23.5.22

Em que naufrágio me salvei

António Costa Pinheiro

Um cristal onde me espreito 
devolve-me a minha imagem: 
sudário desatado ao vento 
como um veleiro a todo o nó, 
resgatando viagens  
e despojos da ilha há tanto tempo 
adiada no meu peito. 
Em que naufrágio me salvei com gestos imprecisos? 
Na minha boca, um mar interior 
inunda as dunas mais distantes 
preferidas pelo vento, 
com areias em clandestinas danças. 
Costuro, com búzios brancos, 
redes de pescadores 
para poder mergulhar o grito das mãos 
fugidas das marés sem fundo, 
agredidas pela luz nocturna. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 42