11.11.06

Novembro

Edward Raymes


Quando novembro se esconde
no fumo das lareiras,
ou no cheiro das castanhas
acabadas de cozer,
a morte gosta de rondar as casas.
As mulheres, sobressaltadas,
procuram as camisolas de lã,
para que os filhos não tenham medo do escuro.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

9.11.06

Recorto do jornal

Menez

Recorto do jornal uma primavera antiquíssima
e, sobre o vazio, esculpo a notícia do meu nome.
Tenho a idade da menina

que adormece ao som da voz materna.
No meu peito há uma árvore,
onde prendo um baloiço para espiar os ninhos
e entrelaçar, nos cabelos, penas de todas as cores.
Estou só. Tenho valsas rasgadas nos pés
e asas, como línguas, em torno da boca.
Hoje cubro de branco outras sombras.
Entre os meus dedos e a lua

pairam pluviosos olhos.
Começa em mim a emboscada

dos lugares abandonados,
espreitando os amantes traídos.
A minha tristeza pode ser um barco,
ou, apenas, o corpo de um homem

vestido de relâmpagos azuis.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

8.11.06

Enlouquecemos

M.C.Escher
Enlouquecemos.
Acasalamos na pele o azar e a sorte.
A sociedade de consumo manipula-nos.
Tornamo-nos culpados dos equívocos,
da ruína, do nosso próprio envelhecer.
Que leque de ilusões se abre
ao pressentimento sôfrego de qualquer derrota?
Com que bússola se altera o gólgota dos sonhos?
Não existimos para consentir
frases inúteis em torno dos dias.
Com um gume na língua,
excomunguemos os deuses infalíveis
e falsifiquemos o tempo de morrer
dentro das fronteiras da vida!


Graça Pires
De Labirintos, 1997

7.11.06

Um abraço

Rodin

Pelos teus braços sei o ritual do fogo
no corpo apetecendo,
a harmonia das mãos: aprisionado gozo
que percorre e desnuda as veredas
deste quente sentir.
Não repares se me comovo sobre o teu ombro.
Trago comigo o espanto
de ser possível olhar-te sem remorsos.
Diz-me se é um barco
o que vejo nos teus olhos
ou se, apenas, imagino que regressas.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

6.11.06

Em seara alheia



O unicórnio

Ele veio da última
brisa da tarde.
Sua crina de sonho
sua leveza de infinito
pairavam
invisíveis
em plena praça
de domingo.
Nos canteiros
os gerânios sorriram
pombos voaram assustados
árvores festejavam alumbradas.
Tudo era felicidade
ante a visitação
daquela surpresa.
Ele veio do além
dos segundos
de um tempo
enraizado para lá
do próprio tempo.
Ele irrompeu do primeiro
anel de Saturno.
Suas patas de vento
seu dorso de núvem
levitavam
impossíveis
no pleno coração
do domingo.
No coreto
a banda
como nunca
tocou melodiosa sinfonia
balões abriram
suas cores pelo ar
namorados bailavam
plenos de esperança.
Um unicórnio
resplandeceu
súbito
o pleno sentimento
da infância.

Alexandre Bonafim

5.11.06

Hoje acordei conflituosa


Hoje acordei conflituosa.
Provocadora, talvez.
Um lenço de seda (ou uma ave?)
cerca-me o pescoço; reajusta
o decote da blusa ao esboço dos seios;
roça, no contorno dos ombros,
a tatuagem, quase invisível, dos sentidos.
Lá fora, a chuva cai. Tão devagar que faz sede.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005