29.6.26

Aviso de asas

 



 

Afasto, devagar,
dos ombros da manhã,
a lonjura de cera
implícita nos meus passos
como um aviso de asas.

Já não podem tardar
os dedos que sufocam o medo
nos degraus da noite,
contos de fada
vidrados nos meus pulsos,
ângulo ou curva
de ternuras ausentes,
sinal anterior
a qualquer contradição.

Sou, por instantes,
um sossegado insecto
na flor dos lábios.

Graça Pires

De Poemas, 1990, p. 10

Faz hoje 36 anos que editei o meu primeiro livro "Poemas". Este poema é desse livro.


16.6.26

O grito da fuga

 
                                                                                        Para o meu filho Pedro


Afinal não foi o vento
que fez voar o barco
onde a fuga se fez grito.
Foram os pássaros
em silente voo
que no rumo da brisa
incendiaram a noite
para não haver alarme
onde o grito da fuga foi de júbilo.

Graça Pires
De Talvez haja amoras maduras à entrada de noite, 2025, p. 54

3.6.26

Em seara alheia

 





é do barro que moldo a primeira palavra

à noite pelos atalhos
vou colhendo das sebes e das trepadeiras
vocábulos incomuns
e outros simples
como os que dizem as crianças
quando brincam sozinhas às princesas

enquanto na ampulheta
o sobressalto da areia vai desenhando trajetórias vãs
deixo o poema na mesa a levedar
mas
meu amor
será para ti a primeira fatia.

Teresa Alvarez
In: A luz breve das rosas, 2025, p. 157