21.4.07

Insisto num rosto efémero

Modigliani


Do outro lado do disfarce,
insisto num rosto efémero.
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
ou de mãos indomáveis.
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
um teatro de papel.
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
que me circulam no sangue, em sobressalto.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

20.4.07

A quietude de um abraço

Antonio Canova


Há falsos profetas a levante do destino.
É preciso fechar por dentro
as águas furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos,
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço :
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

19.4.07

O primeiro sinal da tua ausência

Edward Hopper

Rasgo, nos pulsos, a veia onde guardei
o primeiro sinal da tua ausência.
Esvaio-me em sangue, ou em raiva,
como se a morte fosse o único modo
de resgatar os sentimentos
pelo percurso do coração.
É estranho como consigo amar-te,
mesmo quando em mim se quebram
todos os mares intranquilos
e o corpo se despedaça contra as fragas
de um pervertido monólogo.
É estranho como decidi partir, presa ao teu rosto,
contra a vertigem de querer encontrar,
na tua mão, a linha da minha vida. É estranho.
Há agora um lugar onde é perigoso o amor.
Sou a porta aberta a todos os pássaros
a caminho do sul e enrolo o pensamento
na revolta de não poder seguir-te,
de não poder querer-te,
de não poder esconjurar no teu abraço
todas as minhas culpas.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

18.4.07

Por dentro dos desejos

Chip Forelli

O entardecer tem ilhas no centro da noite.
O barulho da água cobre de música
a subtileza dos sentimentos.
De ponta a ponta da pele,
um arrepio de unhas ou de febre,
a mover-se por dentro dos desejos.
Não tarda um casulo de malícia na dureza do corpo
e o pulso à deriva pelo esquivo feno dos abraços.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

17.4.07

A cor controversa dos teus olhos

Manuel Fazenda Lourenço
Para o Afonso, meu neto

Não sei se a rotina do criador ignorou,
por instantes, os limites da eternidade
e ordenou aos pássaros que voassem
mais alto que as estrelas.
As searas, porém, convocaram a luz
da madrugada, para envolver, nos teus cabelos,
o brilho das espigas.
Agora, por onde passas, o céu é tão azul
como a cor controversa dos teus olhos.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.4.07

Em seara alheia


Coração Polar

1.

Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

Manuel AlegreIn Senhora das Tempestades. Lisboa: Dom Quixote, 1998

15.4.07

Um começo cor de mel

Peter Wileman

Um começo cor de mel
como um cenário aberto
à violência das mãos.
Depois, a insinuante dialéctica
entre o corpo e a véspera
de um azul impenetrável.


Graça Pires
De Poemas, 1990