18.4.16

Em seara alheia


não foi este o tempo que pedi  

bastava-me uma réstia de sol 
na ombreira de uma porta habitada 
um pouco de mar calmo e 
compassivo 
e um sopro respirável à luz 
de um instante de sossego  

não era mais deste sal a escorrer 
da nascente onde a água se quer doce 
e a corroer as pedras angulares 
com que havia de reconstruir as margens 
do sonho antes da ruína 
do sonho antes da partida  

se era para ficar 
que houvesse um outro caminho 
alto amplo e luminoso  
por onde pudesse planar na contemplação 
da vida a acontecer  

mas se é para ser assim raso o caminho tão raso 
que se engrandeça o coração

Rosário Ferreira Alves
In: Lunaris. Macedo de Cavaleiros: Poética, 2016, p. 27