28.2.22

Sem diálogo

Monia Merlo 


A ira de qualquer deus faz-me assumir a minha nudez 
até ao extremo da identidade, num ritual ontológico,
desvelado, inequívoco. 
De relance, com um olhar apressado, reparo 
na minha face reflectida em águas vagarosas. 
Um denso nevoeiro veio ocultar a simetria 
das margens mais próximas dos meus pés. 
Avisto-me então em cidades onde as ruas são ruidosas. 
Como se fossem caóticos todos os pontos de fuga. 
Como se aos gestos de uns se sobrepusessem 
os gestos dos outros. Sem diálogo. 
Num enredo em tempo impreciso. 
Onde as sombras se tornam turbulentas 
e precedem, e perseguem, e se apropriam 
de outros corpos, extenuados pela manipulação 
suportada em noites ameaçadas de vazio.

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 22