10.1.22

Procurou alguém que gostasse de animais

Filomena Fonseca


Procurou alguém que gostasse de animais 
para lhe cuidar do cão. 
O lugar que escolhera para viver o tempo 
que lhe sobrava era só para pessoas. 
Uma espécie de abandono aferrou-se-lhe na pele. 
Porém, os pássaros começaram a demorar-se 
no parapeito da janela do seu quarto. 
Estremecidamente, começou a deixar-lhes sementes. 
E eles vinham. E chilreavam. 
E sobrevoavam a réstia de alegria que ganhara. 
Mas também às aves era interdito que ali pousassem. 
Sujavam tudo, lhe disseram. 
“Quem me dera voltar para a minha casa”, 
chorou baixinho. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 55

58 comentários:

chica disse...

Que lindo , mas triste quando pessoas não gostam de animaizinhos e veem neles apenas os problemas ao invés de curtir a alegria que nos podem dar! beijos, ótima semana! chica

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Dramático e bastante solitário este final de vida onde não existe espaço para o convívio com os animais.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Roselia Bezerra disse...

Olá, querida amiga Graça!
Emocionante!
Assim se dá com muitos idosos que só têm por companhia os animaizinhos.

Um belo dia, lhe roubam o que lhe faz muita falta e era sua sobrevivência emocional.
Oxalá não seja nosso destino o da senhora em questão.
Parabéns por sua sensibilidade, amiga!
Tenha um novo ano abençoado e muito feliz!
Beijinhos carinhosos

Rogério G.V. Pereira disse...

Esse olhar triste
recomenda
que me visite
e naquele espaço
à pesquisa dedicado
escreva
Gaivota

E vai ver que a alegria lhe volta

Beijo

" R y k @ r d o " disse...

Se forem passarinho que poisem no parapeito da sua janela tem sorte. Imagine-se se forem pombos.
Belo poema.
.
Uma semana feliz … Cumprimentos
.
Pensamentos e Devaneios Poéticos
.

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Graça querida,
Seu
texto é um realidade triste,
mas uma realidade.
Procuro não pensar
muito nela.
Entretanto seu
texto é lindamente
verdadeiro.
Bjins de boa nova semana.
CatiahoAlc.

Olinda Melo disse...


Querida Graça

Pelo que depreendo trata-se de alguém forçado
a viver noutro espaço que não o seu cantinho,
a sua casa, onde poderia pôr e dispor e ter
à sua volta animais de estimação e ter aquela
liberdade tão necessária a cada um dos nossos
actos. Se assim não for, a solidão toma posse
dos nossos dias.

Tema que merece mais do que nunca a nossa
atenção. Como sempre, não descura esses problemas
que assolam a sociedade.

Gostei muito, minha amiga Graça.
Beijinhos
Olinda

Mário Margaride disse...

Há muitas pessoas com essa necessidade, de lhes cuidar dos animais de companhia, ou porque não têm condições, ou porque têm que se deslocar para onde não os podem levar.
E sentem esse desespero...
Excelente poema! Que é ao mesmo tempo um alerta.

Votos de uma excelente semana, com muita saúde.

Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

... disse...

Nice poem about the dog, I like it

Marta Vinhais disse...

Um retrato dorido de alguém que deixou tudo para trás...para que cuidem dela, não fique tão só .... e no entanto, está ainda mais só do que se estivesse no local onde foi feliz...
Lindo...
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta

Elvira Carvalho disse...

Um belíssimo poema que retrata bem os últimos anos de muitos de nós. A solidão mata mais do que a idade, ou qualquer doença conhecida.
Abraço, saúde e boa semana

Cidália Ferreira disse...

Quão triste é, porém cheio de beleza!
-
Geada, em fino manto ...

Beijos e uma excelente semana

Ailime disse...

Boa tarde Graça,
Um poema belo e ao mesmo tempo nostálgico que fala das limitações que nos são impostas quando temos que habitar um outro cantinho, que não o nosso.
Os animais, esses, são completamente esquecidos e quanta dor no coração de quem até ali faziam companhia.
Há muita falta de compaixão na humanidade.
Beijinhos, minha Amiga e Enorme Poeta.
Desejo-lhe uma boa semana.
Ailime

carlos perrotti disse...

Versos inspirados cheios de melancolia e humanidade, Graça ... Hoje mais do que nunca é dever do Poeta humanizar.

Abraço grande amiga, por favor continue se cuidando também.

A Paixão da Isa disse...

os animais eles tem muito amor para dar mais um poema que nos deixa a pensar bjs saude feliz semana

bea disse...

É a realidade dos nossos velhos. Despimo-los de tudo: da casa, das roupas, dos objectos que os acompanharam durante décadas. E dos animais a que mais se apegaram em consequência de terem sofrido a progressiva distância dos humanos. Nos lares é-lhes permitido andar em curto espaço, dormir e comer a horas que não determinam; adormecer num quarto com mais um ou dois velhos que desconhecem, deitar-se com as galinhas e levantar com os galos porque a higiene dos idosos é demorada e as funcionárias são poucas (em muito lar acordam entre as cinco e as seis). E, em alguns fins de semana, quando os filhos se lembram - netos e bisnetos não estão para visitas - vêm vê-los. Aos que não se movimentam calha ainda pior sorte, sentam-nos numa sala de onde saem para comer e dormir. O final da vida em Portugal é bem triste. Sobretudo o final daqueles que mais trabalharam, os que tiraram de campos e fábricas o sustento e viveram a oferecer a sua força de trabalho a outrém. Quase sempre sofrida e mal paga. É a recompensa que têm. Mas um dia serão eles os velhos, esses filhos de hoje. Não sei o que acontecerá. Como podem os que não foram ensinados a respeitar a velhice, tomar as medidas certas; no futuro, que políticos acautelam a situação dolorosa dos nossos velhos.
Boa semana, Graça.

José Carlos Sant Anna disse...

Ah, como sempre queremos voltar para casa, não importa o tempo, a hora.
Como faz falta a casa, sobretudo em determinada fase da nossa vida. É nostálgico, doloroso,
mas expõe uma verdade que devemos nos curvar.
Bom estar aqui neste início de um novo ano,
Um beijo, minha amiga Graça!

São disse...

Já existem instituições onde existem animais, felizmente.

Beijinho, boa semana, minha Amiga

JUAN FUENTES disse...

Bonito poema...

lis disse...

Seu poema imprime bem o que a tela representa _ a solidão terminal da maioria de nós,quando nos curvamos pela idade. E a busca pelo carinho dos animais é um pormenor.
Sublime retrato, Graça
Boa semana, com saúde e meu carinho

J.P. Alexander disse...

uy que triste poema la alegría desinteresada que producen los animales no debería ser prohibida. La encerraron y la olvidaron como a muchos otros. Te mando un beso

brancas nuvens negras disse...

Esse é o fim que estará reservado a muitos de nós, por coincidência, ainda hoje fui pesquisar um lugar desses para a minha irmã.
Um abraço.

Lucinalva disse...

Bom dia, Graça
Texto bastante reflexivo. Só o amor faz a gente cuidar do outro até o fim, os animais são um encanto, bjs querida.

ManuelFL disse...

Este belo e tocante poema, tão bem ilustrado pela arte de Filomena Fonseca, refere uma realidade a que por vezes queremos fechar os olhos ou preferimos ignorar.

Que desumanidade retirar a alguém a réstia de alegria que ganhara com o chilrear dos pássaros no parapeito da janela do seu quarto.

Estremecemos por tudo o que o poema nos diz com tanta sensibilidade.

Beijos

Fá menor disse...

Que bonito, na sua tristeza! Há tantos casos assim!

Beijinhos.

© Fanny Costa disse...

É de facto uma triste realidade.
Fez-me lembrar a minha mãe que adora dar pão aos passarinhos da sua janela. É um encanto vê-los voar e até pousam no parapeito da janela.
No lar onde o meu pai esteve, havia gatinhos e era uma alegria para os velhotes.
É triste quando se chega a esta idade e de repente, tudo muda e entristece...
Um beijinho 😘

Luiz Gomes disse...

Boa tarde minha querida amiga Graça. Obrigado pelo texto maravilhoso. Infelizmente muitos animais foram abandonados nessa pandemia. Uma excelente terça-feira.

teresa p. disse...

Poema de grande sensibilidade que retrata a triste realidade duma solidão sem remédio na reta final da vida. É muito triste que neguem a uma pessoa fragilizade as pequenas alegrias que ainda lhe dão um pouco de cor à vida que lhe resta. Muito emocionante e perturbante o poema, pois estes casos são mais comuns do que se pensa.
Beijo

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

Graça

um poema muito real e que é o que nos resta.
tão real que até doi.
um bom momento de poesia e reflexão.
boa semana.
beijinhos.
:)

José Ramón disse...

Me encanta leerte otra vez de nuevo excelentes poemas ¡Feliz Año Nuevo para ti y tu familia y seguidores!

Maria Emilia B. Teixeira disse...

Um bichinho alegra muito a vida no entardecer da alma. Delicado e triste o assunto do poema, assim como é a velhice solitária. Boa semana.Bjs.

Emília Pinto disse...

A nossa casinha, por mais humilde que seja, é nossa e não importa que os passarinhos sujem os parapeitos, biquem a terra dos vasos , entrem na sala ou na cozinha; não há nada melhor que o nosso cantinho onde podemos fazer o que nos apetece, sem os horários fixos para deitar, almoçar, lanchar. E se não quiserermos comer? E se não nos apetecer dormir? Na nossa casinha, tantas vezes construida com muito sacrificio, não há aquecimento, a luz é fraquinha, a televisão nem sempre funciona, mas as recordações que nos vêm do tempo da casa cheia, das correrias das criancas, do latido do cão, do cacarejar das galinhas, dos vizinhos entrando pela casa dentro, tudo isso nos aquece o corpo e nos acalenta a alma. Sei que muitas vezes não há outra solução, mas também sei que tantas outras não há vontade bastante para que os nossos idosos fiquem no cantinho deles, O que mais dói é ver que o dinheiro que todo o idoso poupa para a velhice, é utilizado para pagar o lar e não para o manter no cantinho onde ele deseja morrer. Isso magoa e muito! Obrigada, Graça, pelo poema que nos leva a uma importante e urgente reflexão. Um beijinho, querida Amiga e saúde para todos vós
Emilia

Raquel disse...

Gostei muito de ler, a inocência e a alegria andam juntas, temos de ser muito simples para viver nesse estado, caso contrário as angústias aderem facilmente ao espírito. Deixo votos de um Feliz Ano 2022! :)

manuela barroso disse...

Tao grande e longo e soberbo este poema-história!
Como consegues dizer tanto, nesta síntese de história de vidas! A beleza com que foste "apanhar " o pormenor dos passarinhos e o distúrbio que ate eles provocavam!
Mas a realidade da historia,confesso que me desconcentra com a beleza da tua arte poética.
Mas sim, melhor uma sopa na nossa casa do que o melhor do mundo onde o calor não aquece a alma!
Um grande beijo, minha querida Graça

Majo Dutra disse...

O fim das vidas é sempre profundamente triste e, quase sempre, solitário...
E não devia ser assim...

Um poema muito expressivo e comovente. Gostei de o apreciar.
Beijos, estimada Poeta.
~~~

alberto bertow marabello disse...

Sarebbe bello poter volare via come gli uccelli quando è venuto il loro tempo.
Bella poesia.
Ciao amica Poetessa, ti auguro tanta felicità e tante parole ancora da comporre.
Um beijo

Arthur Claro disse...

Linda poesia, meus parabéns.

Arthur Claro
http://www.arthur-claro.blogspot.com

Vinicius Geyer disse...

Boa noite .Triste e belo, parabéns linda poesia!Abraço.

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça.
Passando por aqui, relendo este lindo poema que muito apreciei, e desejar a continuação de ótima semana.
Beijinhos!

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Tais Luso de Carvalho disse...

Nossa... é muito triste boa parte dos nossos velhinhos passam assim, em casas de repouso, asilos, não importa o nome, tudo é a mesma coisa, o dinheiro é que sentencia um quarto mais confortável, uma comida melhor. E assim vão nossos velhinhos, arrancados de suas casas.
Tive aqui uma vizinha, que quando eu notei, não estava mais em seu apartamento, o filho a levou para uma casa de repouso, tinha uma cuidadora aqui no seu ap. Dois meses depois pediu para voltar para casa, chorando, queria morrer em casa. Uma semana...morreu!
Triste, muito!
Beijinho, querida Graça, forte, mas muito verdadeiro poema.

Jyoti disse...

Very nice poem and very nice sketch! Have a great day!
Rampdiary | Fineartandyou | Beautyandfashionfreaks 

Maria Rodrigues disse...

Os finais de vida podem ser bem difíceis e solitários.
Palavras sentidas que tocam o nosso coração.
Um poema sublime
Beijinhos

Laura. M disse...

Gran texto para una buena reflexión. Gracias Graça.
Un abrazo.

Carlos Augusto Pereyra Martínez disse...

Creo que el problema, a través del abandono del perro, y de los pájaros ahuyentados, refleja nuestra deshumanización. Un abrazo. Carlos

LuísM Castanheira disse...

tanto gostava
que pássaros
a ensinassem
a voar
para daquele
maldito lugar
se pudesse
escapar.

vejo beijos naquele chorar
beijos dum adeus
para quem lhe fez algum mal.

Um poema tão sensível
como belo, na tua forma
de o mundo ver.

Pérolas do teu colar.

Um beijo, Graça, e muita saúde
Cuida-te muito.

Jaime Portela disse...

A vida e o seu final não é fácil, até para os animais.
Excelente poema, como é hábito por aqui.
Continuação de boa semana, amiga Graça.
Beijo.

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, amiga Graça, gostei muito de ler esse seu poema denso e sensível, que nos mostra a tristeza de quem se vê obrigado a deixar sua casa e os animais de estimação para seu último refúgio. Infelizmente, a vida é assim.
Um poema para a reflexão de todos os leitores.
Um excelente final de semana.
Beijo, amiga.

Micaela Santos disse...

Muito bonito este poema que é também uma reflexão. Há sempre uma realidade que nós não vemos, deve ser triste esta separação do animal de estimação, ir para um lugar onde não há espaço para nenhum deles!

Beijinho.

Isa Sá disse...

A vida não é nada fácil....

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Mário Margaride disse...

Olá, amiga Graça.
Passando por aqui, para desejar um feliz fim de semana com muita saúde!

Beijinhos.

Mário Margaride

http://poesiaaquiesta.blogspot.com

Jaime Portela disse...

Passei para ver as novidades, mas gostei de reler este excelente poema.
Bom domingo e boa semana, amiga Graça.
Beijo.

CÉU disse...

O poema talvez se refira a alguém que foi para um lar, onde só cuidam, quando cuidam, de pessoas e o seu cão não tinha lá lugar.
Vieram, pouco a pouco, os pássaros, aos quais dava sementes e eles foram gostando e ficando e ela ficou feliz. Todavia, os pássaros também não podiam lá pousar, porque sujavam o parapeito da janela. Pensava, muitas vezes, como seria bom voltar para a sua casa, mas...
A solidão e a necessidade de cuidados é um mal do nosso tempo,
Os animais são nossos amigos, sempre ouvi dizer, mas não cuidam de quem precisa.

Beijo, bom domingo e excelente Ano Novo. Nós todos queremos que ele seja excelente e diferente.

silvioafonso disse...

Te achei, poeta. Te achei.
Um beijo, bom ano novo e,
como diz meu neto, tamojunto.

tulipa disse...

O lugar que escolhera para viver o tempo
que lhe sobrava era só para pessoas.

Ai Graça
fico arrepiada quando penso nisso!
Não queria fazer essa escolha só se me obrigarem a isso

Ohhhhhhh
(Mas também às aves era interdito que ali pousassem.
Sujavam tudo, lhe disseram.
“Quem me dera voltar para a minha casa”, chorou baixinho.)

Imagino isso tudo tão triste, ontem mesmo telefonei a uma prima minha que fez 83 anos e depois de falar com ela fiquei a chorar Coitada é um terror para ela estar no Lar.

Ofereço flores a quem me visitar
vou andando por este e por aquele blog,
saltitando, mas cumprindo o que prometi,
que em 2022 quero ser mais assídua

ver aqui:
http://pensamentosimagens.blogspot.com/

Beijinho da Tulipa
Bom domingo.

Agostinho disse...

Como um garrote estreitecendo
o pulsar do vermelho. A princípio subrepticiamente,
aparentando outras cores,
aos olhares distraídos. Os verdes amarelos em desmaio são mal inespecífico de forma tal
que os pássaros se esquecem
e demandam outros
(para)peitos

Querida Graça, a sua poesia é uma doçura que comove.
Beijo.

solfirmino disse...

Amiga, que triste deve ser um lugar somente para pessoas. E você soube escrever tão bem isso em versos. Sublime!
Beijinhos

Ana Freire disse...

A solidão pura, que espreita... e que se instala... quando faltam forças, argumentos, e opções para a afastar... em tantos finais de vida!
Um poema notável, que nos revela... aqui que nem sempre podemos evitar... para nós e para os nossos, em determinado ponto... lembro-me de algo que o meu avô dizia, nos seus dias do fim, também ele institucionalizado, por já não nos ser possível, mantê-lo em casa, com os devidos cuidados médicos a toda a hora, após um segundo AVC... só os malucos morrem felizes...
Um beijinho grande!
Ana

Parapeito disse...

Tão bonito doce Graça.
Tão tocante.
Dá um nó na garganta.
Brisas doces **