30.11.06

Do ponto mais alto da minha infância

Karl Soderlund

Do ponto mais alto da minha infância,
talvez se aviste o mar.
Deve haver um lugar,onde os barcos
se encontram para morrer sobre as quilhas.
Quem disse que nunca chega a anoitecer
nos olhos dos que ostentam um grito de aves
no declíneo das pálpebras ?
Com os pés exilados, guardo, no regaço,
os ventos e as sombras, para amparar as dunas:
tão frágeis à hora do poente.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

29.11.06

É irremediável a solidão

Jean Dieuzaide

Vieram de longe. A pé.
Na hora do sol sem sombra.
E ensandeceram à procura da fonte.
Agora vivem em casas de paredes grosseiras
e vestem-se de luto, à espera da morte.
É irremediável a solidão,
costumam murmurar baixinho.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

28.11.06

Como se fosse uma dança

Rodin

Como se fosse uma dança, um movimento de valsa,
tomo de assalto a idade do fascínio e dato, com ela,
a cartografia das noites para sempre adiadas.
Sedenta de outras luas, pinto os lábios de mel
e cola-se-me na boca um manifesto poético:
com gestos indizíveis, com mutismos excêntricos,
como se tivesse entre as unhas uma perversão qualquer,
a corromper a forma imprevista das palavras.
A íntima estratégia do olhar exibe, em meus lábios,
um silencioso desafio. Tenho a luz da manhã enrolada
nos olhos, um cheiro a rosmaninho à beira dos dedos
e um pássaro desvairado por dentro do peito.



Graça Pires
De Reino da lua, 2002

27.11.06

Em seara alheia


O jovem mágico

O jovem mágico das mãos de ouro
que a remar não se cansa muito
e olha muito depressa (como se fosse de moto)
veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as maõs na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim
o jovem mágico das mãos de ouro
desaparecido nu de todos os sítios da Terra

Mário Cesariny

25.11.06

Conta-se

Jean Dieuzaide


Falava de barcos e naufrágios,
da luz incerta das cidades,
de mulheres de longos e húmidos cabelos.
Cabia em sua boca a mudez dos outros
e, por isso, lhe escorria dos lábios
um visível silêncio.
O mar fascinava-o tanto como a lua,
ou como o cais onde amarrava o barco,
quando o vento exercitava
o seu modo desavindo de lhe afagar o corpo.
Conta-se que as ondas lhe rebentavam nos olhos
sempre que entristecia.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

24.11.06

Sempre um sonho nos arrasta

Manuel Fazenda Lourenço


Por todas as razões que definem o rumo
do vento, ou o tornam cativo nas velas
de um barco sem destino,
sempre um sonho nos arrasta.
Não, não quero ser salva de previsíveis
transgressões a um código de rotinas impostas.
Sou jovem. Hei-de sobreviver ao meu próprio caos,
antes que a noite seja mágoa no poente

e, por dentro das manhãs,morram os pássaros
sufocados de tristeza.
Hei-de sobreviver, antes que, de boca em boca,
circulem as palavras prisioneiras da ilusão,
ou o rio que me corre nos olhos

esgote o seu caudal em litígio com a nascente.
Hei-de sobreviver, porque existe um outro tempo:
livre, povoado de rostos que antecipam
o percurso da esperança.
Existe, sim, um continente soalheiro,
ao alcance do mais íntimo pressentimento da vida,
onde, em asas de gaivota, nascem os homens

reconciliados com a morte.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

23.11.06

A surpresa de olhar-te

Alvarez Bravo

Tu, que vieste sem eu te procurar, vem comigo.
Se souberes de cor a cor do vento

e quiseres decifrar, nas minhas mãos,
os gestos sem memória, vem comigo.
Como um recado quero explicar-te

por que motivo trago dentro de mim
uma longa praia, às vezes deserta,
outras vezes sufocada de gente.
É em mim que as ondas se quebram
quando o mar, intranquilo,
penetra o sossego das dunas.
É em mim que ecoam os gritos fúnebres
das mulheres, sempre que os barcos não regressam.
É em mim que nascem os lenços brancos do adeus.
É em mim que os búzios ressoam 
os segredos das marés.
É em mim.
Depois, a areia aquece as veias

e a respiração de quem chora amores impossíveis
e o corpo é um sacrário sem liturgia
a renegar o seu próprio destino.
Por isso, a surpresa de olhar-te.
Contigo permanece a alegria do riso,

branco de açucenas e de luar,
como uma festa de nascer.
Mas repara em nós : que brilho é este

que nos brinca nos olhos como se fossem lágrimas?

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1993

22.11.06

Dia de anos

Matisse


Se os pássaros sobrevoam as palavras
para saudar o dia, é porque há festa
nos olhos de quem nasce quantas vezes é preciso.
Quase se adivinha um tempo de lembranças
como um pretexto, uma fuga, um alibi
para escapar à fadiga dos sonhos minguados.
É então que os amigos trazem afectos
que o tempo não corrompe
e o vento se torna solidário das manhãs
por onde se regressa à infância.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

16.11.06

No lugar da minha sombra

Jon Edwards


Gastei as mãos amarrando barcos à infância.
Agora, no lugar da minha sombra,
cresce uma praia onde as gaivotas
aguardam que o sol
lhes devolva o brilho das pupilas,
ou as cegue para sempre.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

15.11.06

As papoilas secam-me nos olhos


Sem qualquer pudor, deixei a marca,
do meu andar apressado,
em todos os caminhos de esperas decisivas.
Algo envelheceu nos meus pés,
manchados pelo desacerto dos dias.
De tanto percorrer o chão da infância,
as minhas pálpebras encheram-se
da lucidez dos velhos.
Não creio que os dias se revezem,
inevitavelmente, iguais.
As papoilas secam-me nos olhos.
Sinal de sede, ou de um verão antigo
inquietando a boca ?


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

14.11.06

Quero um poema que fale de amor

Brancusi


Na nudez das mãos o poema tarda.
Ébria de um proibido mel recuso
dedilhar, ao acaso, definições simbólicas,
ou românticas entoações, a justificar
o ritmo das palavras. Cativa de outras falas,
rodeio-me de letras perturbadas para dizer paixão.
A semente e a seiva, o parto e a morte,
a montanha e a vertigem,
incendeiam-me os lábios
e fustigam os meus passos em direcção
a todas as madrugadas.
Quero um poema, ainda que imperfeito,
mas que fale de amor.
Que diga o corpo inteiro,
antevendo o júbilo das mãos.
Que diga a boca adjacente à boca,
e os olhos em festa, e a lua
ardendo, atónita, nas veias.
Um poema onde doa a ausência
dos abraços, onde se redima

a mendicidade do olhar.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

13.11.06

Em seara alheia



ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de núvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

Ruy Belo

12.11.06

Uma história quase nossa

Degas




Enquanto me dispo, vão-se os teus olhos cobrindo
de perturbado gozo. Vem. Somos jovens de novo.
Podemos colher os medronhos, ainda molhados
pelo orgasmo da manhã e partilhar, palmo a palmo,
a secreta invenção do musgo.
Podemos transgredir o rio da cintura
e reajustar a nau que aporta sobre a boca.
Vem. Podemos roçar a polpa, lamber o suco,
tactear a raízes do fruto ou da fome.
Podemos arriscar as asas, adiar o voo
e, no vértice dos corpos, fruir a paisagem,
lentamente. Vem.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

11.11.06

Novembro

Edward Raymes


Quando novembro se esconde
no fumo das lareiras,
ou no cheiro das castanhas
acabadas de cozer,
a morte gosta de rondar as casas.
As mulheres, sobressaltadas,
procuram as camisolas de lã,
para que os filhos não tenham medo do escuro.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.11.06

Recorto do jornal

Menez

Recorto do jornal uma primavera antiquíssima
e, sobre o vazio, esculpo a notícia do meu nome.
Tenho a idade da menina

que adormece ao som da voz materna.
No meu peito há uma árvore,
onde prendo um baloiço para espiar os ninhos
e entrelaçar, nos cabelos, penas de todas as cores.
Estou só. Tenho valsas rasgadas nos pés
e asas, como línguas, em torno da boca.
Hoje cubro de branco outras sombras.
Entre os meus dedos e a lua

pairam pluviosos olhos.
Começa em mim a emboscada

dos lugares abandonados,
espreitando os amantes traídos.
A minha tristeza pode ser um barco,
ou, apenas, o corpo de um homem

vestido de relâmpagos azuis.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

8.11.06

Enlouquecemos

M.C.Escher
Enlouquecemos.
Acasalamos na pele o azar e a sorte.
A sociedade de consumo manipula-nos.
Tornamo-nos culpados dos equívocos,
da ruína, do nosso próprio envelhecer.
Que leque de ilusões se abre
ao pressentimento sôfrego de qualquer derrota?
Com que bússola se altera o gólgota dos sonhos?
Não existimos para consentir
frases inúteis em torno dos dias.
Com um gume na língua,
excomunguemos os deuses infalíveis
e falsifiquemos o tempo de morrer
dentro das fronteiras da vida!


Graça Pires
De Labirintos, 1997

7.11.06

Um abraço

Rodin

Pelos teus braços sei o ritual do fogo
no corpo apetecendo,
a harmonia das mãos: aprisionado gozo
que percorre e desnuda as veredas
deste quente sentir.
Não repares se me comovo sobre o teu ombro.
Trago comigo o espanto
de ser possível olhar-te sem remorsos.
Diz-me se é um barco
o que vejo nos teus olhos
ou se, apenas, imagino que regressas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

6.11.06

Em seara alheia



O unicórnio

Ele veio da última
brisa da tarde.
Sua crina de sonho
sua leveza de infinito
pairavam
invisíveis
em plena praça
de domingo.
Nos canteiros
os gerânios sorriram
pombos voaram assustados
árvores festejavam alumbradas.
Tudo era felicidade
ante a visitação
daquela surpresa.
Ele veio do além
dos segundos
de um tempo
enraizado para lá
do próprio tempo.
Ele irrompeu do primeiro
anel de Saturno.
Suas patas de vento
seu dorso de núvem
levitavam
impossíveis
no pleno coração
do domingo.
No coreto
a banda
como nunca
tocou melodiosa sinfonia
balões abriram
suas cores pelo ar
namorados bailavam
plenos de esperança.
Um unicórnio
resplandeceu
súbito
o pleno sentimento
da infância.

Alexandre Bonafim

5.11.06

Hoje acordei conflituosa


Hoje acordei conflituosa.
Provocadora, talvez.
Um lenço de seda (ou uma ave?)
cerca-me o pescoço; reajusta
o decote da blusa ao esboço dos seios;
roça, no contorno dos ombros,
a tatuagem, quase invisível, dos sentidos.
Lá fora, a chuva cai. Tão devagar que faz sede.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

3.11.06

Volto a um lugar gémeo da memória



Volto a um lugar gémeo da memória
e retenho um diálogo a dançar-me nos lábios:
amo-te como no tempo em que o meu corpo
era uma ilha e nenhuma palavra me parecia
intrusa dentro da tua boca.
Amo-te. Vejo na tua face a pátria e o exílio
onde, simultaneamente, me sinto.
Chamo-te a minha fuga,

asas desenhadas no meu riso.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

2.11.06

Por detrás das estrelas procuro um amigo

Manet



Por detrás das estrelas procuro um amigo que morreu.
O seu passado pressagiava a subversão
e tomava o pulso da esperança.
Era poeta.
Na sua vida havia um muro branco,

onde cada um de nós podia escrever o nome.
Será a morte, passo a passo,
esta asfixia de recordações
que me torna deliberadamente comovida?
São astutos os mortos
com quem me cruzo na memória todos os dias.
Talvez sejam magos da vida que debitam,
ciumentos, a lembrança da eternidade,
num amor não correspondido.
Tudo é efémero longe dos retratos
que guardo, ao lado de pétalas secas
em forma de coração.
Numa fenda da paisagem
escondem-se as gaivotas
cansadas do ruído do mar.

As gaivotas e os poetas.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

1.11.06

O nome de Ariadne




O nome de Ariadne,
guardo-o na alma como se fosse meu.
Póstumo. Reticente.
Bordado na seda do meu sangue.
A desinquietar-me o destino,
como se fora o dote que me coube.
Caminho sobre os cílios de Teseu,
adormecido e exausto como um herói vencido.
Creta é tão próxima da ilha onde me perdi
a exorcizar contradições e remorsos.
Minos, o senhor do meu palácio de cristal,
tornou-me cativa de mim própria.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

31.10.06

O improviso de viver

Edouard Boubat



Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira 

desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo

o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. 

Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência 

dos momentos em que a madrugada se comove.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

30.10.06

Em seara alheia


BÁRBAROS

Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado,puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como os cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem sempre mais cedo.

Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado.
Beberam às mulheres que haviam de ter.
E adormeceram mais longe do céu.

Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.

De manhã, a planície estava ainda mais plana.

Maria do Rosário Pedreira
In: A casa e o cheiro dos livros. Lisboa: Quetzal, 1996

29.10.06

Esta noite irei de vaga em vaga



Na interior travessia do sentimento
sou o remador.
Deixaram de se ouvir
os sinais de tempestade.
Depois das últimas dunas,
a lentidão das ondas
denuncia um esboço de jangadas
a sulcar a página de cima a baixo.
Esta noite irei, de vaga em vaga,
libertar os peixes prisioneiros
nas sílabas de um sonho privado de barcos.
Peregrinação ou exorcismo
no labirinto dos versos?


Graça Pires
De Labirintos, 1997

26.10.06

Houve um ano

Balthus



Houve um ano em que as andorinhas
se esqueceram de partir.
Comovidos os deuses, adiaram
o começo do inverno.
Nesse ano, uma mulher e um homem
se fundiram em barco feito vento
e partiram sem rumo e sem dar notícias:
como se fora de cinza o nome que usaram.
Agora, nenhum horário retarda o êxodo
das últimas andorinhas em direcção ao sol.

Diz-me, meu amor, onde se cruza
a tua sombra com a minha.
Diz-me em que crónica de espanto
te tornaste o marinheiro
que debandou de encontro
ao deslumbramento das manhãs.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

25.10.06

Bem me disse a minha mãe

Jacques-Henry Lartigue

Bem me disse a minha mãe:um barco, minha filha,
um barco preso ao cais
torna perceptível que o mar
impõe as suas regras.

Sem condições de sobrevivência,
peguei nos remos disposta a decifrar as águas,
sem registar tempestades nem receios.
Naufraguei e salvei-me
e soube que a quietude
dói tanto como qualquer cansaço
e que há palavras que podem matar um sonho,
ou redimi-lo ou, tão só, manchar de sal
a nitidez de um previsto silêncio.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

24.10.06

O corpo

Edward Weston

Tu disseste : o teu corpo é um rio.
Então, acendemos, na margem esquerda,
uma enorme fogueira onde, extasiados,
aquecemos o coração.
Depois, largámos a nau a todo o pano
e fomos ilha: a circum-navegação que nos bastava.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

23.10.06

Em seara alheia



ÚLTIMA CARTA DE VAN GOGH A THÉO

nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar
o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe contra mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada
por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol

Al Berto

22.10.06

No encalço do poema

Ansel Adams

Atravessar a lenga-lenga de um discurso perverso,
com legendas de protesto marcadas na testa.
Desarticular a engrenagem do futuro,
com um pé de rosmaninho
preso ao passaporte da evasão.
No encalço do poema
acendemos, de boca em boca, uma fogueira.
Dir-se-ia ser a palavra o cordão umbilical
que põe em uníssono as mãos e os gestos,
rumo à urgência de um tempo de absolvição.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

20.10.06

O rio

Norbert Rosing




Onde estivermos, a madrugada
será íntima de veleiros
que transportam a voz do rio,
contemporânea de todos os silêncios.
Porém, não acredites na excessiva
vertigem da corrente.
Tanto azul, só pode ser a cor
dos pássaros marinhos,
improvisando a foz, tão devagar,
que o mar se agita rente aos ventos.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

19.10.06

Não presto contas a ninguém


Peter Wileman



Não presto contas a ninguém. As frases, já velhas,
suspendem intrigas de circunstância. Com algas
plantadas à cintura para equivocar os navios,
assinalo no mapa o lugar onde o sol, ao nascer,
torna visível qualquer sinal de ausência. E vou por aí,
ao sabor do vento, com a lua a pique nos sentidos.
Aconteça o que acontecer, amor, protege a minha fuga
com o teu olhar. Um sonho não se toma sem luta.
Sabem-no as tuas mãos inquietas de ternura.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

17.10.06

Quero uma casa com paredes azuis


William G. Hartshorn
Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, lágrimas,
talvez o orvalho que escorre 

pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crónica de viagem,
conspirando contra os profetas 

de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada 

na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham
e gritar a idade circular de qualquer afecto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos,
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol, 

na sedução do amanhecer
e deixar, depois, que um azul 

extenuado me denuncie.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

16.10.06

Em seara alheia


Não fomos donos da terra. Nem eu nem o meu pai.
Talvez apenas se quiserdes agricultores de estrelas.
Meu pai enchia um bornal de astros
e só por levar-me pela mão
o trigo crescia a nosso lado.
Construíramos um rio
que corria por dentro da nossa casa.
Era aí que minha mãe
(que tinha olhos de algas)
plantava os nenúfares do silêncio.
Vinham à tarde os pássaros
à eira
debicar as migalhas de alegria
que minha irmã transportava
nos seus passos (serenamente) trémulos.
E então
os três
donos de todos os mundos da terra
e de todas as palavras que fazem crescer os rios
entreolhavamo-nos.
Minha mãe essa
pacientemente semeava
novos nenúfares de silêncio
a dobar tão devagar os gestos
que as mãos esquecidas do seu húmus
adormeciam.
Meu pai morreu antes de termos plantado
os cravos.
Estava magro
não pôde carregar o seu cantil de estrelas.
E para quê pergunto se ia conversar com elas?
Também minha irmã
não soube aguardar o seu quinhão.
A terra estava dura explicaram
a chuva tardara muitos muitos anos
como esperar assim
boa colheita?
Penso que se encontraram no caminho
cansados ambos e sorrindo
meu pai e minha irmã
agricultores de pássaros e astros vos repito.
Imagino-os agora
sentados num almofadão de nuvens
de mãos dadas
tão mansa e serenamente se olhando
que se doem.
Uma broa de silêncio me ficou
por herança de meu pai.
Minha mãe continuou bordando seu enxoval
de longes
entre os nenúfares da casa.
Vieram hoje buscá-la
no primeiro dia deste novo ano.
O rio da nossa casa secou subitamente.
Um nenúfar ou outro amedrontado resiste.
Não fomos donos da terra repito.
Semeámos estrelas até onde nos bastou o sonho
e a coragem
ou até onde as mãos se não cansaram
de alheado pão que nos restou.
Vou amanhã visitar o meu canteiro de cravos.
Adubá-los duma qualquer palavra
dum qualquer sorriso.
Talvez meu pai minha irmã e minha mãe
sejam hoje donos da chuva.

Hugo Santos

15.10.06

Pelo riso dos lábios

Manuel Alvarez Bravo



Com as precauções a que habituaram suas mãos,
as raparigas tiram os brincos das orelhas
e estendem-se na cama. Depois, é a lua
que lhes enfeita o corpo todo.
E pelo riso dos lábios se adivinha
que há trepadeiras lambendo suas ancas.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

12.10.06

Encontro

Marc Trautmann

No lugar onde a sombra das árvores se cruza
com o vento, vou ao teu encontro, com a estação
das chuvas a pesar-me nas pálpebras.
Se te perguntar o caminho das ondas,
não me contes dos navios que naufragam
sem explicação, nem dos pássaros
que começam a morrer na secura dos lábios.
Diz-me, antes, em que estuário de júbilo
ancoramos o barco.
O luar há-de cercar-nos o corpo.
Nossos dedos, à deriva, desafiarão a lua.
Falarás o que quiseres dentro da minha boca,
até que a madrugada nos sossegue.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

10.10.06

As mãos

Caravaggio


Quando o crepúsculo, quase extinto,
se demora no olhar, há um barco,
fatigado do rumor das vagas,
que se faz lágrima, lambendo
o rosto, sulco a sulco.
É então, que as mãos se identificam
com o coração das aves, de tão inquietas.
Aceitação ou dádiva, afago ou dor, prece ou raiva?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.10.06

Em seara alheia




Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.


Sophia de Mello Breyner Andresen

8.10.06

Uma ilha adiada no peito

Manuel Fazenda Lourenço


Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio.
Tenho uma ilha adiada no peito.
É a época das marés vivas. Pressinto-o,
pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

6.10.06

As mãos, os barcos, o olhar

Edouard Boubat


No verão, os mastros têm o brilho
intenso do sal e da água.
E são como as tuas mãos :
levemente inquietas,
levemente acesas,
levemente inocentes.
Não sei o que procuro nos teus olhos.
Talvez uma pretérita adolescência.
Ou um mar.
Ou um barco feito às ondas.
O que digo pode parecer paradoxal.
Encostada ao passado,
o coração tornou-se-me tão frágil
e, simultaneamente tão cruel.
Mas os teus olhos,
os teus olhos perpetuam nos meus
a claridade das manhãs,
a chegada dos pássaros
e este estranho fascínio de te amar.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

4.10.06

Contracena




Debruçados sobre o vértice mais liso da manhã,
antecipamos a metamorfose do dia.
Temos em nossas mãos
a mesma forma côncava das conchas,
para nelas caber o mar possível,
ou podermos segurar toda a ternura
fermentada nas espigas.
Estranho... o reflexo verde
nos olhos dos homens,
quando as árvores nuas
são, apenas, o perfil da noite
Incógnitos, contracenamos a esperança
consentida no sorriso dos que sonham.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

2.10.06

Em seara alheia


Desarticulação

Brinquedo com enigmas por dentro,
desmancho-me e concentro
a minha angústia sobre cada peça ...
Dão-nos corda e começa
o movimento;
Mas depois é o tormento
de saber
se era tudo a valer
ou fingimento ...


Miguel Torga

1.10.06

Para que nunca mais me reconheçam



Permaneço no lugar em que os relâmpagos
se incendeiam rente à montanha
e deixo que a terra me seduza.
Depois, posso descer o rio, exausta e frágil,
com o corpo embrulhado nas raízes das giestas
e a boca marcada pelo fogo,
como um sinal de alarme,
para que nunca mais me reconheçam.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

28.9.06

Quero que me abraces

Rodin

Quero que me abraces,
antes que a tristeza envelheça no meu peito.
Com o tempo, habituei-me
à conivência das palavras
e a usar, com inocência, certos gestos.
A tua sombra é-me familiar.
Sou espectador do teu sorriso
tão perto da simplicidade.
Quero falar contigo, horas a fio.
Sem pretextos de fuga.
Sem palavras caladas.
Um silêncio definitivo ser-nos-ia fatal.
Mas, depois, partirei,
porque sei que há no meu sangue
uma embarcação possessa
do chamamento do mar, ou da solidão.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

27.9.06

Um olhar

Ansel Adams

Se um dia passares pela nascente de um rio
visita a minha sombra húmida,
indiferente à inquietação das árvores
carregadas da memória do vento.
Pára e inclina sobre ela um olhar tão cúmplice
como quem, com lentíssimas mãos,
pressente o apelo dos lábios
.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

25.9.06

Poema de amor

Rodin


Era cruel atravessar aquele tempo, onde faltava a tua voz.
Houve, porém, uma noite em que disseste: meu amor
e o coração alvoroçou-se-me no peito.
Foram as minhas primeiras núpcias, 

soube-o mais tarde,
quando o começo do outono deixou 

um lume aceso nos meus olhos
e uma imensa clareira fez ecoar no meu hálito, 

não só o teu riso,
mas, ainda, uma antiga inocência 

que trazias sobre os ombros.
Da noite, perdi o sentido das margens, 

porque parti, sem norte,
à procura da época dos duelos por amor.
Hoje, teço no teu peito, indizíveis naufrágios: 

não para morrer,
mas para ser salva de pretéritas e futuras solidões.

De Reino da lua, 2002

21.9.06

Outono

Cezanne



Não sabemos que fruto se pressente na boca,
confirmando um tempo de colheita.
Urgente se torna refazer o frágil
caminho das manhãs: um trajecto de água
nas pupilas dos pássaros, conquistando planícies,
fontes, lábios. Umas vezes vento, outras vezes barco,
mas sempre coniventes com a ilusão que se maneja
como um desvio para escapar à morte.
Setembro escreve-se a cor de mel,
quando a luz quase emerge da terra
e os dias, mais curtos, garantem que o sol
se reconcilie com a noite.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

16.9.06

Ortografia do olhar


Salvador Dali


Os barcos aproximam-se do quotidiano,
pelos atalhos da luz, no corpo da tarde.
Ao mesmo tempo, de cidade em cidade,
uma inquietante treva incendeia, noite adentro,
o ruído mitológico das maresias de outono.
Um navegante, sem bússola,
enforca-se no cais dos percursos para sul,
como se rastejasse a paisagem dos sonhos,
pelo lado mais escarpado da alma.
Ritual de sangue inadiável.
Rotas afogadas nas pálpebras.
Quilha de silêncio onde ficamos exilados e cúmplices,
reassumindo não sei que espanto,
enconchando o coração para nele caber
o estremecimento intacto de um rio.
A brisa, de feição, justificará o lentíssimo
tumulto dos remos junto à foz.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996