1.2.21

Memórias de Isadora IV



Nasci sob a estrela de Afrodite, 
dizia eu, na idade de todas as crenças. 

Hesitei tantas vezes no rio do olhar, 
tão afluente, quando se alongava 
para a margem da quietude 
e percorria todos os recantos de mim. 

Que sinal de lume ardia em meus cabelos 
que, por capricho, teciam sobre os ombros 
o delido incêndio do crepúsculo? 

Em meus cílios, eu sei, cresceram violetas 
de brandura e de revolta. 
Na cor de meus olhos se colheram. 
De seu perfume, imensamente ardente, 
se alagaram. 

Graça Pires 
De Jogo sensual no chão do peito, 2020, p. 19