17.5.15

Em seara alheia



Não há lucidez
nem no percurso das vítimas, nem no fel dos
carrascos

É essa a realidade carregada: a compreensão
suicida-se

Quando as frases correm telegráficas
ou tolhidas pelo receio de tropeçarem da boca
Não é fácil amar

NÃO É FÁCIL AMAR

Não é fácil amar
depois dos braços torcidos, das olheiras fundas
ou do marejar de lágrimas
de quem vê viscosos vultos
a derramarem calúnias. não é fácil
que o temor se despenhe na lama
e disperse todas as bondades, mesmo aquelas
que ainda arredam as cortinas das casas
com toda a delicadeza

Na grande ironia do sorriso de esguelha
antes de baterem contra a janela
os corvos saem.

Marília Miranda Lopes
In: Victorianas. Labirinto de Letras, 2015, p. 62-63