22.4.14

Em seara alheia



Não é ainda a luz de abril

Não.
Não é ainda a luz de abril
que alastra neste chão.
É apenas um sorriso, 
um breve rumor a roçar
o veludo das ervas.

Ainda não se ouve, ao longe,
a canção do milho sobre os campos,
a sua gloriosa subida às mesas,
nas casas.
Ainda não se ouve nada.

Por agora falo-te da sombra
que sobra deste inverno,
da sombra que se cola à terra nua
E se demora no sono enrolado
dos gatos.

Ficarei por aqui. Aceito ficar
com as mãos magoadas
e o delírio da febre nos olhos
enxotando palavras de vento no escuro.

O sorriso?
Ah!... O sorriso entornou-o aqui a seda
de uma rosa.
Abriu-se, pura, à proa de uma súbita
primavera.

Lídia Borges
In: Sementes Daqui. Macedo de Cavaleiros: Poética Edições, 2013, p. 70