18.10.21

Memórias de Isadora XIV

Sandro Botticelli

Vejo-me a decifrar os mitos. 

Os vasos gregos, lembro, 
mostravam bailarinas 
que imaginei dançando a meu lado. 
Depois tornei-as vivas, bailantes. 
Com elas aprendi a silenciar o corpo 
para que o grito fosse a espontânea 
rotação sobre o abismo. 

Também a primavera de botticelli 
me despertou angelicais movimentos. 
Cheguei a ficar horas a fio no assombro 
e no êxtase daquela imagem que fiz minha. 
O sagrado e o profano bailando no meu peito. 

Porque a dança era-me a divina expressão 
do espírito humano em direcção à luz. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 22