3.4.26

Em vigília sagrada

 

                                                                    Katia Chausheva



Em vigília sagrada
onde aceito todas as crenças
como um sacramento,
procuro uma harmonia
expressa na promessa 
de reaprender as preces 
de uma fé antiga, com o timbre 
espiritual de um culto. 
Participo na procissão 
de peregrinos exaustos.
De joelhos dobrados, 
levanto a taça
de todos os sacrifícios, 
em oferenda aos deuses, 
repetindo hinos litúrgicos 
em festividade pagã, 
transportando na voz 
o fulgor dos crentes.
Deixo que o incenso 
me cubra a cara
e embacie meus olhos.
Imersa na meditação, 
entro na obscuridade
que a cólera dos deuses 
arremessa ao meu perfil, 
quando a inutilidade 
de quase tudo me rodeia.
Uma súplica, uma dor, 
tornam de lodo as minhas mãos 
presas ao instinto de um destino 
refeito em forma de labirinto, 
onde procuro a saída 
para uma eternidade feita 
de ínfimos momentos.
Há desvios subterrâneos onde me perco.
Há em minha boca uma parábola de sangue,
como um castigo, ou uma cruz, 
ou uma absolvição.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 87

Desejo a todas as minhas Amigas e a todos os meus amigos uma Páscoa com Amor, saúde e Paz