15.3.21

Encontrou-o à entrada do deserto



Encontrou-o à entrada do deserto, 
absorto, como se conhecesse 
todas as invocações do silêncio. 
Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento, 
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão. 
Ela saía do deserto. O mesmo deserto. 
Trazia um cacto murcho em cada mão 
e um rio seco a escamar-lhe a pele. 
Olharam-se. E ela contou-lhe. 
Contou-lhe das vezes que se afogou 
no chão pensando que era água; 
como rebentaram seus lábios 
pela sede interminável. 
Disse-lhe que quase morreu 
com saudades do mar; 
que bebeu o próprio sangue 
para curar a febre e o delírio. 
Falou-lhe do medo e do cansaço 
que venceu cambaleando, rastejando, 
dormindo agarrada à noite. 
Ele hesitou. 
Depois, com uma quietude 
que só nos prodígios acontece, 
pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 61

64 comentários:

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Lindo, um belo poema de que gostei bastante.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados

manuela barroso disse...

Com a tua imagem de hoje, fui nas palavras sentindo a areia morna numa urgência incontida de abraçar tudo o que é liberdade e ar e brisa.
Depois, este teu livro é um oáis de vida(s) que acompanhamos até até à exaustão de cada história. Tão bela a forma quase descontraída como nos contas essa sede de água e de amor e de viver. Tão belo, minha querida amiga que fico presa a esse caminho, essa lonjura.
Um grande abraço. Te cuida!

Elvira Carvalho disse...

Tão belo, Graça!
Abraço, saúde e boa semana

Kasioles disse...

Solo se valoran las cosas cuando nos faltan.
Momentos de reflexión son convenientes para apreciar con más intensidad lo que tenemos y dar gracias por ello.
Ha sido un placer leer tu bonito poema.
Abrazos.
kasioles

Raquel disse...

Lindo poema para dar asas à imaginação, a busca pelas imensidões é tudo o que o ser humano quer, mas teme! Um abraço e uma excelente semana! :)

" R y k @ r d o " disse...


Li em silêncio e em silêncio imaginei que pegava na mão da minha amada e a levava até ao mar...para que, ela, sentisse o cheiro e a frescura dos pingos das ondas.
Poema lindíssimo.
.
Uma semana feliz
Abraço … Cuide-se
.
Pensamentos e Devaneios Poéticos
.

Maria João Brito de Sousa disse...

Ia repetir-me, ia escrever que "longos e irresistíveis são os caminhos da sede", mas limito-me a exclamar, como a Elvira;

Tão belo, Graça!

Outro beijo

LuísM Castanheira disse...

Um dos mais belos poemas de amor que já li.
Como dois seres, diferentes na forma de encararem os espaços, se juntam num olhar e, após uma exitação, caminham juntos, de mãos dadas, em direcção ao mar. Fabulosa estória.
Pode-se morrer sem nunca ver o mar mas,
viver sem um grande amor, deveria ser proibido.
Um beijo, querida amiga Graça.
Tem uma semana de saúde e felicidade.

Cidália Ferreira disse...

Poema excelente! Amei de verdade! Obrigada pela partilha!:)
-
Vaguear de espírito livre, e sozinho
-
Beijo, e uma excelente Semana.

R's Rue disse...

❤️

bea disse...

Ora aí está, um poema com final feliz. A imaginação precisava algo assim, que dá bem.
Boa semana, Graça.

carlos perrotti disse...

Um poema que conhece "todas as invocações do silêncio...", que se abre como um origami de sentidos mais lá da claridade do instantâneo que narra...

Mais uma vez admirável, Graça Poeta. Mutiro obrigado. Cuide-se muito por favor.



alberto bertow marabello disse...

Prendersi per mano è già un prodigio.
Molto bella, amica Poetessa
Um beijo

teresadias disse...

"Encontrou-o à entrada do deserto,
absorto, como se conhecesse
todas as invocações do silêncio."
Inicio soberbo de uma história belíssima narrada em verso.
Obrigada minha amiga Graça, pela partilha desta pérola e pela imagem que enche os olhos.
Beijo, boa semana, continua a proteger-te bem.

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Um poema tão, mas tão belo e profundo, que me remeteu para o encontro entre Jesus e a Samaritana.
O encontro entre dois seres que atravessando o deserto têm sede, mas sedes diferentes!
Sede de água e sede de amor!
Dá-me dessa água e eu dar-te-ei Agua Viva. Mas como?
E pegando-lhe na mão levou-a a ver o mar.
Brilhante!
Beijinhos minha Amiga e Enorme Poeta.
Desejo-lhe uma semana com muita saúde.
Ailime

Luiz Gomes disse...

Boa tarde Graça, acho que estamos nesse deserto desde 2020 e procurando a saída.

Mar Arável disse...

Nos desertos medram as tuas flores.
Bjs

JUAN FUENTES disse...

Al ver esa foto se puede comprender la pequeñez de los humanos.

Olinda Melo disse...


Este seu poema, querida Graça, sempre me trouxe inquietação
pela forma magistral como descreve esse sofrimento, tão vívido
e contido. Sufocante quase.
A salvação num ponto de fuga: o mar. E quem leva essa mulher
pela mão.
Belíssimo poema, minha amiga.
Beijo
Olinda

Toninho disse...

E neste lindo encontro no caminho do mar,
se refez de todas as quedas e se fez estrela,
que sobre o mar envia sua luz. O deserto se desfez.
A solidão é uma fera.
Lindo poema com a marca Graça Pires, é só aplaudir.
Boa semana amiga.
Beijo e paz no coração.

Marta Vinhais disse...

Ás vezes, sentimos que estamos perdidos no deserto.
Mas há sempre alguém que nos fala à alma, ao coração e descobrimos que, afinal, o Mar até está próximo.
Brilhante...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

ManuelFL disse...

Pegou-lhe na mão, foi com ela até ao mar e não mais a largou, inebriado de amor e carinho.

chica disse...

Foi lindo te ler, uma verdadeira viagem...ADOREI! Linda semana! beijos, tudo de bom,chica

São disse...

Muito belo este teu poema!


Beijinho e cuida-te, sim ?

Juvenal Nunes disse...

Será a entrada do deserto uma porta sem saída ou a saída do deserto uma porta para o abismo?
Abraço de poética amizade,
Juvenal Nunes

Maria Rodrigues disse...

Que nos desertos da vida, haja sempre uma mão que ajuda.
Um poema sublime.
Beijinhos

Isa Sá disse...

Muito bonito!

Isabel Sá  
Brilhos da Moda

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Graça,
Que coisa mais linda
esses versos.
Eu amo e amo
vir ler e reler.
Comento pouco
por questões alheias
a minha vontade.
Adoro você e sua
escrita.
Sou grata por
sua presença no Espelhando
lendo ou comentando.
Você é muito
bem vindo lá sempre.
Bjins
CatiahoAlc.

Mário Margaride disse...

Belissimo poema, amiga Graça!
Muitas vezes nos sentimos perdidos num imenso deserto. Onde não vislumbramos o oásis, da nossa alegria, da nossa inquietação.

Continuação de boa semana!

Beijinhos!

Kalinka disse...


OLÁ GRAÇA
deixou no meu blog palavras sobre "talento"
e que direi eu agora?
Tanto talento para a escrita, para descrever

PARABÉNS

Lendo-a fez-me recordar o deserto!
A próxima viagem até lá, que já estava planeada
e ficou sem planos futuros
por tempo indeterminado!

Lê-se nos meus olhos
a atracção pelo desconhecido
pela AVENTURA.
Digo que quase morro, com saudades das minhas viagens;
Falo do medo e do cansaço
destes 380 dias em que "deixei de viver"
Mas
ninguém pega na minha mão, ninguém me afaga!

Amiga, beijinhos

Emília Pinto disse...

Não só agora, Amiga Graça, mas sempre, o sofrimento de algumas pessoas é tal que ficam assim, como que olhando um deserto imenso, não espeando mais nada a não ser uns cactos secos e espinhosos que, mesmo assim ousam sgurar; quem lhes dera que, de repente, nessa imensidão de areia, lhes aparecessem, pelo menos umas roserinhas bravas que sempre oferecem um colorido ao caminho dificil que têm de atravessar. Neste momento tão sério que estamos a atravessar há muita dor e alguns, apesar de saudáveis, não veem o fim do deserto e as mãos que por vezes aparecem para os ajudar a encontrar um pouco de água são sempre poucas e o desespero aparece por mais que a primavera anuncie renovação e esperança em dias melhores. Tenho andado um pouco ausente, querida Amiga, mas, acredita, passo por cá todos os dias, mas, falta-me o ânimo para bater à porta e entrar. Há um amigo de infância, irmão da minha cunhada que está a atravessar um deserto sem fim à vista, lutando pela vida, sem que os amigos e familia lhe possam dar o conforo de que precisa: há quase um ano que não o visito e o nosso coração, de todos aqui em casa, angustia-se; que vontade de o abraçar e de lhe dizer o quão importante ele tem sido nas nossas vidas, desde os tempos de infância lá na nossa aldeia. A vida é assim...é deserto...é oásis...é mar, como ele, cheia de marés, algumas aterradoras de tão bravas. Amiga Graça, os desabafos também são uma espécie de oásis, principalmente para quem os faz e eu atrevi-me a deixar aqui o meu. Um beijinho e obrigada! SAÚDE para todos
Emilia 🙏 🌻

Maria Lucia disse...

Estou retornando aos poucos na blogsfera, depois de um longo tempo ausente. Sua visita e comentário lá no Sementes Preciosas, encheu-me de alegria.

Esse poema atesta a sensibilidade de sua alma alada, amiga, parabéns !

Gostei muito. Abraços

Majo Dutra disse...

E, no entanto, o deserto cria paixões, tal como o mar...
Porém, uns são do mar, outros do deserto, salvo alguns beduínos,
os berberes que também gostam do mar...

Parabéns pelo poema, estar longe do mar, pode infligir grande sofrimento.
Dias bons, Poeta amiga. Beijinhos
~~~~~

Maria Lucia (Centelha) disse...

Voltei pra comentar novamente, porque o outro comentpario não é do blog Sementes Preciosas.
Belíssimo poema, eu diria , inspirador. Sua sensibilidade à flor da pele, é a poesia de sua alma. Parabéns . Abraços

Fê blue bird disse...

Viajei até esse deserto, e nele vislumbrei a minha própria solidão.

Magnífico momento de poesia , Graça Pires .

Um beijinho

Megy Maia disse...

Olá, minha querida amiga Graça!
Que saudades tenho de novas mares!
E esquecer o deserto dos nossos viveres!
Um doce abracinho!
Megy Maia🌼🌟🌼

Mário Margaride disse...

Um poema sentido, onde o amor e a saudade se cruzam num infinito sentir...
Muito belo, amiga Graça!

Ótima quinta feira!

Beijinhos!

Lúcia Soares disse...

Bom dia querida amo o mar traz paz, gostei do poema muito fofinho bjs

Tais Luso de Carvalho disse...

Querida Graça, que belo poema, e um pouquinho dramático. Fiquei olhando esse imenso deserto e pensando no mar: qual das duas solidões eu escolheria de não tivesse opção? Apesar de uma pequena fobia ao mar, ficaria com ele, só não me arriscaria como aconteceu uma vez, pois o mar aqui no sul do Brasil não é nada manso. Nada amigo.

Gostei muito de ler e pensar...
Beijo, amiga! Cuide-se.

"Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,
pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão"

Lucinalva disse...

Bom dia, Graça
Lindo poema, que no deserto da vida o mar apareça sempre. Bjs querida.

© Piedade Araújo Sol disse...

Graça

um dos poemas mais belos que li da tua autoria e que combina muito bem com a foto.
dele se tiram muitas ilações!
Tantas!
Adorei este momento único de Poesia.

Cuide-se
Beijinhos
:)

Jaime Portela disse...

Um poema magnifico.
Onde a história se desenrola bem construída poeticamente.
Continuação de boa semana, querida amiga Graça.
Beijo.

mz disse...

Um reencontro de almas, maravilhoso.

Um abraço, Graça.

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e outros textos literários. disse...

Bela imagem quando o ser
Sente na alma a solidão
Amorosa e o coração
Dilacerado, sem ter
Qualquer sinal de prazer
Sente-se em pleno deserto
Com o seu destino incerto;
Com dor constante e plangente
Que soa, ressoa e a mente
Sente um céu todo encoberto.

Gostei imensamente do poema, Graça. Parabéns! Sempre nos surpreendes! Abraço cordial. Laerte.

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, amiga Graça,
esse seu belo poema fez-me lembrar de muita coisa relacionada com o deserto, livros, poemas, filmes e documentários, sempre tão explorado (o deserto) pela vida que levam seus habitantes, muito deles nômades, pela magia do sol sobre a areia com rajadas de vento a formar estranhas nuvens.
Parabéns!

Aproveito para dizer que abri os comentários neste espaço, Blog Panorama, que foi criado no ano de 2006.

Um feliz fim de semana, com muita saúde.
Beijo

Roselia Bezerra disse...

Falou-lhe do medo e do cansaço
que venceu cambaleando, rastejando,
dormindo agarrada à noite.

Olá, querida amiga Graça!
O final está lindo num fechamento incógnito que apreciei.
O mar leva tudo consigo e devolve a paz.
Esteja bem, amiga, proteja-se!
Beijinhos, saúde, paz e preces

Canto da Boca disse...

Um poema vasto, grandioso, como o deserto.

Encheu a minha alma de sol, apesar de tudo!

:)

teresa p. disse...

Um poema lindíssimo que é uma história de amor. Encontraram-se à entrada do deserto. Olharam-se. "Lia-se nos olhos dele a atração pelo vento, pelas areias pelo espaço, pela solidão." Ela com um rio seco a escamar-lhe a pele, contou-lhe tudo o que sofreu e como quase morreu com saudades do mar. Ele pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar. Uma maravilha! Também a imagem é linda. Gostei demais.
Beijo.

solfirmino disse...

Ele era deserto, ela era mar. Se ficasse no deserto, ela morreria de sede, mas o deserto pode ficar perto do mar. Ele a salvou. Bela história de amor, amiga.
Como diria o poeta brasileiro Gonçalves Dias, morto no século XIX: "Isso é amor, e desse amor se morre!" O nome do poema é "Se se morre de amor". Gonçalves Dias foi o principal nome do romantismo brasileiro.
Um ótimo início de primavera para você.
Beijinho

Mário Margaride disse...

Olá Graça!
Passei por aqui, relendo este lindo poema, e desejar uma boa noite e feliz fim de semana!

Beijinhos!

Alice Alquimia disse...

Que lindo! Adorei ler e imaginar.

brancas nuvens negras disse...

Depois da tormenta uma mão amiga.
Um abraço

Ana Freire disse...

E ao se encontrarem e darem as mãos... salvaram-se... cada um salvando o outro... um, de se perder do mar... o outro, de apenas permanecer pelos desertos da vida...
Que história linda, Graça! Para ler e reler... adorei este poema, que tem um sentido acrescido, para mais na fase que atravessamos. Com responsabilidade... salvamo-nos uns aos outros!...
Um beijinho! Bom fim de semana, com saúde, para si e todos os seus!
Ana

baili disse...

oh this was intense and touching story dear Grace ,beautifully told as always !!!!!!!!!!!!

painting of a meeting of two starving hearts who spent most of their life lost in desert longing for water ,shade and shelter
made my eyes teary as colors of your deep and powerful expression made me reach their and see that legendary moment with glitter of joy and serenity
thank you for making me part of this lovely story my friend!
best wishes and hugs!

Dan André disse...

Nossa, que lindo amiga Graça. Você inspira a todos como eu, que gostam de escrever. Gratidão. O seu poema me transporta para o nosso deserto intimo e pessoal, essa solidão gostosa e misteriosa, que cura e aprisiona...

Abraços,
Dan
https://gagopoetico.blogspot.com/2021/03/comida-poesia.html

Fá menor disse...

Quão belas as suas palavras, amiga Graça! Delicio-me sempre.

É tão bom quando conseguimos sair dos desertos da vida e afastar os outros deles!

Beijinhos.

Anete disse...

Um poema com suspense, solidão e reencontro feliz em direção ao mar... Muita sensibilidade e ternura. Amei!
Meu abraço e feliz Primavera, Graça...

AC disse...

Não esperava a opção pelo final feliz, mas a autora foi piedosa e - talvez sim, talvez não - atendendo ao momento que passamos, optou pela descoberta da água.
Como sempre, muito bem, Graça.

Um beijinho :)

Agostinho disse...

A areia do deserto apura paixões sublimes.
Mesmo quando tudo parece perder o sentido
e a angústia mergulha no adensar
do vermelho sequioso
Há um um instante, um instinto quase um sonho que se faz mão realidade.
Tão bom Graça Pires. Li o livrinho todo, e não perco aqui todas as faces que se me oferecem, as suas iluminadas imagens, metáforas: um caleidoscópio de palavras.
Beijo amigo. E saúde, mesmo aguardando a pica...

Teresa Almeida disse...

São poderosas estas imagens: o deserto gerador de tantas sedes; a mão e o mar a saída desejada.

Excelente, amiga Graça.

Beijos.

Carlos Augusto Pereyra Martínez disse...

Me encanta la ternura del poema, entre la surrealidad. Un abrazo. Carlos

manuela baptista disse...

"Touch point"

e amararam.

um abraço, Graça.

José Carlos Sant Anna disse...

Um poema redondo, circular, na imensidão do deserto, flutuando na linguagem depurada, como um feixe de luz. Intensidade única, brilho único. Minhas pupilas se regozijam com tanta beleza!
Um beijo, minha Graça!

Marli Soares Borges disse...

Lindo poema, surreal e melancólico. Ao mesmo tempo, há a catarse final! Muito bom!!!!! Bjs, Marli
(estou voltando à blogosfera, depois de muito tempo...)