13.11.17

Em seara alheia



Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Os corredores apagam-se
e nos retratos
Agosto está pálido.
O quarto está cheio de vento,
o perfume magoa-se contra a memória.
Há inverno nos móveis, 
mas as mãos teimam em visitar
as árvores nas gavetas.

Vem depressa enquanto a casa
ainda me conhece.
Não tarda os ciprestes abrem as janelas
e os muros reclamarão o meu nome

Se não chegares a tempo,
não te preocupes,
deixei a morada aos pássaros.

Alberto Pereira
In: Viagem à demência dos pássaros. Lisboa: Glaciar, 2017, p. 53