10.1.22

Procurou alguém que gostasse de animais

Filomena Fonseca


Procurou alguém que gostasse de animais 
para lhe cuidar do cão. 
O lugar que escolhera para viver o tempo 
que lhe sobrava era só para pessoas. 
Uma espécie de abandono aferrou-se-lhe na pele. 
Porém, os pássaros começaram a demorar-se 
no parapeito da janela do seu quarto. 
Estremecidamente, começou a deixar-lhes sementes. 
E eles vinham. E chilreavam. 
E sobrevoavam a réstia de alegria que ganhara. 
Mas também às aves era interdito que ali pousassem. 
Sujavam tudo, lhe disseram. 
“Quem me dera voltar para a minha casa”, 
chorou baixinho. 

Graça Pires 
De A solidão é como o vento, 2020, p. 55