30.12.06

Rente à inocência

Honor C. Appleton

As primeiras mimosas marcaram a fronte
da menina saída do livro de aventuras,
que foi largado a um canto da inocência :
graciosa personagem a crescer para a memória
como um feitiço ; íman sagrado que resgata
a fantasia e desenha um berço nas mãos
dos que são da mesma estirpe dos poetas.
A morada dos gnomos situa-se na estrofe
da cantiga que fala dos moinhos de vento,
ou ao rés da magia do mais minucioso gesto
com que se adornam os cabelos e as mágoas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

29.12.06

É tempo de acender o fogo

A. Galasso

No encalço de pequenas alegrias,
faço do corpo um barco.
Amarro-o nas margens do silêncio
e divago, com urgência,
por dentro de um impulso incontrolado.

Tomo em meus olhos a transparência dos teus.
Quero sentir a tua noite a rondar-me o sangue,
quando dizemos: é tempo de acender o fogo.
Quero conhecer a excessiva inclinação da luz,
quando, desarmado, o coração, aguarda
que aconteça aquele fascínio de garotos,
à espera da festa prometida.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

28.12.06

A tarde cai lentamente

Manuel Fazenda Lourenço

Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

27.12.06

Um desafio exibido nas ancas

Jeanloup Sieff

Dentro de si mesma, a noite
não tem contornos:
Serve-se das sombras
para repatriar exilados afectos.
Abro as janelas, de par em par
e caminho sobre as horas,
com jogos ilícitos presos à cintura.
Um desafio exibido nas ancas.
O vértice das pernas, a sobrançar um rio,
subitamente cheio.

Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

26.12.06

Procuro a cor da noite nos teus olhos

Mitch Diamond


Por caminhos do sul, a noite
adquire a tonalidade do mar.
Pressinto o hálito das manhãs claras
e tenho, no sangue, um caos incendiado,
como se fora terra exposta ao sol do meio-dia.
São horas de reinventar os aromas
que me anunciam um trajecto de espanto.

Procuro a cor da noite nos teu olhos,
como quem lambe a lua, devagar.
Depois, digo barco, digo mastro,
digo quilha e somos ilha propícia a navegar.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

25.12.06

Em seara alheia



EM QUE SE FALA DO MENINO JESUS


Fiz a maldade e olhei Jesus.
Ele baixou os olhos e corou,
e toda a gente julgou
que quem fez a maldade foi Jesus.


E todos Lhe perdoaram ...


- Obrigado, Menino! Mas agora
tira os olhos do bibe e vem brincar,
que eu prometo, pra não Te ver corar,
já não fazer das minhas.
Anda jogar ao pé das flores, no chão,
comigo, às cinco pedrinhas ...;
anda jogar, pra esqueceres
o preço do meu perdão ...

Sebastião da Gama