4.3.19

Em seara alheia


Caminham as mulheres com as suas extensas lezírias
e luas em trânsito.
Vêm de cidades submersas anteriores às cidades
dos musgos e fetos de flores primitivas.
Surgem dos lugares iniciais
e trazem o lume da distância para perto.

Vestem brancos linhos azuis que o vento volteia
desde o livro de moisés.
No aceso silêncio dos olhos derramam intensos perfumes
e com o longo lavrado dos cabelos encobrem
o lustro da nuca e inclinam a varanda dos ombros
para uma paisagem de penumbras iluminadas.

Quando sobre o restolho distendem as pernas
definem num sopro o relevo das planícies.
Erguem casas nas margens dos lagos, erguem todas as casas
nas margens do pensamento.
E um palmo depois da soleira da porta a noite reincide
o mundo cai a pique depois da última parede.

Rui Miguel Fragas
In: Sobre o prumo das falésias. Fafe: Labirinto, 2018, p. 41