11.4.22

Em secreto alarme

Cristiana Ceppas

Nunca se revela, eu sei, o recuo das mãos fatigadas 
da fadiga do olhar, em secreto alarme. 
Encostado a muitas solidões está o brado 
de quem cala a própria angústia no fermento azedo 
que não leveda o pão, tão ázimo, 
tão árido, dentro de bocas famintas. 
Nem sempre o desenho dos lugares abandonados 
fica ligado à superfície vazia do passado. 
É no olhar que acontecem todos os abandonos. 
Na imagem interrompida de um rosto. 
No significado inesperado de uma sombra. 
Nas flores apodrecidas na jarra. Na casa vazia. 
No ruído insuportável do silêncio. 
Invento árvores extintas para que venham aves 
de húmidas pupilas pousar em folhas orvalhadas 
e refresquem os lábios que se abeiram da nascente. 

Graça Pires 
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 49