26.4.07

A luz mais que perfeita

Richard Nowicki

De pés tumultuados, caminhas pelo anoitecer,
com os lábios viciados de algas azuis.
Uma velhice súbita lateja sobre os teus ombros
e pega-se-te ao rosto uma angústia sem recuo:
um caminho de mágoa nos teus olhos.
Na orla do mar, os deuses organizam tua morte,
enquanto a luz, mais que perfeita, de uma ilha,
soluça no teu peito.


Graça Pires
De Uma certa forma de errância, 2003

25.4.07

Incendiando o trigo

Steve Thoms
Tinha chegado o tempo
em que era possível ser livre.
Souberem-no as palavras. E os pássaros.
O voo das gaivotas motivou
o rumo dos veleiros.
Reconciliaram-se as manhãs.
Tu e eu : de mãos adolescentes
incendiando o trigo.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

24.4.07

As minhas mãos se dão



Aqui, onde o coração reclama uma pátria melhor,
volto ao lugar das palavras que nunca calei,
por saber que o silêncio se articula na errância
da voz e que nele cabe a solidária multidão
que ama, por inteiro, a liberdade.
A boca sabe-me, inesperadamente, a sangue,
em nome daqueles que desistiram do sonho,
sem remorsos, à margem da esperança.
Tardei a encontrar o exótico perfume,
com que alucinei os dias e as noites,
onde, de um trago só, bebi a própria sede,
guardada no barro da memória.
Agora, sou dos que medem o desassossego
dos lábios, pelo silente sobrevoar dos pássaros,
rente à coragem ou às lágrimas.
As minhas mãos se dão, com a inquieta força
de quem vive ancorado ao fascínio de ter no olhar
um horizonte tão livre, tão límpido,
como a luz transfigurada das manhãs.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

23.4.07

Em seara alheia



LIBERDADE

– Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre nosso que sabia
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.
– Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.
Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
– Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga
Albufeira, 28 de Agosto de 1975
In Diário XII

22.4.07

O corpo do texto

Migdalia Arellano

Em movimento, o manequim desfila
a saga fonética de um tema contraditório.
Como dizer as jóias e as sedas
de um diálogo de amor interrompido?
Com que lantejoulas se enfeitam
as intrigas suspensas no mutismo?
Rodopiante, a prosa é outorgada
no delírio erótico das vogais.
Manufacturam-se réplicas e hábitos.
Especulam-se hipérboles.
Manipulam-se ciladas.
Na palma da mão, monta-se a plateia.
A bailarina confunde a dança
com o corpo do texto.
Transfigura-se na mitológica divindade,
sobre a qual toda a gente se questiona.
O enredo é a insónia onde dorme
a contrição da memória.
Uns braços, tatuados de ruínas,
anunciam a múltipla morte da inocência.
Anoitece na cidade costeira do cenário.
O poeta tem o mesmo olhar indeciso dos mendigos.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997