19.5.13

Dádiva


Pedro Pires

Diante do mar dissemos: 
a nossa casa será um lugar sem desvios 
onde os amigos hão-de vir nos dias 
de sol intenso em busca de um recanto 
de sombra só disponível nas fontes. 
Virão, quem sabe, os filhos 
avistar da nossa janela 
o azul puríssimo das manhãs 
e entranhar no hálito o cheiro 
dos limos e do pão. 
Virão, quem sabe, os filhos 
com os filhos que tiveram 
para sabermos que não é tão breve 
coração que temos.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

12.5.13

De tanto chamarem pelos filhos

Di Cavalcanti

A todas as mães a quem desapareceram os filhos

Sentaram-se à roda da mesa, 
de cabeça erguida, 
como se rezassem. 
Ficaram frente a frente 
mutuamente se chorando. 
E tinham a boca inchada 
de tanto chamarem pelos filhos. 
Perturbadas com a própria sombra 
soltam, todas as noites, 
os cães e o desespero. 
E nunca mais dormiram.

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

5.5.13

Canções guardadas na lembrança

Ana Pires

À memória da minha mãe e para a minha filha Ana

Há sons que estimulam
todos os enigmas,
mesmo os mais antigos,
tumultuando as violetas
que secam no verão
e  a dor dos filhos
que dura toda a vida,
mesmo quando as mães
guardam na lembrança
as canções de acalentar o sono
na inquietude das noites.

Graça Pires

30.4.13

Em manhãs saturadas de sombras

Josef koudelka


Em manhãs saturadas de sombras
ninguém se reconhece no país
onde os castanheiros velhos não suportaram
a secura que martelou os dias em invisível combustão. 
Rastejamos, então, pelo trilho mais húmido
para que a morte não nos perfure a veia precária
do destino com facas de fogo incendiadas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

24.4.13

Liberdade




Dir-te-ei: há cavalos verdes nas margens do vento arrostando a claridade do dia quando a luz se inclina levemente para um sul inacessível e a palavra mais livre se abre na voz. Haja o que houver a liberdade é aqui, onde apertamos a esperança contra o peito.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

15.4.13

Queria prender no cabelo

Robert Coombs


Queria prender no cabelo
uma haste de sol ou um pássaro,
mas ninguém retirou as trepadeiras secas
para que a hora de verão retocasse a cal
dos muros sulcados pela chuva.
Ninguém indagou o brilho deslumbrado do olhar
quando o golpe da noite desafiava o vulto dos corpos.
Apenas o azul silencioso dos cumes
se abrigou no regaço onde as meninas
escondem o abraço das  mães
para que o mel regresse às colmeias silvestres.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

9.4.13

A rasar-nos o olhar




É indecifrável a mancha de pinheiros
o âmago da sombra
quando a efemeridade do crepúsculo
rasga devagar o coração dos prados.
Aos muros de paredes cruas
agarra-se impetuosamente
uma figueira-brava.
Um punhal de jade a rasar-nos o olhar
golpeia o brilho do trevo ou da trama
na sorte que nos cerca
Apetece colher todo o verde das maçãs
para que não apodreçam nas mãos da chuva
que voa junto ao chão.
Só os salteadores de estrada
conhecem o segredo das ervas rasteiras.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.4.13

Hesitação




Vladimir Clavijo

Não falarei do voo dos insectos em volta das sécias coloridas. Não falarei das marés que desalojam os barcos do rigor da corrente. Não falarei da colcha antiga bordada com lilases sombreados no matiz das cores. Não falarei das palavras que nos cercam de ruídos inúteis. Não falarei do remorso enrolado no sorriso das mulheres que envelhecem a sonhar um destino sem medos. Não falarei. Vou apenas inclinar-me sobre o tempo onde dançam os anjos com as sombras que me procuram.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

19.3.13

Convite

Foi uma festa linda! Obrigada a todos os que a partilharam comigo. Obrigada também aos que quiseram estar e não puderam.


Gostava muito da vossa presença, minhas amigas e meus amigos.

13.3.13

Procuro as tuas mãos. Procuro a tua voz



À memória da minha mãe

Viajo com a respiração do mar
agarrada ao tecido do peito.
Foi o vento que rasgou os ombros da noite
e a boca dos marinheiros alagada de azul.
Procuro as tuas mãos.
A recolha das redes prendeu os meus dedos às fragas.
Em contraluz o voo das gaivotas
encheu-me de sal os lábios e a língua.
Procuro a tua voz.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

7.3.13

Desafiando o medo


Vladimir Clavijo


Desafiando o medo, elas aguçaram as unhas
na própria sombra até fenderem a nudez
dos gestos arriscados.
A rigidez das escarpas agravada na fuga.
A flecha e o arco à entrada da boca.
Os dedos torcidos no bolor do pão.
A volúpia tangível à desordem do olhar.
Com as mãos inchadas percorrem
o corpo todo para que o fogo e as cinzas
se confundam com a solidão.
Conhecem a inutilidade das facas no veio do pranto.
E cismam diante dos espelhos onde, no rigor
das noites, vêem definhar os seios e as pernas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

24.2.13

Lentamente



Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

17.2.13

O excesso de luar




A lua abriu um sulco no telhado
e uma estranha névoa cobriu todas as casas.
As aves marinhas alteraram seu rumo.
Algumas mulheres atiraram-se ao mar
e seguiram as embarcações
até se transformarem em gaivotas.
Houve homens que enlouqueceram
com o excesso de luar e acorrentaram os filhos
com medo de os perderem.
Os vasos da varanda alagaram-se de vento
 e os gerânios vermelhos secaram.
As crianças esconderam-se
por trás dos espelhos para não verem
o rosto fascinante da morte.

Graça Pires

De A incidência da luz, 2011

10.2.13

O grito dos cumes



Quero guardar no interior das mãos
a esquiva cintilância das manhãs inadiadas.
Quero palavras com punhais de raiva
a ferir o grito dos cumes,
a riscar o ventre da neve com minuciosas unhas.
E viro do avesso o manto do olhar
para chegar à Montanha Mágica
quando Hans Castorp fazia um esforço
para ver e deparava com o nada,
o remoinho branco do nada.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

1.2.13

Escrevemos mar


Ana Pires

Escrevemos mar como se fosse a palavra
única que nos circunda a fala.
Quando éramos crianças tínhamos os barcos de papel.
E havia traineiras em que os pescadores manchados
de sal e sangue enfrentavam a tormenta de cada dia.
Agora, de quilha inquieta, os navios ferem
as entranhas da água e cingem-nos no olhar
o negro das marés e dos limos
que morrem na praia, onda após onda,
num extenuado adeus ao apelo dos corais.

Graça Pires
De: Uma vara de medir o sol, 2012

24.1.13

Das mais antigas dores

Josef Koudelka

Do lado distante das noites, a lua acesa
sobre os muros ilumina o rosto daqueles
que sempre entenderam o trajecto
escolhido pelos pássaros e pelos rios
e pelos amigos que nunca voltaram.
Os dias foram cerzindo em seu olhar
o caminho esquecido das mais antigas dores,
onde guardam agora o destino de suas mãos
declinadas sobre as estacas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

14.1.13

Um barco que agarre a alvorada



Seguro um marcador lilás para desenhar um barco
que agarre a alvorada em seu instante breve.
Como ajustar aos dedos o rumo da proa
quando as mãos precárias
se entregam ao fascínio das vagas?
Há muito que partiram os caminhantes
em busca de  locais desconhecidos
deixando para trás a memória da cal sobre as casas.
Há muito que regressaram os barcos incertos
e os homens: aqueles que abrigavam no olhar
o lugar onde nasceram.
Agora todas as noites podemos ouvir
a respiração dos navios
que costeiam as casas recém-pintadas
como se um regozijo lhes roçasse os mastros.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

7.1.13

A sedução da fuga



Seguimos pela noite indiferentes
a todos os ruídos que rebentam
o rigor do silêncio.
Temos nos punhos a navalha afiada
do tempo rasgando diante de nós
o túnel da eternidade.
Vamos até onde nos leve a sedução da fuga.
Queremos avistar o destino das aves
que trazem a luz das auroras riscada em suas penas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

31.12.12

Cantaremos um salmo pela terra



Temos um quebranto no friso do olhar
e demoramo-nos no canteiro dos amores-perfeitos
para que as mãos cobertas de melindre
sintam a pulsação das árvores em prece.
Em redor da cintura enrolaremos
os sonhos do mundo
e cantaremos um salmo pela terra, tão inquieta
pela aflição dos ventos da montanha.
Uma harpa de chuva evocará as pétalas perfeitas
na ponta dos dedos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

Um ano de 2013 cheio de Esperança!

26.12.12

Havia algo de sedução



Temos incrustado na língua o sabor das filhós
de abóbora que nos tornavam aguados
quando todo o conforto do natal
começava e terminava em mãos maternas.
Nenhum aceno lateja agora
nos pomares da infância onde os pêssegos
e os damascos nos saciavam a gula
e as laranjas nos enchiam o regaço.
O colorido dos diospireiros gotejava
o orvalho sobre a folhagem.
Havia algo de sedução no desnível do canteiro
das gerbérias mais próximas da claridade.
Ao longe as frésias envaidecidas
derramavam aromas sobre as tardes
estranhamente longas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

17.12.12

Nenhum sonho se repete



Nenhum sonho se repete.
Nenhum deus nasce outra vez
na nossa crença,
nem nenhum céu nos promete
a estrela da manhã
para marcar, à nascença,
um amor profundo.
Já nenhum Deus se compromete a vir ao mundo.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997


Um Natal de Amor e um ano de 2013 o melhor possível 

9.12.12

Espero cada solstício de inverno




Embarco com o nevoeiro das manhãs
preso nos cabelos.
Invento o mar.
Assisto à tempestade.
Cubro-me com um colete salva-vidas
para proteger os barcos
quando a ondulação desespera as quilhas
cobertas de sal e o vento se enrola
na mastreação desafiando as gaivotas.
Espero cada solstício de inverno
para ouvir a melodia do sol poente
e seguir os druidas em Stonehenge
nos rituais de adoração solar
e vislumbrar, através das pedras em círculo,
uma pequena laranja incendiada
convocando a pureza das sombras.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011        

1.12.12

Em momentos propícios ao silêncio das águas




Torna-se nítida a textura das conchas
esboçadas em areias onde a lua se despenha
quando o momento é propício ao silêncio das águas.
Um denso azul cresce em espuma
sobre os lábios inacessíveis à passagem
dos mastros assombrados.
Procuro o teu corpo.
Um percurso de répteis contaminou-me o ventre.
Para resistir à morte rastejo pela noite
em busca das sombras que se transfiguram em aves.
Procuro o teu abraço.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

22.11.12

Na memória dos anos

Emmet Gowin


Em bicos de pés, olho uma data escrita no muro.
Coincide com o dia em que nasci.
Pelos meus olhos passam multidões,
atraídas pela transfiguração da criança que nunca fui.
Talvez na memória dos anos se renove
o tempo de nascer e a vida se transforme
num culto mais perfeito.
 
Graça Pires
De Outono:lugar frágil, 1994

17.11.12

É de terra o molde do meu corpo

Francis Bacon


Escavo no peito um declive de seara
para ceifar o pão e roçar o ventre
no aroma dos fenos, até que o fermento
 levede o trigo por entre os dedos do estio.
As farpas de um arado podem sulcar-me a pele
porque é de terra o molde do meu corpo.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

9.11.12

Em tons de verde



Será transparente a paisagem,
obsessivamente vegetal,
que encaminha as aves regressadas do norte?
Nenhuma ânfora guarda o desencanto
consentido pelas algas que se abandonam
à corrente e, de muito longe, vêm morrer
nas praias à míngua de mar.
É-nos familiar o reverdecer dos campos
e o sussurro dos canaviais seduzindo as águas.
Temos a boca invadida pela verticalidade das heras.
Pelo som do vento adivinhamos o dano dos insectos
ou a fértil colheita da azeitona em novembro,
quando todas as árvores celebram nas entranhas
da terra a lenta penetração das chuvas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

2.11.12

Onde se envelhece com estranheza



Pedro Pires


Na descontinuidade de lugares de lodo e pão
esbarramos com os móveis espalhados pela casa
onde se envelhece com estranheza.
Possuímos às vezes um modo exagerado
de coleccionar fantasmas
por sabermos que a morte
nunca se deixa ver por inteiro.
E sentamo-nos no chão
construindo no interior da boca
o sabor do chocolate quente
ou rodando sob as pálpebras
as aparas da luz coada pelo vão da escada
onde poisámos o açafate de vime
carregado de castanhas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011


Este poema faz parte do livro "Poemas escolhidos: 1990-2011, do qual o amigo Luís Gaspar disse alguns deles. 
Para quem desejar ouvir pode ir ao site do Estúdio Raposo:

http://www.estudioraposa.com/index.php/category/poetas/graca-pires/

29.10.12

Lugares que são faca e cinza


Rui Ochôa

Há lugares que têm a feição
das coisas instáveis e perecíveis.
Lugares sobrepovoados
onde os gatos vagueiam em silêncio
como se ouvissem os passos dos mortos.
Lugares com ruas sem saída e casas precárias.
Lugares que são faca e cinza,
lume e vento, lixo e medo.
Lugares onde empalidecem os dias
e as pessoas e os deuses, cada vez mais falíveis.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

18.10.12

Convite

 
Agradeço a todas as pessoas que estiveram, no Porto, na apresentação do meu livro "Poemas escolhidos: 1990-2011". Bem hajam pela forma calorosa como me acolheram a mim e à minha poesia.
Beijos a todos.
 
 
 



Gostava de contar com a presença de todas as minhas amigas e de todos os meus amigos
e de todos os que desejarem ler-me.

12.10.12

Indago a forma definitiva do outono


Ana Pires
 
Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e recusas
como um dever por cumprir.
 
Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

5.10.12

O cheiro das vindimas




Um tumulto de uvas prematuras ecoa pelas vinhas
profanadas por sebes de adubo na fenda dos ventos.
No início do outono o cheiro das vindimas
perturbará o sono das crianças.
E o vinho quebrará todos os copos
para que o não bebam os homens
que habitam os espelhos da culpa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012