30.7.07

Até à perturbação

Ansel Adams

Em noites de verão,
povoadas de sombras,
não ouso confessar a solidão.
O tempo altera na voz o destino da luz.
Os sons familiares tornam-se sombrios.
O luar, humidamente cheio,
encobre a raiva,
na boca agitada do poema.
A imagem invertida da lua,
a ferir as mãos
e a desmesurar as palavras
arrasta-me o pensamento
até à perturbação.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

26.7.07

Amanhecer

Pascal Renoux


Quisera perseguir o ângulo mais nítido do olhar
e encher de pressentimentos felizes
o exacto momento, em que a noite
adia um movimento de asas e se faz luz,
amando, maravilhada, as múltiplas
penumbras da paisagem.
Mas, apenas o vento permanece para adivinhar,
sem alarido, a textura da vertigem, em que se
movem as angústias de um azul exposto
à velada brisa da manhã.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

23.7.07

Uma inesperada tristeza

Gérad Castello Lopes

No verão, as mulheres caiam as casas e as memórias.
De branco : como as estevas e a lua cheia.
Os seus anseios se espalham, com a brisa,
na quentura das noites.
Por isso, conservam no olhar
uma inesperada tristeza.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

19.7.07

Ao sol de julho

Pedro Alvarez

Ao sol de julho dançámos um tango.
Subia da terra um aroma estonteante.
Sem receio de levantar os olhos,
tocámo-nos maravilhados.
Um húmido musgo cobria-nos as pernas,
enquanto a luz se bifurcava nas pedras,
e rebentava nas ondas,
e nos estremecia nas veias.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.7.07

Em seara alheia


A CONSTRUÇÃO DO POEMA
A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.

Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.

Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restablece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.


António Ramos Rosa
In Volante verde. Lisboa : Moraes, 1986

13.7.07

Como um enigma

Édouard Boubat
Rasgo, dentro de mim,
imagens desfocadas
com que encenei obsessões.
Uma linha de luz subverte
a penumbra do olhar,
como um enigma,
ou um remorso sem retorno:
um feitiço quebrado reinventando culpas,
caixa de pandora dispersando sombras.
Exponho-me no disfarce transparente
da linguagem, para que a intimidade
se insinue nos meus dedos.
Apodero-me da malícia das sílabas
a entreter a língua.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

11.7.07

Na lisura da areia

Henri Cartier-Bresson

De mãos a arder, risco uma cruz
na lisura da areia, para confessar
o remoto exercício da tristeza.
Já não sei, se são de asas ou de velas,
os sons que aportam meus ouvidos.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

10.7.07

Na entrada porosa da noite

Simon Tysko


Na entrada porosa da noite,
uma canção de embalar reconduz-me à inocência,
pela mão de qualquer encantamento.
Um negro perfume exala dos meus cabelos,
ateando-me, na cara, a remissão de todas as culpas.
Sou uma criança receosa
que salta um muro, denso de heras
e procura, por sombras invisíveis,
o caminho de casa.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

9.7.07

Em seara alheia


Ambição

Desenhar:
de um pássaro,
o vinco do vôo
no azul.

Sônia Barros
In Mezzo Vôo, São Paulo: Nankin, 2007

8.7.07

Para dizer trigo

Jean Dieuzaide


No fim da primavera, há homens que enchem
as mãos de terra para dizer trigo.
Lendas em desuso esquivam-se-lhes da voz.
No interior da fome, reconstroem a boca,
recuperando todas as expressões de indignação
e raiva. Nas suas queixas, hibernam os deuses
que lhes teceram a intriga do destino: tão efémeros
que resvalam nas palavras que omitem.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

7.7.07

É sempre em julho

John Dunn

Foi em julho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em julho que, dos teus olhos,
se avista um oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

21.6.07

Para tornar legível a emoção

Édouard Boubat

Agora, que uma luz difusa me fascina
retenho a idade em que não ousava
fazer do coração um lugar de conflito.
Escoa-se, de meus lábios,
sem aviso prévio,
um excessivo odor a maresia,
como se o verão atasse em meu pescoço
a sombra das dunas e todos os ventos
afugentassem a inevitabilidade da morte.
É de musgo, a vertigem
onde demoro as mãos,
para tornar legível a emoção.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

20.6.07

A cor do entardecer

Manuel Fazenda Lourenço

Planto urzes brancas
em redor do caminho.
No começo do verão,
será tão intensa
a cor do entardecer,
que os frutos hão-de devorar-me
a boca, para conter a sede.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

15.6.07

Repara


Para o meu filho Pedro

Senta-te perto de mim, meu filhoNão tenho a tua idade. Eu sei.
Também já tive tanta pressa
de desafiar o vento.
Repara :
não há ninguém à entrada da noite.
Deixa que, do teu peito,
se avistem as estrelas.
e arde numa delas. Arde.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

14.6.07

Quem sabe



As ruas têm anjos escuros, ocultos na expressão
das mulheres com ancas de fogo.
Quem sabe, a tristeza seja o rumo dos sonhos,
pesando sobre os olhos, como máscaras
e haja amoras maduras na idade da noite.
Quem sabe, seja a lua a hierofania
com que deuses e demónios preparam
o banquete predilecto dos que amam,
para que os seus corpos se vistam de malícia.
Pouco sei do vocabulário onde se confundem
o delito e a ascese dos encontros marcados.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

12.6.07

Vieram os pássaros

Bates Littlehales

Vieram os pássaros, como um poema,
em louca cavalgada por paredes de luz.
Eu ouvi um tumulto de asas.
Ou era a minha própria voz,
enrouquecida pela sede?
Não posso aquietar a boca,
porque me ardem nos pulsos
os escombros de nomes interditos
e o orvalho de meus olhos seca-me a garganta.
Os pássaros, eu sei, voltaram,
e trazem no bico as nascentes do sul.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

11.6.07

Em seara alheia



OPUS 133

Escreveu-me cartas. Enviou-me
uma roldana de ferro
daquelas que se usam para tirar
água dos poços. Enrolou-lhe um poema
em vez da corda que tem de
suster o balde. Podes falar -
-me de ti: quando estou cansado
eu sou um bom ouvinte.

João Miguel Fernandes Jorge
In Não é certo este dizer. Lisboa, Presença 1997

10.6.07

Os meus olhos doendo nos dela

Balthus

Sem pressa, formulo a urgência
de sombras inquietas
na neblina do olhar,
como se recuperasse um tempo
tão decisivo como a infância.
Circunscrevo recordações sem voz
e perdem-se-me, nas mãos,
os gestos de menina.
Persigo-lhe a imagem,
ou a sombra dessa imagem.
Os meus olhos doendo nos dela.
O meu rosto medindo, no seu rosto,
toda a intensidade da inocência.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

6.6.07

Vamos falar de poesia



A fascinação pela poesia tem sido, até hoje, uma das constantes da situação humana. Seria, contudo, um erro supor por detrás dessa fascinação um sentido e uma significação sem ambiguidade. O amor pela poesia, como todo o amor, é a história dum equívoco. Para a maioria dos homens o convívio com a poesia é a forma simples de ter ao alcance das mãos um mundo cómodo, mais tranquilo que o mundo de todos os dias, ou então a maneira de se alienarem num universo brilhante e raro, equivalente do sonho e do desejo. Pérola de imagens segregada pelo entusiasmo, o terror ou a esperança, a poesia oferece a cada homem o céu e o inferno portáteis de que precisam para iludir a necessidade de buscar no inferno real o céu possível. O amor que os homens lhe manifestam é esse amor aos céus ou infernos particulares, refinamento de um egoísmo inalterável. Adorno ou cócega da alma a poesia suscita em todos os homens, nem que seja uma só vez na vida, um começo de metamorfose semelhante à do autêntico amor, mas é raro que esse instante seja outra coisa do que a promoção de um último egoísmo. É mais a exaltação do mais radical dos nossos desejos que a sua destruição, a morte do «eu» e a ressurreição no «outro» de todos os amores reais. Amando na poesia o pior ou o melhor do que se é, vive-se a ilusão de um amor que não é senão o confortável amor de nós. É desta espécie o entusiasmo e a fascinação que a poesia exerce sobre o comum dos homens, quer dizer sobre todos os homens, pois ninguém pode supor-se permanentemente ao abrigo de ser como o comum dos homens [...].


Eduardo Lourenço
In Tempo e Poesia. Lisboa, Relógio d'Água 1987

5.6.07

Uma ilha escondida na memória

Ansel Adams

Rodeada de mar, convoco o límpido diálogo
dos abismos, para gritar, com Ulisses,
o desejo de ser livre e mortal.
Havia , assim o dizem, uma tempestade em sua boca.
As sereias tomavam-lhe o pulso dos sentidos,
como sulcos de aves no contorno da luz.
A música das marés enfurecia seu sexo.
Contra os rochedos, morriam as gaivotas
enlouquecidas de prazer.
Mas, os deuses fixaram-se no litoral da eternidade,
para lhe indicarem o caminho da morte,
porque ele era, apenas, um homem,
com uma ilha escondida na memória.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

4.6.07

Em seara alheia


Antigamente havia sempre aquela música
tu sabes. Era a música feita à beira da seara
o cântico da sede e das ceifeiras. E nosso
era o direito a entrar na casa onde
tínhamos o fresco dos lençóis, o púcaro

de barro de água fresca, o livro de
palavras feitas verso, o gato persa, o ruído
que provoca o silêncio quando excessivo
a um ouvido surdo, uma maçã de
estio cujo sumo escorre sobre o peito

se trincamos a polpa e entre os dentes
se ilumina um sentido, entre os
dedos um frémito súbito se instala.
Porque a brisa nem sempre é um rumor
às vezes é também parte de um

verso. Antigamente havia sempre a
música do sono que chegava sem pressa e
sem vagar, porque tudo acontecia nessa casa.
Lá dentro havia o corpo à sombra espessa.


Nuno de Figueiredo
In Amargas Cores do Tempo. V. N. Famalicão: Quasi, 2006

3.6.07

Era o tempo das colheitas

Manuel Alvarez Bravo
Era o tempo das colheitas.
Coroada de silvas, uma mulher
dançava, nua, no meio do trigo.
Tão líquida, a luz, contornava-lhe o olhar,
num movimento lento, quase discreto,
como se lhe pusesse, nos olhos,
o improvisado voo das estrelas.
Nunca se soube o que lhe aconteceu.
Mas, às vezes, de noite, ainda um rumor
de solidão se confunde com o vento.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

2.6.07

Conjugar afectos

Menez
Regresso ao modo e ao tempo
de conjugar afectos por instinto.
Distorço a forma, do lado controverso dos fonemas
e não me excluo das palavras mais ousadas,
ou inesperadamente sóbrias,
denunciando vertigens e sossegos.

Nos meus olhos prevalece a morfologia íntima
dos nomes que revestem a garganta dos amantes
quando desatam o silêncio no contorno das bocas.
No meu peito cresce um poema desmedido, peregrino,
que pode ser um rosto, ou uma fonte,
ou, apenas, um barco que se afasta.
Sublinho, então, deliberadamente, as sílabas
do meu nome em tudo quanto leio.
Um vazio de jade molda, em mim, um útero
que se auto-destrói, como uma dádiva
a ignoradas divindades.
Estou a oriente do porvir
e tenho, amarrada aos pulsos,
a disponibilidade dos pontos cardeais.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

31.5.07

Crianças

Gotthard Schuh

Mansamente aprendendo o tempo,
têm o espanto no rosto
e querem saber as sílabas encantadas,
o som dos barcos, os ninhos, o carrocel,
as cantigas de roda.
Com que sonhos lhes daremos
uma casa sem sustos,
ou a dispobibilidade das searas,
ou, tão só, uma palavra de amor,
que lhes permaneça na voz
pela vida fora?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

30.5.07

O coração não tem margens

Robert Adams

Como se todas as coisas fossem possíveis,
mesmo o milagre de vozes solidárias e cúmplices
na teimosia de quem acredita na magia
de qualquer lonjura, sei, de súbito,
que o coração não tem margens:
é um mar frágil que submerge
os olhos desprevenidos do homem.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

29.5.07

Vem comigo

Robert Doisneau

Empurro, com gestos clandestinos,
o intervalo existente entre mim
e a sombra das tuas mãos.
Diz-me palavras insensatas,
para que eu percorra os segredos
escondidos no silêncio da tua voz.
Toca-me com lábios enlouquecidos.
Vem comigo.
Verás o halo inconfundível da poesia
celebrando paixões, arrasando nomes,
vigiando o começo da febre
nas terras onde maio é manso.
Deixa-me ser um peixe verde
no aquário, sem dimensões, do teu olhar.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

28.5.07

Em seara alheia




era apenas um retrato
que um fotógrafo de ocasião nos tirou
e tinha a história de não ter
história nenhuma
(já li uma frase assim no Alberto Caeiro
desculpa)

lembro-me: nem sequer olhávamos um para o outro
embora o fotógrafo se tivesse esforçado muito
em nos mostrar felizes
mas ele não podia adivinhar que a hora da partida
se desenhava no fumo dos cafés que bebíamos
ao som triste da Anne van der Lowe no jukebox
das gares onde adiávamos diariamente
os funestos rumores do esquecimento

talvez tivéssemos estremecido um pouco
e por isso os nossos rostos ficaram
levemente desfocados
como se naquele momento tivéssemos encontrado
a mais eficaz palavra
de despedida.
Alice Vieira
In: Dois corpos tombando na água. Lisboa : Caminho, 2007

27.5.07

Para aprender a voar

Raul Touzon

Para aprender a voar nos bastava
o começo e o fim
de uma linguagem pessoal,
em que as mãos, impacientes,
despissem a paisagem
e, apenas por um instante,
se tornassem asas.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

25.5.07

O colo côncavo de afectos



Antecipo o sobressalto de um estio antigo.
Vislumbro uma casa para agasalhar a infância.
As paredes repletas de lembranças.
A mãe : o colo côncavo de afectos.
Labirinto alagado de ternura
no alvoroço da memória.
Águia azul na linguagem dos precipícios.
Limite entre a sede
e a limpidez de qualquer fonte.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

24.5.07

No meio das palavras

Luciana Abait
Quando, nos lábios, começa um continente,
suspenso no apelo líquido dos beijos,
há um barco que cresce nos meus olhos
e, entre búzios verdes, escrevo água.

Nunca a brisa se demora entre as dunas,
onde os barcos navegam sobre a espuma.

Tudo é secreto, se maio se repete
nas marcas da pureza recusada.

Um rosto ou um rio me fascinam,
quando a raiva e o sossego
me revelam a nascente
e, no meio das palavras,
procuro apenas um gesto
ou uma sombra.

De Poemas, 1990

23.5.07

Meme (*)

Cartier-Bresson


A felicidade é um projecto de inconformismo.
Fernando Savater


Este desafio foi-me colocado pela Menina Marota
e apesar da minha experiência no blogosfera ser recente, não vou quebrar esta corrente e passo a palavra a Maria Costa, Paula Raposo, Alexandre Bonafim, Mafalda , Teresa Durães porque estes são espaços que eu também gosto de visitar.
(*) Um "meme" é um "gen ou gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta, dada a sua semelhança fonética com o termo "genes".

22.5.07

Pelo interior do mito

Duncan C. Clark


Os veleiros aproximam-se dos portos
pelo interior do mito. Um perfume nocturno,
impregnado de limos, devolve-me as palavras
que sobrevivem ao desapego dos braços.
Quando os barcos, fatigados das marés,
já me adormeciam no olhar, falaste-me
do mar intranquilo no teu peito e dos veleiros
amarrados nos teus pulsos.

De Uma certa forma de errância, 2003

21.5.07

Em seara alheia


turvam-se os olhos no amor
como se turvam
na morte

há uma luz
que treme
e que se apaga
rendida à sensação
mais forte

ama-se
morre-se
tão simplesmente

no amor
como na morte
é tudo
uma questão de tempo
uma questão de sorte


Y. K. Centeno
In Perto da terra. Lisboa, Presença, 1984

20.5.07

Apenas um momento


Quando a véspera
do mais prolongado sossego
me fere a solidão da infância
quero um momento,
apenas um momento,
para que o excesso de luz a prumo
amotine as palavras nos meus lábios
e as confunda com a quietude
urgente da paisagem.
De pulsos iluminados
poiso a voz no fundo da tristeza,
para expor a voz de outrora:
no dia mais bonito que vier irei,
sem rumo algum, ao deus-dará,
procurar um lugar para morrer,
as vezes que eu quiser, até nascer sem dor.

De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

16.5.07

Tão plural como o silêncio

Amedeo Modigliani
Jejuei sob o nome das coisas desejadas,
com a boca presa aos resíduos do medo
na secura dos olhos.
Herdei a nomenclatura dos vadios
e fico onde não sei,
à procura de tudo e de nada.
Apátrida. Sem rota. Terra ocupada.
O meu poema não cabe nesta angústia
de ter nos pés o funambulismo
litigioso dos sonhos.
Sobrevivo a todas as memórias,
mesmo às que definham no rosto dos velhos.
E a minha voz tornou-se tão plural como o silêncio.

De Labirintos, 1997

15.5.07

A noite é a sombra de um pássaro

Duncan C. Clark
A noite é a sombra de um pássaro
que procura o mar em voo raso.
Às vezes, rasga as margens do pudor,
em erótica incursão, e me deslumbra,
e me perturba, e se transforma na porta aberta,
por onde deserto de uma guerrilha interior,
para exorcizar a ruína da lua nos meus braços.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977

13.5.07

Uma história com ondas e marés



Na concha mais débil se adivinha
uma história com ondas e marés,
quando a sombra de um mar
perturba a cor dos olhos
e povoa de barcos a respiração.
A voz, agrafada na revolta íntima
das fragas, estende uma paisagem
para o lado liberto da noite,
onde as luas se pressentem,
excessivas como as paixões.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977

10.5.07

Como silenciar as mãos?

André Kertész

Perturbada pelo desacato das emoções,
utilizo um roteiro de artifícios
para simular, em cada madrugada,
a cumplicidade dos deuses.
Mas, como silenciar as mãos que dobam
a brisa da manhã, no vórtice do tempo ?
Não iludo a distância.
É devagar que olho para trás,
à procura de mim.
Cada vinco do rosto, é um caminho
onde a angústia se deteve.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

9.5.07

A curva de um rio

Pascal Renoux

Sem pressa, os braços
desenham o mais liso gesto
para exilar abraços.
Cavo, então, no peito uma nascente
para que o deserto não avance sobre a boca.
A curva de um rio a bater-me no rosto.

8.5.07

Aquela rosa branca


Escuta estes cânticos de maio
a espreitar a cidade
e traz-me, outra vez,
aquela rosa branca
desenhada nos teus ombros,
para que eu a exiba no penteado.
O prazer perturba os deuses

e devolve-nos um aroma da infância:
leite morno vertido sobre a pele.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

7.5.07

Em seara alheia



Ela levantou o joelho direito por entre as tuas coxas
escreveu-te a boca com o húmido sal da manhã
como se fosse uma deusa inesperada e furiosa

e cercou-te com a noite da última parede do labirinto.
Tu tinhas a dor erguida e os olhos choravam.
Chovia por entre as rochas e explodia-te nos rins

a cegueira que a olhava: dura e trémula.
Se fosses morrer logo a seguir a neve
não cairia dessa forma sobre a praia e o mundo.

mas tu morrias agora, ó amante no escuro do dia então.


Manuel GusmãoIn Mapas o assombro a sombra. Lisboa : Caminho, 2005

6.5.07

Quando maio chegou contigo


Para a minha filha Ana Isabel


Queres saber o quê, minha filha?
É que não encontro respostas
para as tuas questões.
Uma mãe não hesita. Não é negligente.
Usa sábias e vigilantes palavras.
Isto deve ser verdade.
Mas quando maio chegou contigo,
nenhuma sombra me avisou
do ansioso brilho dos teus olhos.
E agora ?


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.5.07

A mãe

Balthus

Adivinhar, no teu rosto, o rio da infância
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.

Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra
crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

4.5.07

O nomadismo dos afectos

Donna Geissler

Articulo-me nas convenções quotidianas.
Nota-se, no meu andar,
o nomadismo dos afectos.
Dédalo construíu o labirinto ao meu redor,
como um anel de silêncios.
Agora, tenho nos pés
o fantasma de um marinheiro

enlouquecido pelo som dos búzios.

Graça Pires
De Labirintos, 1997

3.5.07

Vamos falar de poesia




Não podemos saltar por cima da nossa própria sombra.
Poderá fazê-lo a poesia?

George Steiner
In Gramáticas da Criação.Lisboa:Relógio d'Água, 2002

2.5.07

Exausta de esperar



Exausta de esperar, descanso o olhar
na silhueta de veleiros pintados de negro.
Depois, desenho, em minha insónia, um pássaro,
que me sobrevoe a infância, hasteando,
bem por dentro da meninice, um rosto paterno,
para que a boca me não sangre de orfandade.

Naufragaste numa noite
em que o brilho da lua adormeceu
e deixaste-me uma ilha por herança.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

1.5.07

Ninguém me viu

Alfredo Cunha
Ninguém me viu
mas, na multidão,
era indelével
o meu vulto
atento à vida
como um sonho aceso
e no meu rosto
havia uma bandeira colorida
mas ninguém me viu,
muda de mágoa,
placenta das palavras que gerei
no aceno dos meus braços.
Ninguém me viu
e os meus passos
soavam a loucura
ao ritmo de um verso
e no meu olhar
estava impressa a solidão
mas ninguém me viu.

Graça Pires
De Poemas, 1990

30.4.07

Em seara alheia


PENÉLOPE, MEIO DIA

Está na cozinha, a sopa ao lume, os pratos na
mesa, talheres para dois, como se ele viesse. Hoje.
Ele não volta, anda embarcado há muitos anos num
navio com sal e ferrugem nos porões. Mas ela espera,
sabe que ele pode chegar a qualquer momento. Às
vezes espreita a telenovela ou as ervas a crescer junto
ao muro do quintal. No resto do tempo, faz e desfaz
o mesmo naperon, para enganar as horas, o frio,
a solidão e um corpo esquecido do que é o amor.
José Mário Silva
In: Nuvens & Labirintos. Lisboa: Gótica, 2001

29.4.07

De múltiplas cores



Encosto a cara às quimeras da infância,
para exorcizar a inocência perdida
e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui,
quando as minhas mãos, nativas do sol,
eram aves de múltiplas cores.
Páro todos os relógios, para escutar
a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem,
rasgo o cenário e danço, como um louco, em redor
de malogros entralaçados nos meus pulsos.
Tenho, em volta do pescoço, uma lua

transparente que me enrouquece a voz.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002