13.8.18

No cerco da noite

Katia Chausheva

No cerco da noite deixo à solta
a minha expressão narrativa.
Sei que não cabem nestas folhas,
neste texto, nestas margens
as sensações que ao coração pertencem.
Mas é inútil. É inútil deambular pela escrita
evadida das noites insones, com vozes
sem sentido e enredos improváveis.
Convoco os anjos com suplicantes hinos
até à visitação do silêncio,
até que o sopro do sono apague
os sons despedaçados de quem escolhe
o caminho mais longo para regressar a casa
e tropeça nos próprios passos.
Perto da manhã, aceito a sedução
do orvalho em torno dos sonhos.

Graça Pires

In: CONTINUUM: antologia poética. Pinturas de Luís Liberato, fotografias de Soledade Centeno. Braga: Poética, 2018, p. 116