interessante o poema....
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça!
Muito interessante este poema. Confesso, que não conheço o autor. Mas, pela inspiração deste poema, será por certo excelente.
Grato, pela partilha.

Votos de uma excelente semana, com muita saúde.
Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Fá menor disse...

Belíssima escolha para nos mostrar!

"O terror sempre deu braçadas largas.
Somos o lapso que nunca atinge o degelo."

Vivemos tempos em que arame farpado nos espreita a cada canto.

Beijinhos e boa semana!

Roselia Bezerra disse...

Bom dia de paz, querida amiga Graça!
Estamos mesmo sufocados, com um aperto na goela...
O cerco do farpado está armado...
Um poema bem escolhido para estar aqui a nos revelar nossa cruel realidade atual do mundo, além da Europa.
Estamos refugiados à mercê de quem nos governa, atualmente, mesmo vacinados, pelo vírus que dizem veio para ficar.
Tenha uma nova semana abençoada!
Beijinhos com carinho de gratidão e estima

Manuel Veiga disse...

paarece-me um porta que merece ser lido
grsto por dares a conhever

beijo, POeta

Fê blue bird disse...

Tanto desespero, nesta sábias, realistas e dolorosas palavras.
Um frio percorreu-me a alma, ao lê-lo .
Obrigada pela partilha.

Um beijinho, feliz semana, amiga Graça.

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, amiga Graça!
Sempre que tenho a oportunidade de falar sobre literatura, não deixo de dar realce à poesia, quer nos livros, quer na Internet, e, não raro, tenho recomendado este seu espaço poético, que edita principalmente os poemas de sua lavra, como este belo poema de seu convidado.
Parabéns, Graça.
Uma ótima semana.
Beijo.

José Carlos Sant Anna disse...

Estamos diante de uma tela inquietante, tão bem plasmada. "O terror sempre deu braçadas largas./ Somos o lapso que nunca atinge o degelo." Aliás, a partilha nos faz acreditar que a poética de Alberto Pereira é toda inquietante, o que nos leva a dialogar com a sua poética.
Um beijo, minha amiga Graça!

Cidália Ferreira disse...

Parabéns ao Poeta. Adorei o poema!:))
-
Mãos que acolhem no regaço
-
Votos de uma excelente semana. Beijos

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Um poema belíssimo que nos fala dos tempos de clausura e terror que atravessamos.
O tempo de "filigrana" que não chegámos a conhecer...
Gostei imenso deste poema e de conhecer o autor, que é excelente.
Obrigada pela partilha.
Beijinhos, minha Amiga e Enorme Poeta.
Boa semana.
Ailime

teresadias disse...

Poema dramático, retrato de uma realidade que a todos nós envergonha.
Graça, excelente partilha.
Beijo amiga, uma serena semana.

Tais Luso de Carvalho disse...

Olá, querida Graça, gostei muito, minha amiga, é isso que estamos vivendo, na verdade, não sei onde vamos parar, somos um só bloco que sofre os mesmos danos, uns com mais intensidade, outros com menos; uns com mais sorte, outros com menos.
Gostei de conhecer esse poeta!
Obrigada pela partilha, Graça!
Cuide-se, uma feliz semana, na medida do possível!
beijinho.

bea disse...

Uma realidade tão penosa como belamente descrita e escrita. Parabéns ao autor.

Daniela Silva disse...

Uma excelente escolha para partilhar :)

Teresa Isabel Silva disse...

Não conhecia o poema, mas gostei bastante.
Obrigado pela partilha!

Bjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram | Youtube

carlos perrotti disse...

Não conhecia o Poeta, Graça. Uma voz de grande força e sonoridade. Muito obrigado por revelar para mim.

Grande abraço, amiga. Cuide bem de você também.

JUAN FUENTES disse...

Mi amo por las fotografias me ayudan a soportar el paso de loa años

Os olhares da Gracinha! disse...

Para reflectir sem dúvida!!!
Boa semana!

Majo Dutra disse...

Tenho o meu próximo 'post' preparado sobre este tema.
O Alberto Pereira faz uma análise poética brilhante,
sem eufemismos, num realismo um tanto hiperbolizado
em defesa da sua opinião.
Gostei muito, Graça. Grata por divulgar.
Uma boa semana. Beijinhos.
~~~~

Elvira Carvalho disse...

Não conhecia o poeta, mas gosto muito deste poema.
Abraço, saúde e uma boa semana

J.P. Alexander disse...

Bello y profundo poema . Tienes toda la razón vivimos en un mundo que glorifica la violencia y el odio.Te mando un beso

Maria Emilia B. Teixeira disse...

" O terror sempre deu braçadas largas.
Somos o lapso que nunca atinge o degelo."
Triste caminho da realidade, tempos tão estranhos.
Boa noite.Bjs.

solfirmino disse...

Ótima escolha, amiga.
O terror está no mundo inteiro, não somente na Europa...
Um beijinho e ótima semana

Isa Sá disse...

A passar por cá para conhecer mais um bonito poema.

Isabel Sá
Brilhos da Moda

ruma disse...

É um evento muito difícil.

Obrigado pela sua visita sempre.

Desejo a todos o melhor.
Saudação e abraço.

Do Japão, ruma ❃

Laura. M disse...

Palabras que definen bien la triste realidad.
Buen martes Graça.
Un abrazo.

Marco Luijken disse...

Special words.
Love each other without misery in the world.

Greetings and kiss, Marco

© Piedade Araújo Sol disse...

A escolha de um poema denso e forte.
Bem escolhido, para o tempo que estamos.
Beijinhos

:)

São disse...

Gostei imenso de conhecer!

Beijinho, amiga, tudo de bom

alberto bertow marabello disse...

Il disgelo arriverà solo se sapremo scaldarci l'un l'altro.
Ciao amica mia Poetisa, ci proponi sempre belle poesie.
Un abbraccio e um beijo

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Graça,
É sempre uma maravilha
ler aqui.
Bela escolha de texto.
Brigadin por ler nos
Blogs que escrevo.
CatiahoAlc./Reflexod'Alma
dos Blogs(atualizados):
https://reflexodalma.blogspot.com/
https://frasesemreflexos.blogspot.com/

Emília Pinto disse...

As rosas são belas em qualquer jardim, mesmo que à sua volta cresçam ervas daninhas; são resistente, mas, como todos nós, com o tempo, vão definhando e as pétalas caindo uma a uma; resta o caule que ficará com a recordação da última rosa, até que uma outra, se possivel, ainda mais bela brote e assim o jardim volte à sua beleza. Assim é também em Famalicão, cidade onde vivo, linda, bem cuidada, com problemas vários e gentes aflitas sonhando com uma vida melhor. Nesta tua seara a que chamas " alheia" dás-me a conhecer um poeta que desconheço ( embora viva na minha cidade..) e que traz, em lindos versos, um tema desumano que não deve ser " alheio " a nenhum de nós; mas, querida Amiga, na seara dos que nos regem , não conseguimos descobrir a sensibilidade e solidariedade bastantes para se fazer uma colheita que mitigue a fome, a sede e as necessidades minimas de tantos que fogem de uma vida indigna, somente esperando um " colo" que os acolha com carinho. Pede muito pouco, essa gente, mas poucos se preocupam , a não ser aqueles heróis anónimos que fazem o impossivel para arrancar um possivel sorriso no rosto dessas pessoas. Muitos já desaprenderam a sorrir. Beijinhos, querida Amiga e saúde para todos aí em casa. Obrigada por me dares a conhecer um poeta de V. N. de Famalicão.
Emilia

Luiz Gomes disse...

Oi Graça. Infelizmente vemos velhos e antigos caminhos no Afeganistão.

Maria Rodrigues disse...

Palavras profundas e sentidas num belíssimo poema.
Excelente escolha
Beijinhos

As Mulheres 4estacoes disse...

Olá, Graça!

Partilha aqui um belo poema, forte e triste.
Algumas travessias são demasiadamente dolorosas.

Um abraço

Andrea Giovanna disse...

Poema forte, potente e real. Não conhecia o poeta. Obrigada , bjinhos

Lucinalva disse...

Olá Graça
Estamos vivendo tempos trabalhosos, só a misericórdia de Deus, bjs querida.

partilha de silêncios disse...

É preciso mudar o caminho que a humanidade está a seguir.
Adorei a escolha do poema.
Continuação de boa semana.
bjs

Sinval Santos da Silveira disse...

Mestra,Peetisa, Graça Pires !
Eis o lado amargo das lembranças,
adoçado por um estilo poético,
tornando-o sobejamente suportável.
Cumprimentos ao Autor, e a ti,pela
feliz escolha !
Uma ótima semana e um fraternal
abraço, aqui do Brasil !
Sinval.

Agostinho disse...

Num balancear de metáforas o Poeta sublima o jogo das gaiolas
- castelo ou prisão. E chama à poesia as causas, os sentimentos
dos confrontos do momento. Este é um tempo de fronteira.
Goya ou Rodin? Talvez.
Vivamos a noite de portas abertas para que o descanso nos proteja.
Saúde, Amiga Graça Pires.

Alécio Souza disse...

Querida Graça,
Poema profundo que toca nas feridas da sociedade, na frase "O terror sempre deu braçadas largas" é um retrato do que vivemos hoje no Brasil. Adorei o poema e obrigado por compartilhar.
Um beijo!

manuela barroso disse...

Grande poema este do Alberto, onde com o estilo que o caracteriza, o seu grito soa a um alarme que faz eco no vazio.Mas ninguém ouve.
Grande escolha, querida Graça
Um grande beijinho

Jaime Portela disse...

Um bom poema.
Gostei de ler, não conhecia este poema. Obrigado pela partilha.
Continuação de boa semana, querida amiga Graça.
Beijo.

AC disse...

Um olhar ácido, amargurado, próprio de quem não se revê nas incongruências dum mundo apressado, formatado para não olhar para as lições do passado.
Excelente poema.

Um beijinho, Graça :)

Portugalredecouvertes disse...

Olá Graça não conhecia a obra desse poeta e fui ler um pouco mais
sempre muito "ácido" como efeito !
mas ele "grita" contra as injustiças e o sofrimento que
continua a existir no mundo..

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça.
Passando por aqui, relendo este excelente poema, que muito apreciei, e desejar um Feliz fim de semana, com muita saúde
Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Malindha Erba disse...

Muchas gracias por este poema tan potente y real ^^

LuísM Castanheira disse...

Olá, Graça,
Para os migrantes
todos os caminhos são feitos de espinhos
ou águas a afundarem-lhes os sonhos, na fuga de pesadelos.

Gostei deste poema e da divulgação do autor.
Um bom fim-de-semana, Amiga.
Cuida-te muito e um beijo.

A.S. disse...

Um retrato do mundo pelo olhar do poeta!
Os fungos estendem o seu manto, emergem silenciosos entre a vida e a morte.
Já não há alquimia, nem saber, nem amor, apenas um patíbulo!
Somente uma sombra negra se passeia...

Bom fim de semana, com muita saúde, amiga Graça. Cuide-se bem.
Um beijo!

Juvenal Nunes disse...

Não é por não haver fronteiras que o mundo esteja mais ao nosso alcance.
O desrespeito pelos direitos humanos é uma intransponível fronteira que urge, tenazmente, combater.
Abraço amigo.
Juvenal Nunes

Anete disse...

Uma realidade dura e brutal num belo poema. Ótima escolha.
Bjs e boa continuação de sábado, Graça...

Rere disse...

Thanks for sharing

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Isa Sá disse...

A passar por cá para desejar bom domingo!


Isabel Sá
Brilhos da Moda

lupuscanissignatus disse...

Nadar contra a atonia.

Mergulho profundo.

Obrigado pela partilha.

lupuscanissignatus disse...

Mergulho profundo.

Nadar contra as águas do ódio.

Olinda Melo disse...


Uma forma excelente, poética, de criticar e
apontar os desmandos que atravessamos.
Gostei muito deste poeta e deste poema que
nos oferece através da sua "Seara alheia".
Muito obrigada.
Bom domingo.
Beijinhos
Olinda

Megy Maia disse...

Um mergulho profundo nas sombras pintadas pelas " gentes " de um agora!
Continuação de uma noite iluminada!
Beijinhos recheados de esperança!
Megy Maia🍁😊🍂

Alberto Pereira disse...

Muito obrigado a todos pelos generosos comentários.

Alberto Pereira

Catarina Lobo disse...

Na minha opinião, Alberto Pereira é hoje em dia o poeta contemporâneo que mais se aproxima do sublime dos grandes Poetas. O seu fôlego metafórico apresenta uma robustez que não é hermética, mas que permite filosofar sobre as grandes inquietações humanas.
Magnífico!
Aconselho vivamente toda a sua obra.

Ana Freire disse...

Uma poderosa descrição destes tempos de agora... bem longínquos das promessas de outrora... quando se iniciou uma desigual união neste bloco de gelo europeu...
Fabulosa partilha poética, Graça! Para ler, e reler...
Beijinho
Ana

baili disse...

an impressive and deep expression to reveal ugly reality of this world and specially the part controlled by politics and capitalist sadly .

i enjoyed and liked the poet and very much .

thank you for sharing from unknown parts of world dear Grace ,it is always pleasure to learn that we all think similarly most ofthe time .
hugs!