Filomena Fonseca
para lhe cuidar do cão.
O lugar que escolhera para viver o tempo
que lhe sobrava era só para pessoas.
Uma espécie de abandono aferrou-se-lhe na pele.
Porém, os pássaros começaram a demorar-se
no parapeito da janela do seu quarto.
Estremecidamente, começou a deixar-lhes sementes.
E eles vinham. E chilreavam.
E sobrevoavam a réstia de alegria que ganhara.
Mas também às aves era interdito que ali pousassem.
Sujavam tudo, lhe disseram.
“Quem me dera voltar para a minha casa”,
chorou baixinho.
Graça Pires
De A solidão é como o vento, 2020, p. 55