Seleccionar o ângulo de um rosto, sem lhe macular a luz, como se, a meia voz, pudéssemos reter os múltiplos reflexos do júbilo e das mágoas.
9.1.17
Em seara alheia
Acordo
e caminho na erva ainda tenra, húmida,
deixando pequenas marcas dos pés
cansados de caminhar no leito da noite.
Sinto a alma dos muros,
o canto dos ramos das árvores
e fico vazia de medos
longe das coisas redundantes
sem vida e sem cor.
Encontro rasgada a minha saia,
presa que ficou no bico de uma rocha;
levo-a à boca, salgada como as noites
tão etéreas e marinhas de Sophia.
Vem-me à memória que ainda
se demore a manhã no horizonte.
Dela chega-me este ar apetecido
a pousar na minha pele,
suave como um bando de aves.
Lília Tavares
In: evocação da águas. Desenhos de Carmo Pólvora. Porto: Seda Publicações, 2015, p. 55
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