Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
13.1.20
Em seara alheia
99.
Às vezes a vida é uma mulher
a chegar a casa
depois de um dia de trabalho,
lábios sem cor, despenteada,
sacos de supermercado,
a roupa em desalinho,
os sapatos na mão,
não, os sapatos nos pés,
não se atreve a tanto,
a sonhar com descalçar os sapatos.
Uma mulher que
sem acender as luzes da casa,
olhos de gato no escuro,
pode-se viver nos olhos de um gato,
abre armários, gavetas, arruma o mundo,
o mundo pode ser um apartamento
com duas assoalhadas e as plantas por regar,
amanhã, amanhã sem falta rega as plantas.
Uma mulher que sem jantar,
lavou os dentes, não lavou a cara,
se enfia numa cama malfeita
puxou as orelhas à cama,
se a mãe visse isto puxava-lhe
as orelhas como se fosse uma cama.
Uma mulher sem ninguém,
a vida é só a vida,
a quem dizer boa noite meu amor.
Raquel Serejo Martins
In: Plantas de interior. Braga: Poética, 2019, p. 149
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