Cristiana Ceppas
da fadiga do olhar, em secreto alarme.
Encostado a muitas solidões está o brado
de quem cala a própria angústia no fermento azedo
que não leveda o pão, tão ázimo,
tão árido, dentro de bocas famintas.
Nem sempre o desenho dos lugares abandonados
fica ligado à superfície vazia do passado.
É no olhar que acontecem todos os abandonos.
Na imagem interrompida de um rosto.
No significado inesperado de uma sombra.
Nas flores apodrecidas na jarra. Na casa vazia.
No ruído insuportável do silêncio.
Invento árvores extintas para que venham aves
de húmidas pupilas pousar em folhas orvalhadas
e refresquem os lábios que se abeiram da nascente.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 49
