7.9.20

O estranho retorno de um espanto


O estranho retorno de um espanto 
aconteceu-lhe muitas vezes. 
Mas nunca como naquele dia 
em que a luz foi mais intensa 
nos seus olhos de criança. 
Avistou-o ao longe, o seu gato, 
companheiro de todas as tropelias, 
que ficara na quinta dos avós 
quando mudou para a cidade. 
Ninguém sabe como enfrentou 
tanto atalho, tanto quebranto, 
tantos perigos para chegar ali, 
ao sítio onde morava o menino. 
E ele, o menino, afogou a sua mágoa 
nas felinas tonalidades do olhar de um gato 
a quem chamava “bonitinho” e era dele. 

Graça Pires 
A solidão é como o vento, 2020, p.58