3.4.26

Em vigília sagrada

 

                                                                    Katia Chausheva



Em vigília sagrada
onde aceito todas as crenças
como um sacramento,
procuro uma harmonia
expressa na promessa 
de reaprender as preces 
de uma fé antiga, com o timbre 
espiritual de um culto. 
Participo na procissão 
de peregrinos exaustos.
De joelhos dobrados, 
levanto a taça
de todos os sacrifícios, 
em oferenda aos deuses, 
repetindo hinos litúrgicos 
em festividade pagã, 
transportando na voz 
o fulgor dos crentes.
Deixo que o incenso 
me cubra a cara
e embacie meus olhos.
Imersa na meditação, 
entro na obscuridade
que a cólera dos deuses 
arremessa ao meu perfil, 
quando a inutilidade 
de quase tudo me rodeia.
Uma súplica, uma dor, 
tornam de lodo as minhas mãos 
presas ao instinto de um destino 
refeito em forma de labirinto, 
onde procuro a saída 
para uma eternidade feita 
de ínfimos momentos.
Há desvios subterrâneos onde me perco.
Há em minha boca uma parábola de sangue,
como um castigo, ou uma cruz, 
ou uma absolvição.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 87

Desejo a todas as minhas Amigas e a todos os meus amigos uma Páscoa com Amor, saúde e Paz

21.3.26

Luz criadora de luz

                                            
 

                                                                         António Cravo                                                                                                           

                                                                           

                                                                            Para todos os que amam a Poesia                    

                                                                                                      

Quando as palavras
abrasam a boca dos poetas
avistamos poeiras
a luzir em suas mãos
e a sede enrolada na língua
a beber o brilho.
Na vastidão do vazio
procuram a luz criadora de luz.

Graça Pires
De Talvez haja amoras maduras à entrada da noite, 2025, p. 50

8.3.26

Raiz ou começo

                         

Edward Weston

                                                                                            Dedicado a todas as mulheres

Um busto de mulher:
tronco de uma árvore
fixada à terra e à seiva.
Raiz ou começo.
Fêmea de dor
exposta a múltiplos ardis.
Trilho de sangue
consagrado como origem
da fertilidade materna.

Graça Pires
De Talvez haja amoras maduras à entrada da noite, 2025, p. 47

23.2.26

Cobrimo-nos de branco

                                                                                                          Albino Moura



É-nos interdita a luz absoluta
Por isso nos cobrimos de branco
para que o nosso olhar profano
alcance a origem sagrada
da singular harmonia cósmica.

Graça Pires

De Talvez  haja amoras amaduras à entrada da noite, 2025, p. 27





9.2.26

Os nomes

                         

Catrin Welz Stein



Pousei devagar o silêncio por dentro das palavras
sem ignorar seus gumes para que a voz vigiasse
os nomes sombrios pronunciados para sempre.

 

Agora os nomes são cristais de sangue
que pegam lume à minha língua.

 

Possuo o tremor do gesto no vitral das mãos
nervo tenso vacilante e silente
ocultado na desordem de um grito.

 

E sei que cada nome pode ser uma emboscada
um esconderijo um lugar de encontro
um lugar para morar ou a denúncia da morte.

Graça Pires
De O improviso de viver, 2023, p. 41

26.1.26

Fascínio da inocência

                             

                       Manuel Fazenda Lourenço


Diz-me a brevidade
das fogueiras acesas
sobre a areia húmida
na hora em que a febre e o sal
alucinam o vento.
Cobre-me de linho antigo
se o o ímpeto do sol incide sobre o mar.
Envolvente será a espuma das ondas
aberta ao fascínio da inocência
desoladamente perdida.

Graça Pires
De Talvez haja amoras maduras à entrada da noite, 2025, p. 8

12.1.26

A luz das açucenas




No impulso da manhã,
o nevoeiro esfarrapa-se
sobre os arbustos,
incerto e sem peso.
É o momento em que o olhar
não tolera a luz que incide
sobre branquíssimas açucenas.
Digo pétala, e o perfume de cada flor
estremece no olfacto
como um sismo brando,
com réplicas no chão flexível
que me prende e torna urgentes
os caminhos repetidamente pisados.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2022, p. 48


Informo todas as minhas amigas e todos os meus amigos que, por motivos pessoais, vou fazer um espaçamento maior entre postagens. Mas sempre que actualizar visitarei cada um dos blogues. Obrigada pela compreensão.