Sabes lá o que custa guardar a memória.
Decompor o riso e esquecer. Empacotar
toda a alegria numa caixa frágil de cartão,
levá-la nas mãos trémulas até à cave mais
escura. Descer as escadas velhas, falhar
um degrau e cair. Ver a coragem a saltar
do corpo, na queda. Ouvir o som que faz
o riso, ao partir-se. Procurar os pedaços,
perder os olhos abertos no chão,
perder o chão, perder o andar.
Sabes lá o que custa.
Virgínia do Carmo
In: A menina que aprendeu a matar centopeias e outros poemas. Lisboa: Poética, 2023,
p. 17
