25.3.14

Jardim

Sondra Wampler


Quando os ventos da primavera 
fustigam os jardins e as rosas 
se desfolham por terem a fragilidade 
do silêncio fica na terra um perfume 
tão inquietante que entontece 
o cetim das palavras.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

18.3.14

O poeta



Por haver quedas de água nos seus olhos,
é que é possível intuir, no sulco do poema,
a livre aprendizagem da vida.
Incessante, a sua voz se eleva em rotação de luz
e rompe o círculo das sombras
tão próximo dos lábios
que mais parece a íntima alegria de cantar.
Entre os seus dedos uma ave palpita,
perturbada, como se urdisse em seu voo
o perfil azul-claro das manhãs.
O poeta tem sonhos de barro
enrolados na garganta : o lugar
onde os deuses sopram
a pulsação das palavras
e refazem o sentido dos dias.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

11.3.14

Plantei uma hera




Plantei na janela uma hera inclinada para dentro
para acolher o cheiro das manhãs em que as aves
se fazem aragem nas cortinas de cores vagas.
Encurvei os pulsos para que as mãos
se acrescentassem às sombras do beirais
sem a dor das palavras mutiladas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

4.3.14

Paciência

Cézanne

Hoje, pela tarde, fiz doce de tomate 
e compota de maçã conforme velhas 
receitas que minha mãe me ensinou. 
Tu agradado de seres homem 
ficaste frente ao mar ouvindo 
Schubert (ou era Mozart?)
Mais tarde elogiaste muito os doces 
e a paciência das mulheres para estas coisas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

25.2.14

Em seara alheia



Há um rumor nesta distância,
um ardil com que tinjo as palavras
em armadilhas que vibram 
mas não protegem. Há um porto,
deserto e húmido, como todos os portos
quando não estás, e há também um mapa,
um antiquíssimo mapa sem litorais
nem margens, onde eu refaço
esta insuportável sede de ti
comigo a desenhar ilhas no outro lado
do tempo. Há ainda - ou parece
haver - uma ponte... uma passagem
ameaçada - e tudo isto, tudo, porque
há um rumor nesta distância.

Victor Oliveira Mateus
In: Gente dois Reinos. Fafe: Labirinto, 2013, p. 25

19.2.14

Alheia à engrenagem

Ana Pires


Exponho-me na versão insensata de qualquer episódio.
Misturo as datas dos factos primordiais,
dos ritos de passagem,
do solstício, da lua nova.
Morro e nasço.
Desdobro atitudes,
evocando arautos de estranhas profecias,
alheia à engrenagem
montada por artífices de paradoxos e de teias. 

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977

13.2.14

Desejo

Nina Leen

Trago-te frutos silvestres para provar contigo 
nossos lábios frutados e frescos. 
Temos sede de nós. 
Nossas bocas estremecem levemente 
por sabermos que em plena noite a lua 
será de chamas nas curvas do corpo. 
Tu dizes o meu nome. Eu digo o teu nome. 
Não há mais ninguém na terra nesta hora urgente da paixão.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

6.2.14

Labirinto



Eram duas as sombras nas paredes da casa. 
Espantadas com a ferocidade do olhar 
rasgavam com vozes indecifráveis 
os nomes que amaram. 
Como se nada soubessem 
das palavras propícias à invenção do prazer. 
Como se tivessem envelhecido 
prisioneiros de um labirinto sem recuo.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

30.1.14

Com a chuva atravessada nos olhos

Jean Dieuzaide

Vivem na linha costeira dos continentes
com a chuva atravessada nos olhos.
Respiram demoradamente o odor salgado
das algas que lhes perturbam o corpo.
Enfeitam os pulsos com amuletos feitos de búzios
vermelhos para que o medo das noites de temporal
não os ponha em frente da morte
quando, sonâmbulos, escondem o olhar
à lenta agonia dos peixes.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

24.1.14

Em seara alheia



MELODIA

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.



José Agostinho Baptista
In: Paixão e cinzas. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p.31

18.1.14

Perda




Naquele fim de tarde em que morreste, mãe, 
nós morremos contigo 
sobre o sangue de um punhal afiado no peito. 
Se estamos agora presos à vida é porque herdámos 
todas as memórias que abrigavas no olhar.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013



Magda Indigo

10.1.14

Barco





Escrito à minha volta, o som da água 
escava o sulco necessário à passagem 
de um barco singrando até ao mar. 
A criança que fui aninha-se no convés 
para amar as gaivotas às escondidas do vento.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

4.1.14

A tremenda voz de um país calado

Magno Torres

Ouves? Não é um tumulto. É a tremenda voz de um país calado.
Não, não é um choro.São inúteis as lágrimas nos tempos da revolta.
Também não é uma reza. Há muito que os deuses não passam por aqui.
Podiam ser canções para enganar a mágoa,mas quem quer cantar agora?
Ouves? É o silêncio feroz dos que resistem.
Ignoremos, então, a exacta trama que nos deforma o pranto.
Cortemos o arame farpado que enlouquece as aves e os homens.
Quebremos os vidros que roubam a entrada livre do ar na planície do peito.
Passo a passo, a alvorada será a revelação do alento 
que, desesperadamente, imploramos. 

Graça Pires, 2014

29.12.13

Amizade

Cleri Biotto Bucioli



Só os amigos conservam no olhar o nosso nome. 
Só eles nos devolvem o movimento 
das mãos para que os gestos nos comovam. 
Só com eles partilhamos a casa e o silêncio. 
Sem urgência.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

Que o ano de 2014 traga a todos uma nova esperança, um novo recomeço.

20.12.13

Este Natal que temos




     


     Nem sempre o homem é um lugar triste.
    Há noites em que o sorriso
    dos anjos
    o torna habitável e leve [...]
                    Eugénio de Andrade










Que a LUZ se espalhe no coração de todos
como um abraço amigo
para que seja solidário o Natal que temos
 
 
UM NATAL DE AMOR E UM ANO DE 2014 COM PAZ
  
Pintura de Georges de la Tour


11.12.13

Um surdo alvoroço

Francesca Woodman

Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

6.12.13

Há um homem à entrada dos meus sonhos




Recordando Nelson Mandela, sempre

Desato o sono e sento-me numa pedra, mais perto de mim.
E vi-o de novo. 
Tão sereno como uma vereda para a nascente.
Digo, então, que há um homem à entrada dos meus sonhos. 
Traz, nas mãos, promessas de trigo 
e, no olhar, a alegria, presa por um fio. 
Espanta-me a facilidade com que chora. 
Deve ser por isso que existe um rio na minha insónia
e não posso ignorar a limpidez dos seus olhos.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

2.12.13

Como um cerco de presságios

Van Gogh

Vem do rio um vento interminável, como um cerco
de presságios que nos gela os ombros.
As cobras enroscam-se nas pedras,
sobressaltadas com a agitação da terra.
As abelhas escondem-se no regato das chuvas
esperando que as colmeias as procurem.
O chão arde em nossos passos, vítimas
e culpados do desvario dos caminhos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

21.11.13

Infância


No ano em que o lajedo da eira 
se encheu de granizo nós éramos crianças. 
Um arco de luz rodeava as nossas mãos disponíveis. 
Eram de neve os pássaros 
que nos esvoaçavam no olhar. 
Como se fossem anjos, como se fossem pétalas. 
E nós éramos crianças: o tempo em que a inocência 
nos torna indiferentes à magia dos lugares.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

13.11.13

Decisão

Iman Maleki


Não traço planos. 
Amanhã cada minuto será transitório. 
Todos os pormenores que me são próprios
terão a precisão das cordas do alaúde 
em dedos sensíveis. 
Serei nómada e levarei comigo 
a máscara do veneno junto à boca.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

6.11.13

A voragem da lenha antes do fogo

Manuel Fazenda Lourenço

À procura de lugares isolados
demoramos os passos na terra
acabada de lavrar e devassamos
a raiz das árvores mais sombrias
para que a estatura dos corpos
tenha a verticalidade de um tronco.
Pode ser poente esta vertigem
de sombras permutadas no olhar
enredado no difícil voo das aves
que cegaram com a luz do meio-dia.
Por isso as janelas trancadas 
nos trilharam os dedos
quando ficámos perto do lume
e desenhámos no recorte das mãos
a voragem da lenha antes do fogo.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

31.10.13

Morte

Andrey vahrushew

Esgotaram-se as palavras que repetiam 
os nomes e os rostos onde repousava a luz. 
Essa luz tão precária que se dissipa 
quando a terra se faz túmulo no luto do olhar. 
Já não indagamos as datas cobertas de cinza 
por sabermos que o enredo da vida 
não se deixa em testamento.

Graça Pires
De Caderno de Significados, 2013

22.10.13

Pai

Georges de La Tour


À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento

Hoje pensei na solidão dos pássaros
quando as searas se incendeiam. 
E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo
 como se tivesses vindo do lado 
mais desolado das sombras. 
O que sei eu das uvas entre os teus dentes 
no tempo das vindimas? 
Que pássaro de cinza, diz, 
te sobrevoou o verde do olhar? 
Se prolongasse o poema 
dir-te-ia como os meus olhos te lembram. 
Mas não posso. Vou devolver ao mar 
as conchas negras da minha colecção.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

14.10.13

Sempre soubemos

Igor Levashov

Quase acreditámos na luz rodopiando as sombras
para tornar transparente a maciez do húmus
preso à torrente das chuvas.
Pressentíamos que qualquer coisa de comovente
se alojava no brilho da folhagem atravessada
pelo perfil das aves migratórias.
Sempre soubemos que há rosas
que se desfolham antes de alguém as ver
derramando um leve aroma sobre o delírio da cor
para deslumbramento das borboletas.
Nunca se repete, sempre o soubemos,
a curva do tempo na concha ansiosa do olhar.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

7.10.13

Dor

Moises Saman

Não sei quantas vezes chorei 
a boneca de papelão 
que se desfez na água 
quando lhe dei um banho. 
Eu não sabia que podem ser tão breves 
as coisas que abrigamos no próprio coração.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

30.9.13

Onde o outono não é um cenário sossegado

Nathan Wright

Olho o rosto dos homens 
onde o outono não é um cenário sossegado, 
porque lhes sobe até à boca 
um vulcão de espanto, 
a rir na minha própria cara.
Então, um súbito amor a saber a sangue 
dramatiza a voz dos disfarces 
no interior de mim mesma, 
como se desse conta do lodo 
que me cobre os olhos 
e, de repente,um rio 
me corresse na alma sobressaltado.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

23.9.13

Um abraço para Ramos Rosa




Na folha branca rolam como pedras as palavras
do poeta: lisas, nuas, brancas de tanta luz.
É possível articular seus versos,
encontrar na dança das sílabas
o mais deslumbrado silêncio,
ainda grito, ainda sangue, ainda pólen.
É possível ir de sombra em sombra,
pela margem do vento,
até à branca clareira do poema.
É possível dizer seu nome
rasgando na boca o cantar dos pássaros
no inverno quando a neve cobre as árvores
de brancura e um fio de água
lhes escorre pelas asas brancas, de seda.

Depois quem poderá adiar este abraço
que o coração reclama?

Graça Pires 
In: Um poema para Ramos Rosa. Labirinto, 2008

19.9.13

A mesma luz

Vincent Van Gogh (detalhe)

A lua quase cheia acentua o ladrar dos cães
em pátios onde crescem 
desordenadamente as giestas.
Um duplo estremecimento lateja nos espelhos
como sombras insinuadas no eixo da luz,
a mesma luz que adivinhamos nas searas,
nas estrelas, nos girassóis de Van Gogh,
no post-it colado na mesa a dizer amo-te,
no risco incontornado dos relâmpagos.
Há um espesso ouro despenhado sobre as árvores 
porque o outono se detém na inclinação dos dias
e a colheita nos devassa a intimidade dos frutos.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

12.9.13

Deixa-me beber o mel dos frutos



Vladimir Clavijo


Um pássaro de fogo hesita em atear a noite
porque temos a floração das árvores
atravessada no rosto a consentir-nos
um olhar capaz de agitar as tílias
ou fazer explodir as papoilas por dentro do deserto.

Há medronhos e morangos e bagos de romã
cortando a fome talhada no milho-rei das searas.
Deixa-me beber o mel dos frutos,
a mim, para sempre rendida ao néctar
de teus lábios claramente incendiados
nas primeiras águas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

5.9.13

O sinal de alarme

katia Chausheva


Regressei com a lentidão de quem vem de longe
do mar com pedras na boca para cuspir nos lugares
onde o vento envolve a gruta das nascentes.
Só a palidez das minhas unhas denunciava
o sinal de alarme que me atravessava os pulsos
mordidos por meus dentes quando a dupla sombra
dos barcos me roubou, em golpes certeiros,
o trigo onde se afundaram as foices.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012