Aguaceiros, que poderão ser de granizo
Entretanto mudou a hora, acrescentou-se luz
e heresia à lenta revelação dos dias maiores,
recomeçou o Verão antes de terminar a
Primavera e eu despi a respiração enquanto
consentias que as sombras das glicínias exalassem
o ofício nocturno das minhas sombras como a
única evidência de que os meus olhos se iam
apagando com versos alheios.
Tão depressa como chegou, esse promontório
que era a contemplação imóvel e excessiva do
azul desapareceu. Regressou o inverno depois
de começar a Primavera e as previsões nada
escondem: aguaceiros, que poderão ser de
granizo e acompanhados de trovoada, cobrem
agora de espessura e transparência tudo o que
na escrita é composição mais terna ou mais
perfeita do amor.
Em desacerto com a chuva, que ora é íntima e
me desnuda ora é distância e me reveste de sede,
entregue ao frio que só o estado sólido da realidade
não poética consegue provocar, dilacerado por
relâmpagos que iluminam e apagam confidências
em milésimos de segundos como se essa fosse a
duração da eternidade, assim existe e se demora
em mim o único lugar possível onde ainda te
procuro, como um beijo.
Sandra Costa
In: Boletim meteorológico. Volta d'Mar, 2020, p. 23