16.12.06

A cor da lua nova

Michael Banks


Com crisântemos entre as mãos,
manuseio ideias fixas
e pinto, de vermelho, todos os segredos
que guardo pouco à vontade.
Depois, ao comprido das horas,
escolho um lugar estratégico para esperar a alegria
e dou, ao coração, nomes contraditórios.
A passagem do tempo, traça em meus pés
um futuro peregrino.
Nenhum prodígio me está destinado.
Só a brisa, entrando pelo avesso dos sonhos,
infatigável e lenta, me deixa no olhar
a cor da lua nova.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

15.12.06

Flagrante delito nas teias do prazer

Picasso

Há um barco no hálito das mulheres.
As gaivotas seguem-no ao longo das estradas,
desenhando o mar nas curvas dos seus corpos.
Vestidas de branco,
festejam o parto das manhãs
e nada altera a transparência
com que aguardam os improvisos,
que não deixam ao cuidado dos deuses.
Flagrante delito nas teias do prazer.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

14.12.06

Hoje não me revejo no silêncio

Monica Stewart

Hoje não me revejo no silêncio.Reparto, vacilante,
as fórmulas de um raciocínio analógico,
que cultivo nos gestos solitários.
Ouço-me numa linguagem estética
e ensaio a alegria a levante
de todas as estações do ano.
Depois, assinalo, entre os dedos,
o recurso a uma dança verbal,
articulada num fascínio a prazo.
Há um estranho abrigo ao longo dos meus braços,
uma entrada secreta para pretéritas infâncias,
o limiar de um percurso tão arriscado como a vida.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

13.12.06

Os barcos

Kenneth Garrett
Nascer no mar alto,
na desordem das ondas.
Só por causa dos barcos,
as gaivotas se transfiguram,
quotidianamente.
Não dizer água,
sem refazer a nave,
sem rever a linguagem dos mastros,
cúmplice das velas e dos ventos.
Pressentir a alteridade das marés
pelo duelo ou trégua das mãos,
trémulas, clandestinas quase,
na demora da festa anunciada.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

12.12.06

Surpreendida por um caminho sem tempo

Ansel Adams

Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

11.12.06

Em seara alheia





ARTE DE NAVEGAR

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade

10.12.06

Com vontade de ser feliz

Alvarez Bravo


Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz.
Amarrei, até, no pulso o amor-perfeito
que foi secando no meu peito
e retomei a velha máxima: não deixar
que qualquer angústia atinja o coração.
Um castelo de areia, é tudo quanto quero
para acostar o meu barco de papel.

Aproxima os olhos da vertigem e estremece
com a luz espessa, que brilha nos teus ombros.
No céu do teu país, as estrelas podem ser barcos,
se quiseres sulcar os mares do coração em desordem.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003