19.9.22

Uma tempestade no peito

aykut ydogdu

Emigro de mim. 
Nunca ignoro a geometria de agitadas águas 
visível nos seixos mais incertos, 
quando uso um pretexto de fuga 
para percorrer os mares abertos, 
costeiros, ligados à terra. 
Uma tempestade inusitada no peito 
decifra a cor indefinida das marcas digitais 
dos que tacteiam a estranheza dos barcos 
com nomes de mareantes 
impressos com sal e sangue. 
Aves marinhas cantam-me nos lábios 
estranhos sinais. 
Risco então em cartas geográficas 
o delírio dos mastros pressentido 
na minha voz navegante. 
Fixo-me às tábuas com nós de marinheiro 
e a carga do navio tem o peso do meu corpo. 
Depois de eu morrer haverá o rumor do meu olhar 
luzente sobre o mar mais intranquilo. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 43

55 comentários:

Marta Vinhais disse...

Percorrer o Mundo interior... desafiá-lo e depois conquistar a Paz...
Lindo...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Maria João Brito de Sousa disse...

Esplêndido, este "Uma Tempestade no Peito", Graça!

E fico a cismar sobre o facto de quase todos nós, poetas portugueses, trazermos o mar dentro de nós...

Um beijo!

chica disse...

Aplaudo tua inspiração e criatividade sempre presentes a cada poesia!
beijos, linda semana,chica!

- R y k @ r d o - disse...

Pensamos que sabemos tudo sobre nós próprios e por vezes desconhecemos o nosso mundo interior. Poema brilhante, fascinante de ler
.
Uma semana feliz
.
Pensamentos e Devaneios Poéticos
.

Olinda Melo disse...

Poema denso este. Desfazendo os nós ao encontro de mistérios plantados no fundo dos mares ou do nosso "eu". Descobertas a fazer. É esse seu livro leva - nos pela mão.
Boa segunda-feira, querida Graça.
Beijinhos
Olinda

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça,
Mais um belíssimo poema aqui nos presenteia.
Um olhar para o interior do nosso eu, onde mistérios imensos se escondem, à espera que os possamos desvendar.
Gostei muito.
Votos de uma excelente semana, com muita saúde.
Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Jaime Portela disse...

Brilhante.
Saio daqui encantado, como sempre.
Boa semana, amiga Graça.
Beijo.

São disse...

Muito bom poema, magnificamente ilustrado.

Minha Amiga, beijinhos e que seja estupenda a tua semana .

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Gostei deste excelente e belo poema.
Um abraço e tenha uma boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

brancas nuvens negras disse...

O mar é uma constante presença dentro de nós, qualquer que seja a metáfora.
Um abraço.

carlos perrotti disse...

Ya el título predispone, atrae, atrapa... Mi poema preferido de vocé, para llevar en la memoria y releer, releer... para aprender.

Abrazo admirado, Poeta Graça!!

Caderrno de San disse...

Há sempre muita intensidade e inquietação no seu fazer poético, minha amiga Graça, mas, depois de capturadas na intenção, as palavras sempre se aquietam e ganham substância original e dizem, tal como neste o poema, o indizível que só o (um) poema pode evidenciar.
Belíssimo!
Uma semana produtiva para você, minha amiga!
Um beijo,

ManuelF disse...

A voz navegante da poeta cruza águas agitadas, num delírio, numa inquietação que nos desafiam e interpelam. Adorei a imagem.

Cidália Ferreira disse...

Um poema muito bonito!!
-
NÃO ADIANTA...

Beijo, e uma excelente semana.

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Um poema muito belo do seu grande livro Antígona Passou por Aqui.
Um livro que a cada página me apaixona e não me deixa indiferente às suas eloquentes palavras em que a sua voz navega no alto mar da Poesia por excelência.
Um grande beijinho, minha Amiga e Enorme Poeta.
Desejo-lhe uma boa semana.
Ailime

A.S. disse...


O belo mar com suas lindas ondas, também afoga e deixa navios a deriva.
E assim as ondas vão e voltam... É vida que segue, até haver um rumor de um olhar luzente sobre o mar intranquilo!

Sublime o teu poema Graça! Muito belo!
Votos de uma semana com muita saúde.
Um beijo.

Lucinalva disse...

Olá Graça
Lindo poema, um forte abraço.

Franziska disse...

Una estela del pensamiento poético dramatizado por la posibilidad de una tempestad cuando el barco que se enfrenta es el propio cuerpo y la realidad es que el mar brama y es aterrador el oleaje. Muy bello, ha sido un placer esta lectura. Un abrazo.

Roselia Bezerra disse...

Querida amiga Graça, poeta humilde que nos encanta!
A imagem já nos faz antever o que virá e fiz um mergulho no eu descrito pela poetisa.
Há tempestades que nos afogam a alma.
Tenha uma nova semana abençoada!
Beijinhos com carinho fraterno

J.P. Alexander disse...

Profundo y bello poema. A veces nuestro mundo colapsa como una gran tormenta y uno debe seguir adelante contra viento y marea. Te mando un beso.

Toninho disse...

Que beleza este teu livro Graça.
As figuras empregadas estão fantásticas para a intensidade desta torrente, que tão bem e belamente emprega para definir e traduzir este sentimento.
A gente aplaude e viaja nas suas inspirações.
Leitor de seus livros sou cada vez mais apaixonado pela sua obra.
Beijo e feliz semana com uma torrente coisas boas no peito.

Rajani Rehana disse...

Beautiful blog

bea disse...

Que bonito dizer assim o corpo amarrado às tábuas do navio, seguindo viagem com ele. Nada os desprende um do outro, e a ambos do caminho.

Juvenal Nunes disse...

Gostei do poema, que inquieta, na agitação dos mares abertas.
Abraço amigo.
Juvenal Nunes

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Boa tarde Graça
Um poema muito belo e com o qual me identifico.
Acho que todos nós emigramos de nós, para manter o equilíbrio de tudo na vida.
Gostei demais do poema e a foto de suporte está muito em sintonia com as palavras.
Desejo uma semana abençoada com saúde e harmonia.
Um beijo
:)

Regina Graça disse...

Neste poema, encontramos uma das tempestades mais necessárias para seguir viagem, emigrando, imigrando...

Beijinho

Carlos Augusto Pereyra Martínez disse...

Vaya si siente una nostalgia del mar y sus barcos. Un abrazo. Carlos

teresadias disse...

"Depois de eu morrer haverá o rumor do meu olhar
luzente sobre o mar mais intranquilo."
Querida Graça, adorei a imagem e cada um dos versos deste magnífico poema. Parabéns poeta amiga.
Beijo, boa semana, saúde.

manuela barroso disse...


É urgente abandonarmos por vezes a casca que nos proteje e ausentarmo-nos algures à procura de uma sadia evasão.Nem sempre teremos um cais seguro onde aportar os sulcos deixados na viagem pese embora a auto-confiança mas só até ao dia em que não nos dispersemos no caminho.
Sabedoria e densidade nestas tuas águas de hoje, querida Graça
Um grande beijinho!

Larissa Pereira dos Santos disse...

Quanta elegância nas palavras querida, amei o poema, me diz tantas coisas..
Abraços e boa semana.

alberto bertow marabello disse...

Siamo acqua, siamo onde, siamo mare e siamo rotte da tracciare e mappe da disegnare, siamo mondi e siamo flussi, amica Poetisa.
Molto bella ed intensa la tua poesia
Brava davvero. buon vento, amica mia.
Um beijo

teresa p. disse...

A tempestade que se desencadeia no peito faz de nós navegantes de mares desconhecidos e perigosos. Emigramos, então, de nós mesmos a procurar a tábua de salvação que nos dê a força de que precisamos. É um poema muito belo e profundo! A foto é impressionante.
Beijo.

Maria Rodrigues disse...

Um poema sublime.
Beijinhos

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

estimada Graca estupendo poema donde las palabras se hacen sensaciones y en sus versos la emoción del mar remansado , altivo se deja oir entre las lineas con frescas estrofas de una gran intensidad que hacen vivirla al lector de tu poesia con intensidad , felicidades Graca feliz fin de semana y que el otoño sea un limbo de insperación con olor a jazmin ..., un fuerte abrazo .jr.

solfirmino disse...

Amiga, você falando de mar, e eu acabei de escrever bastante sobre o céu, que para mim não tem traçados, meridianos ou hemisférios.  É abismo sem escala prevista em régua. O mundo, fora do ombro de Atlas, é uma invenção cartográfica. Poeticamente, pelo menos... Só não ignoro a "geometria do abismo", nome do meu livro! Escrevi agora porque parei de chorar. Esse seu poema, como a maioria, me faz chorar, Graça. Gosto tanto de ler seus poemas porque me emocionam. Eu não sei se conseguiria gravar um poema seu em voz alta sem chorar. Poema meu eu não consigo. Consegui da Lília...
Beijinho

Isa Sá disse...

a passar por cá para conhecer mais um bonito poema.
Isabel Sá
Brilhos da Moda

Raquel disse...

Olá, Graça! É um belo poema, escrito com um excelente sentido estético. Gosto muito da fusão de elementos, da nossa subjetividade com a natureza visível. Beijinhos, Raquel

Jovem Jornalista disse...

Adorei. Muito bem escrito.

Boa semana!

O JOVEM JORNALISTA está no ar com muitos posts interessantes. Não deixe de conferir!

Jovem Jornalista
Instagram

Até mais, Emerson Garcia

Elvira Carvalho disse...

Reli com o mesmo prazer da primeira vez.
Abraço e saúde

Jaime Portela disse...

Gostei de reler este excelente poema.
Bom fim de semana, amiga Graça.
Beijo.

Arthur Claro disse...

Linda poesia e muito interessante a imagem.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com

LuísM Castanheira disse...

Esse navio que se confunde e funde
ao corpo e mente, mar em frente
que da sua viagem traça mapas
enfrenta tempestades, princípio e fim
e deixa no olhar a inquietude
com que a Poeta na luz desperta.
E depois esse corpo a habitar a quietude
com que o sonho navega por dentro.


Um poema que exige leitura atenta
tao belo e intenso ele e'.

Um beijo, Amiga e espero que estejam todos bem. Saúde e Paz.

Parapeito disse...

Que maravilha, doce Graça.
Aquilo que nos toca, é sempre novo, nunca cansa.
Adorei ler mais uma vez e da próxima , será o mesmo.
"Depois de eu morrer haverá o rumor do meu olhar
luzente sobre o mar mais intranquilo."
Tão belo, tão melódico tão nostálgico , tão Graça Pires.
Abraço e brisas doces ***

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Graça,
Uma das coisas que mais gosto
de me dedicar
é a leitura de blogs.
Hoje vim aqui com intuito d eler
e comentar, mas hoje, nesse momento
não poderei comentar sobre o texto.
Preciso refletir mais pois o mesmo me
tocou profundamente.
Voltarei com esse objetivo: comentar de fato.
Encantada deixo
Bjins de Primavera
CatiahoAlc./Reflexod'Alma
entre sonhos e delírios

Rogério G.V. Pereira disse...

Antes de morreres
iça as velas
serão asas
que levarão teu coração
onde tua alma sonhará estar

Fá menor disse...

Muito belo!
Nós somos um mar intranquilo no qual temos de saber navegar.

Beijinhos

Majo Dutra disse...

Emigrar de nós ocasionalmente é muito saudável...
Para o mar?
Tanto o eu autoral, como o eu poético têm fortes laços com o mar...
Um poema sobretudo expressivo e veemente.
Bom outono, Poeta amiga. Beijinho
~~~~~~

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça,
Passando por aqui, relendo este excelente poema que muito gostei, e desejar um feliz fim de semana, com muita saúde.
Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

pensandoemfamilia disse...

Assim somos, gosto de apreciar o mar em suas mudanças, nele por vezes me acho, por vezes me perco. Mas vou navegando e colocando em palavras as inquietações do viver. Linda poesia. Bom final de semana.
Aprecio sua escrita.

Emília Pinto disse...

Forçosamente, sentimos " uma tempestade no peito, ao vermos tantos barcos à deriva nestas águas revoltas e raivosas em que está transformado este nosso mundo. As bóias, os coletes salva vidas, os botes lançados em auxilio não são suficientes para tantos que, aflitos, procuram um refúgio. Mal seria se nós não tentassemos lançar ao mar revolto, ao menos uma pequena tábua que salvasse e diminuisse o sofrimento de alguns, mas o nosso barquinho é pequeno e, nós, perante a imensidão do mar raivoso, sentimo-nos formiguinhas procurando um buraco para, de algum modo escaparmos e esperarmos que o mar amaine. Está dificil, Querida Graça, mas se quisermos que a nossa caminhada por cá não seja completamente inútil, deixemos que um pouco dessa tempestade entre dentro de nós e façamos o nosso melho para que, pelo menos um barquinho não bata no rochedo partindo-se em mil bocados. Fechar os olhos, fazendo de conta que as águas, calmamente " beijam a areia " sempre, é que não pode ser. Estejamos atentos ao que se passa à nossa volta. Obrigada, Graça, pela reflexão que o teu poema nos leva a fazer. Um beijinho e um bom fim de semana, com saúde
Emilia

Agostinho disse...

A fuga, o atravessar da tormenta a vau, servida por uma cascata de palavras justas, que se fazem metáfora e imagem, na viagem da leitura... Soberba é a poética da minha Amiga Graça Pires.
Um beijo e saúde.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Muito introspetivo.
Gostei muito.
Um bj. e desejo que se encontre bem.
Irene Alves

Rajani Rehana disse...

Great blog

Ana Freire disse...

Um poema muito belo, que não poderia reflectir melhor estes intempestivos tempos, que despertam as nossas interiores tormentas!...
Que ainda se possam assistir ao retorno de dias bem mais tranquilos, para nós e para o mundo... mas perante os comportamentos cada vez mais insanos de certos lideres... começo a ter sérias dúvidas... parecemos estar cada vez mais imersos nos loucos anos 20... como há um século atrás... que desembocaram... no que viria a marcar todo o século XX... a humanidade parece ter a mórbida necessidade de repetir ciclos... de erros, também!...
Um beijinho grande!
Ana

Ahmed disse...

touching and powerful dear Grace ,loved how you painted the scenario exquisitely
the last line is breathtaking !