24.7.23

Veio de água

Silena Lambertini 


                                                                 Para Victor Oliveira Mateus

Ele esquecia o desacerto do pensamento 
anterior às palavras todas que escreveu. 

Declinava o eco dos nomes 
das vozes das mortes dos sustos. 

Deixava-se perturbar pelo murmúrio 
quase calado do veio de água 
sangrando a surdina 
de um rio nascente: 
boca e fonte 
tão mútuas da vertigem 
que antecipa a sede 
justificada na raiz íntima do verbo. 

Era a anunciação de um poema: 
fogo e lágrima lâmina e mel 
espaço onde o voo começa. 

Graça Pires 
De O improviso de viver, 2023, p.25