Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
25.3.17
20.3.17
Percorro devagar a minha sombra
Olga Astratova
Percorro devagar a minha sombra
para não assustar o
bando de aves
adormecidas sob os
dedos.
Vou traçar o perfil
das árvores e do vento,
respirar o sentido da
luz para contornar
os muros, até
encontrar um campo de trigo
cúmplice dos
primeiros aguaceiros de março.
Percorro devagar a
minha sombra,
eu que precisei de
cegar para sentir
o murmúrio desvairado
dos pássaros,
subitamente despertos
para um voo livre
envolto na memória
antiga de um fuga.
E sobre a minha
sombra, que percorro devagar,
sobreponho a
fragilidade do poema.
Graça Pires
In: As vozes de Isaque. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 20
13.3.17
Em seara alheia
Encontro
Nem sempre sei
Onde deixar esta urgência de ti...
Se nas palavras,
Se nos olhos,
Sem que se perca no ar
Ou nas intransigências da vontade...
Esta urgência, é só o amor
A querer perpetuar-se
Em nós... a sós...
Onde o tempo é liberdade,
Onde as mãos são a pena
Escrevendo o poema urgente
Que não sei onde terminar:
Se em ti ou em mim,
Ou se na voz
Onde calas a tua
Num encontro de silêncios
Onde a urgência se torna maior.
Luana Lua
In: Voo entre faces. Porto: Versbrava Editora, 2016, p. 80
6.3.17
Espera
Katia Chausheva
Em
plena noite cheguei a casa
com os pés envoltos em conchas.
Com eles risquei no
chão o barco e as velas
e aguardei que o vento e o mar ficassem de feição.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
27.2.17
Só folheio os jornais de vez em quando
Magritte
Só
folheio os jornais de vez em quando.
Quase
tudo o que se escreve
são
golpes confusos
que
abrem nas entranhas a impressão
de
um mundo por entender.
A
verdade chega-nos apenas
através
do silêncio dos que sonharam
um
tempo sem estas ruínas
que
descarnam e sepultam
a
mais valiosa esperança.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
20.2.17
No transtorno das mãos
Lentos
os dias. Lento o vazio das ruas.
Lentos
os caminhos sulcados pelas veias.
Tão
lentos que um lento gesto
me
bastava para conter um verso
por
mais silente que fosse.
Agora,
as palavras dançam à minha volta.
São
serpentinas de todas as cores
enroladas
ao corpo.
Difíceis
de domar fragmentam-se, voam.
Como
vultos imprecisos
no
transtorno das mãos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
13.2.17
Inês, o meu nome
CNB
Para sempre o teu
olhar interdito. O teu rosto sombrio.
O teu corpo
clandestino de mim. Para sempre.
Com que sopro, diz,
incendiaste, em meus cabelos,
a luz, tão frágil, do
primeiro orvalho da manhã?
Que contenda feriu a
clareira de teus braços
onde morri quantas
vezes eu pude renascer?
Como silenciar o
prazer se ajustaste nele
a prematura paixão de
tuas mãos?
Talvez este alvoroço
de passos em dança,
em grito, em
desespero nos mostre
como errámos todos os
voos que rasgaram
o excessivo azul das
noites mais perfeitas.
Pelas fendas da morte
te escuto agora.
Procuro, no intenso
fulgor de teus olhos,
a nitidez da água,
antecipando as lágrimas
e só encontro a sede
de bicho selvagem que te suplicia.
É de rosas, eu sei, o
aroma que acoitas no meu nome.
Graça Pires
In: A CNB e os Poetas,
2016, p. 7
Poema feito em out. 2015 depois de
ter assistido ao bailado Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, a convite da direcção da
CNB, através de João Costa.
6.2.17
Em seara alheia
BEIJO MAR
Gosto de rasgar-te a pele
rochedo provocador
nos diálogos sem fim.
Grato por guardares a agenda
dos meus desabafos,
nos acasos das fugas insensatas.
José Luís Outono
In: Três mares. Porto: Insubmisso Rumor, 2016, p. 48
30.1.17
As laranjas
As
laranjas,
vergando
as árvores de tanto sumo,
fizeram-me
sede.
Colho-as
com os dentes propícios
à
abundância de um soro cristalino
que
alague a minha língua,
ávida
da mais esperada seiva.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
23.1.17
Pátria
No
lugar onde outrora um grupo de nómadas
percorreu todo o litoral até se colar às
rochas
em melancólicos contornos
fica a pátria inquieta que nos habita
como um
sobressalto a ocidente do destino.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
16.1.17
Esta solidão de janeiro
Pertence-nos agora esta solidão de janeiro
colada ao teu silêncio, mãe
Guardamos no olhar a transparência dos teus olhos,
a mitigar a fragilidade do nosso magoado coração.
Entreteceste em nós todos os gestos do amor.
Nunca indecisos. Nunca minguados. Nunca interrompidos.
Sentimos que são as tuas mãos que amparam
as sombras que nos seguem.
Graça Pires
Janeiro 2017
À memória da minha mãe que nos deixou em Janeiro de 2010.
9.1.17
Em seara alheia
Acordo
e caminho na erva ainda tenra, húmida,
deixando pequenas marcas dos pés
cansados de caminhar no leito da noite.
Sinto a alma dos muros,
o canto dos ramos das árvores
e fico vazia de medos
longe das coisas redundantes
sem vida e sem cor.
Encontro rasgada a minha saia,
presa que ficou no bico de uma rocha;
levo-a à boca, salgada como as noites
tão etéreas e marinhas de Sophia.
Vem-me à memória que ainda
se demore a manhã no horizonte.
Dela chega-me este ar apetecido
a pousar na minha pele,
suave como um bando de aves.
Lília Tavares
In: evocação da águas. Desenhos de Carmo Pólvora. Porto: Seda Publicações, 2015, p. 55
2.1.17
A intimidade de uma súplica
Laura Makabresku
Às
vezes a grafia é escassa
no
desadorno do poema.
Ponho
no rebordo dos dentes
uma
ferocidade
que
estremece qualquer culpa.
Uma
farpa que deixa na pele
o
rasgão da cólera delineado
em
monólogos emudecidos.
E
abro, à liturgia da música,
a
incisão do peito
para
forjar no coração a nocturnidade
melódica
de chopin, derramando
das
teclas a intimidade de uma súplica.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
20.12.16
Nem sempre os pinheiros são verdes
Olívia Marques
Nem sempre os pinheiros são verdes.
Nem sempre há pinheiros no Natal.
Nem sempre as folhas dos pinheiros
são perenes.
Nem sempre o que é perene é belo.
Por vezes o Natal é opaco como os
dias vulgares.
Por vezes, ainda, é mais triste do
que os amanheceres de Novembro.
Mas nem sempre a alegria é só
alegria.
E nem sempre Novembro é triste.
Virgínia do Carmo
Desejo-vos um Natal com Paz, Amor e Conforto.
Que o ano de 2017 seja um ano melhor
12.12.16
Uma esquiva chama
Georges de La Tour
Agarrada
a desafios sem freio,
a
minha voz arredondou o canto
e
removeu devagar o espelho
que
reflectia as aves abatidas
na
cesura alarmada do olhar.
Na
marginalidade do sossego
reacendo
o lume para que haja
colunas
de fumo a seduzir o vento.
E
soletro a oração que transporta
de treva em treva uma esquiva chama.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
5.12.16
Em seara alheia
Um rio, um nome
Na terra de meu pai corria um rio
e não era ainda o do tempo
nem eu nadara no múltiplo leito de Heraclito,
era um rio de claros seixos,
onde a sombra e o riso
acolhiam o nosso corpo
ainda intacto
no incêndio da manhã.
Na terra do meu pai havia laranjas
e chão, havia sol e murmúrios
e nós ouvíamos a respiração da noite
por dentro das raízes das árvores
e o rio falava com as pedras
e com a luz
e nó corríamos
ou éramos levados pelo vento
que acendia a folhagem.
Na terra do meu pai não havia medo
só um rio e as águas limpas
onde as mulheres lavavam a roupa
e cantavam ao som da terra.
Na terra do meu pai corria um rio
e os homens tinham lugar
era um rio por coração
era um nome
para um homem.
Maria João Cantinho
In: Do ínfimo. Lisboa: Coisas de Ler, 2016, p. 32
28.11.16
No meu coração litoral
Habita-me
o brilho dos areais
quando
a salsugem
tem
a densidade de um aceno.
A
navegação é inadiável.
Em
minhas mãos passa,
perfeito,
um navio.
Um
punho de vento leva-o para o sul
onde
a inquietude dos pássaros
se
insinua no meu coração litoral.
Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
21.11.16
Subversão
Francesca Woodman
das
liturgias iniciáticas mais severas.
As minhas mãos são agora as estremas
da
planura do vento de novembro.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
14.11.16
Não tem limites
Jean Dieuzaide
Não tem limites a cúmplice desordem
das
cidades onde resistimos
ladeando
de argila
as
janelas das casas
para
que o ferrolho do ruído
não
abra uma ferida
nas
paredes brancas
em que um extenso silêncio se instalou.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
7.11.16
Em seara alheia
Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha, mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem, mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.
Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas,
sentados no caixote dos brinquedos,
bebendo os versos que havemos de escrever.
Verás que amadurece o tempo da saudade.
Licínia Quitério
In: Memória, Silêncio e Água. Poética, 2016, p. 58
31.10.16
Tantas vezes vida, tantas vezes morte
Agnieszka Motyka
Neste
momento dou ao meu perfil
a
configuração de uma haste
que,
ao primeiro sopro do vento,
adivinha
um fogo posto nas palavras.
Conheço
o rigor das noites
e o
alarmante traço
da
obsessão pelas trevas
que
me cingem os braços
quando
o reflexo do luar
incide
nas manchas do meu rosto
e
com os mais antigos olhos
posso
rever o passado:
tantas
vezes vida, tantas vezes morte.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
25.10.16
A escrita das águas
Emerico Imre Toth
Olho em meu redor.
A chuva afaga as raízes das árvores
e agita seus ramos como se fossem
mantilhas de seda agasalhando
os pássaros no rodeio do vento.
Sei que o tempo não se detém.
Os muros mais severos assinalam,
sem dissonância, a escrita
repisada das águas que a idade
guardou na borda das pedras.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
17.10.16
Quero inventar o mar de cada dia
Hoje,
que não escuto o mar
fujo
na crina de um potro livre,
sem
jugo, em veloz cavalgada.
Tenho
nos olhos um incêndio tangível
à
luz que se quebra no galope
ágil
e sonoro da fuga.
Irrompe
sobre mim o perfil dos montes
que
me diz a que distância deixei o mar.
Um
odor de poeira impede-me de gritar.
Doeu-me
a voz quando bradei,
sem
fôlego, o verso de neruda:
quero inventar o mar de cada dia.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
10.10.16
Em seara alheia
Cantou cansado
Um hino ao desencanto,
Como se fosse possível
Tomar para a alegria
O caudal de impurezas
A deslizar da solidão.
Cantou com a fraca voz
Dos que olham para dentro
Dos poços à espera
Que a água transborde.
Rui Almeida
In: Muito, menos. Lages do Pico: Companhia da Ilhas, 2016, p. 36
3.10.16
Paz
Larry Burrows
Sobrepor a voz à dor sem pátria.
Estar
lá onde o olhar de todas as mães
procura o olhar de todos os filhos.
Ter um
nome de combate para dizer paz.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
26.9.16
Bailado de gestos
Nijinsky
Aceito
que o olhar teça e desteça
o
contraste dos dias num bailado
de
gestos que se desdobram
e
prolongam para além da pele.
Quero-me no centro do espaço
onde tudo começa e acaba,
onde me uno e desagrego,
onde me deixo habitar
por uma quietude imensa.
Desvinculo-me de todos os enredos
para que a osmose das trevas e da luz
alcance o resgate do corpo
que se retalha roçando o chão
e se dissipa em pleno voo.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
19.9.16
No outono
Susan Deerges
No outono a lentura entretece os dias.
Cada uva mordida é um crivo do vinho
escorrendo nas gargantas mais
sôfregas.
As aves sublimam a profecia das
distâncias
com asas ansiosas de desertos e
montanhas.
O mar, inclemente, afoga os navios e
ama,
de madrugada, a bruma salgada
que alarma o eco iluminado de um
farol.
Há uma espécie de desamparo
em cada árvore, abraçando
o vento rendida e desnuda.
As pessoas envolvem o desconforto da
pele
em panos de tecelagem grossa
e vigiam de perto a febre dos filhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
12.9.16
Por amor
Ana Pires
Nasce-se
e morre-se todos os dias por amor.
Mesmo
aquele que se reinventa.
Como
uma oferenda
ou
um alarme que nenhum poema diz.
Da
fenda dos lábios deixo sair
a
linguagem cifrada dos enigmas
para
escandir a sombra desprevenida
das
sílabas em erótico tumulto.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
5.9.16
Em seara alheia
34.
Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.
Raquel Serejo Martins
In: Aves de incêndio. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 50.- Desenhos de Ana Cristina Dias
29.8.16
O rio intocado de outros sonhos
Duarte Belo
Com
os lábios ornados de cristal
quebro
as razões mais sombrias
no
dorso das contradições.
Não
me reconheço em jogos encenados.
Disperso
as nuvens carregadas
de
abismo em duelo com a luz.
Projecto-me
num diálogo
que
rasga uma outra voz em espanto.
E
detenho, em mãos cegas, a sorte e o revés
da
biografia que me identifica.
Sei
que por dentro da dobra do passado
corre
o rio intocado de outros sonhos.
Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
22.8.16
Todas as gaivotas me perseguem
Saul Landell
Sem embaraço vou arrancar, com as unhas,
os
pregos do barco que inventei.
Quero
afundar-me e medir o fôlego
em
que me salvo.
Enconcho
as mãos para transpor a maré
e o
litoral devassado pelo lodo.
Enrolo
os pulsos em redes de pesca
e todas as gaivotas me perseguem.Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015
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