18.4.22

Para nasceres de novo

Anka Zhuravleva


Outrora inventavas e destruías as palavras 
com que respiravas boca a boca a brisa das madrugadas. 
Mas bastava-te um detalhe indeciso da luz 
para te perderes em silêncios que são desvios para a tristeza. 
Não te aflijas se as tuas mãos procuram ainda a inocência. 
Para nasceres de novo. 
Para que o teu rosto não se embacie no interior dos espelhos. 
Para não teres a idade do teu nome. 
Afasta-te de olhos vendados. 
Confunde os caminhos e o destino. 
Entreabre as pálpebras ao lugar onde nasce o riso 
e se afoitam aves brancas a caminho do sul. 

Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 69