12.10.06

Encontro

Marc Trautmann

No lugar onde a sombra das árvores se cruza
com o vento, vou ao teu encontro, com a estação
das chuvas a pesar-me nas pálpebras.
Se te perguntar o caminho das ondas,
não me contes dos navios que naufragam
sem explicação, nem dos pássaros
que começam a morrer na secura dos lábios.
Diz-me, antes, em que estuário de júbilo
ancoramos o barco.
O luar há-de cercar-nos o corpo.
Nossos dedos, à deriva, desafiarão a lua.
Falarás o que quiseres dentro da minha boca,
até que a madrugada nos sossegue.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

10.10.06

As mãos

Caravaggio


Quando o crepúsculo, quase extinto,
se demora no olhar, há um barco,
fatigado do rumor das vagas,
que se faz lágrima, lambendo
o rosto, sulco a sulco.
É então, que as mãos se identificam
com o coração das aves, de tão inquietas.
Aceitação ou dádiva, afago ou dor, prece ou raiva?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

9.10.06

Em seara alheia




Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei.


Sophia de Mello Breyner Andresen

8.10.06

Uma ilha adiada no peito

Manuel Fazenda Lourenço


Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio.
Tenho uma ilha adiada no peito.
É a época das marés vivas. Pressinto-o,
pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003