2.11.12

Onde se envelhece com estranheza



Pedro Pires


Na descontinuidade de lugares de lodo e pão
esbarramos com os móveis espalhados pela casa
onde se envelhece com estranheza.
Possuímos às vezes um modo exagerado
de coleccionar fantasmas
por sabermos que a morte
nunca se deixa ver por inteiro.
E sentamo-nos no chão
construindo no interior da boca
o sabor do chocolate quente
ou rodando sob as pálpebras
as aparas da luz coada pelo vão da escada
onde poisámos o açafate de vime
carregado de castanhas.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011


Este poema faz parte do livro "Poemas escolhidos: 1990-2011, do qual o amigo Luís Gaspar disse alguns deles. 
Para quem desejar ouvir pode ir ao site do Estúdio Raposo:

http://www.estudioraposa.com/index.php/category/poetas/graca-pires/

29.10.12

Lugares que são faca e cinza


Rui Ochôa

Há lugares que têm a feição
das coisas instáveis e perecíveis.
Lugares sobrepovoados
onde os gatos vagueiam em silêncio
como se ouvissem os passos dos mortos.
Lugares com ruas sem saída e casas precárias.
Lugares que são faca e cinza,
lume e vento, lixo e medo.
Lugares onde empalidecem os dias
e as pessoas e os deuses, cada vez mais falíveis.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012