
Trazíamos ainda nos ouvidos o canto
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.
Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000
acre e fausto das cigarras. Vinham com ele,
amarrados, os bois, as noras, os carvalhos,
e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma
poroso dos rododendros. Porque é deles
que falas onde quer que te dispas, e des-
nudes, desprevenido e inteiro. Da moldura
partida e do retrato caído no degrau mais
fundo das escadas. Sim, por mais que
digas, falas sempre das abelhas, do mel
adolescente escorrendo dos favos loucos
da alegria. Da alegria perdida, reencontrada,
perdida entre os escombros e as abjecções
do real, mais falso e verdadeiro que todas
as verdades aprendidas, que todos os
dogmas e doutrinas acumuladas nos
compêndios por onde te ensinaram a
vida.
Albano Martins,
Rodomel rododendro, 1989
In: Assim são as algas. Porto : Campo das Letras, 2000
















































