17.3.07

Antes que chegasses

John Gutmann

Antes que chegasses, encostei ao coração
a memória imaginada do teu rosto.
E comecei a amar-te quando disseste,
em segredo, quanta neve caiu sobre o teu peito.

Agora tudo será indelével nas palavras que me dizes.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

16.3.07

De hoje em diante



De hoje em diante,
porei na mesa um ramo de violetas,
como presságio de amor
e usarei, à volta do pescoço,
um coalhado lume,
até sentir em carne viva
o nervo das mais afectuosas palavras.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

15.3.07

Com estigmas da infância

Gary Faye


Com estigmas da infância no interior das mãos,
teço, na voz, uma fuga permanente.
Posso improvisar cantigas de embalar
os medos e fabricar um idioma ilícito,
para denunciar a violenta cor da solidão.
Não. Não ficarei presa a litorais sem qualquer aceno.
Há pátrias onde as mãos se tornam perfil de pássaros,
definindo o fraterno voo do silêncio.
É esse o meu rumo, rente a um lugar
conivente com as manhãs que redimem
as noites sem afecto.


Graça Pires
De Reino da lua, 2002

14.3.07

O enigma dos lírios anilados

Vincent van Gogh
Às vezes é preciso morrer,
entrar no vácuo do tempo
em declive paralelo com a avidez da vida.
É preciso desarticular o medo,
transgredir os sonhos,
desdobrar a alegria sobre a mesa.
E, seja qual for o enigma dos lírios anilados,
haverá sempre a génese de um jardim,
no lençol onde as raparigas se escondem
para chorar o primeiro amor agonizado,
desenhando, nos cabelos, as madeixas
de uma respiração em sangue.
A meia luz, que permite um duelo
de anjos sonolentos esperará, lentamente,
um brilho incorruptível.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

13.3.07

Mudo as regras do jogo

Clarence J. Laughlin

Mudo as regras do jogo sem prevenir ninguém.
Mordo o freio de rotinas antigas :
armadilha de hábitos
a retardar o acesso a um universo mágico,
onde a alegria comove
como um instante da meninice.
Sem medos. Sem presságios.
O negativo do meu rosto outonal,
com a cor das uvas maduras
no contexto da memória.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

12.3.07

Em seara alheia


Voamos a lua,
menstruadas

Os homens gritam:
- são as bruxas

As mulheres pensam:
- são os anjos

As crianças dizem:
- são as fadas

Maria Teresa Horta
In Os Anjos. Litexa Portugal, 1983

11.3.07

Sem destino visível



As ruas estão apinhadas de gente,
em cujos passos se adiam amores extraviados.
O cair da noite não elimina
o som inquietante da cidade:
com vozes de trevas e de luz,
com pessoas em sensual desalinho,
sem destino visível.
Estranhamente, ninguém repara
no seu andar indefeso e na inegável melancolia
que ostentam no olhar.
No horizonte, um íntimo clamor de pássaros de luz,
traz-me à ideia lembranças imperfeitas.
Um cansaço antigo e desapiedado
recupera, nos meus olhos, a mesma sombra
onde escondi todos os medos.

Graça Pires
De Reino da lua,2002