14.9.07

A família

Paul Strand

Refazemos o dia, pacientemente,
e mastigamos as raízes de um compromisso
quotidiano e social.
Temos em comum o coração
e sabemos que o mesmo fio de sangue
nos tece o equilíbrio.
Por isso modelamos o itinerário de um conforto
partilhado, como se, desse modo, nos fosse
prorrogada a morte e ficássemos cúmplices,
uns dos outros, na teia da vida.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

11.9.07

Em lábios imperfeitos

Manuel Fazenda Lourenço
Com efeitos coloridos
no balancear das pernas
cobri meus lábios de cinza.
Talvez seja necessário
permanecer em silêncio,
ou reinventar palavras
que denunciem uma suspeita
indecifrável, distante, intransponível.
Falo de todos os crepúsculos
carregados de presságios
e do ciúme da palavra
em lábios imperfeitos.
Falo da solidão do olhar,
quando o corpo apenas sente
a coragem que a alma lhe consente.


Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007

9.9.07

Estranhas cumplicidades

Ansel Adams

Nenhum nome rasga o hálito da escrita.
Nenhum poema nasce de um cansaço submisso.
Corre em minha língua um rio transtornado
e sobe-me, à altura do peito, a raíz de caligrafias
ocultas. Digam-me: em que areal escondem,
as gaivotas, o desterro de seus voos ?
Há sempre uma história ligada à deriva dos navios,
que anuncia a aprendizagem de estranhas cumplicidades.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003