7.4.07

Náufrago de um poema adiado



Náufrago de um poema adiado,
dei à costa na curva de uma concha
onde me exilei.
A sombra de Teseu foi a cama
sobre a qual perdi a inocência das palavras,
com a boca possessa de barcos transparentes.
Há itinerários marítimos nos meus dedos,
insinuando viagens da memória,
à altura de todos os fascinios.
Labirinto abissal e sinuoso do pensamento.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

6.4.07

Há um pressentimento feliz



Não há bom senso entre as paredes
de uma emoção dilatada até à própria sedução.
Ao comprido da vida, encena-se um bailado lento
e decalca-se, sobre a fantasia,
um aceno que redime culpas
e traz, pela tardinha,
um vento favorável à adolescência do corpo.
Há um pressentimento feliz
na concha das mãos perturbadas de afecto.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

5.4.07

Vamos falar de poesia



Arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema
lê-se silêncio, lugar que não se diz e que significa,
silêncio do teu olhar de doce menina, silêncio
ao domingo entre as conversas, silêncio
depois de um beijo ou de uma flor desmedida,
silêncio de ti, pai, que morreste em tudo para só
existires nesse poema calado, quem o pode negar?,
que escreves sempre e sempre, em segredo,
dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é
esta voz, a letra p não é a primeira letra da palavra
poema, o poema é quando eu podia dormir até
tarde nas férias do verão e o sol entrava pela janela,
o poema é onde eu fui feliz e onde eu morri tanto,
o poema é quando eu não conhecia a palavra poema,
quando eu não conhecia a letra p e comia torradas
feitas no lume da cozinha do quintal, o poema é aqui,
quando levanto o olhar do papel e deixo as minhas mãos
tocarem-te, quando sei, sem rimas e sem metáforas,
que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo
sempre e tudo. o poema sabe, o poema conhece-se
e, a si próprio, nunca se chama poema, a si próprio,
nunca se escreve com p, o poema dentro de si é
perfume e é fumo, é um menino que corre num
pomar para abraçar o seu pai, é a exaustão e a
liberdade sentida, é tudo o que quero aprender
se o que quero aprender é tudo, é o teu olhar
e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque
isso são bibliotecas a arder de versos contados e não é
o poema, não é a raiz de uma palavra que julgamos
conhecer porque só podemos conhecer o que possuímos
e não possuímos nada, não é um torrão de terra
a cantar hinos e a estender muralhas entre os versos
e o mundo, o poema não é a palavra poema porque
a palavra poema é uma palavra, o poema é a carne
salgada por dentro, é um olhar perdido na noite
sobre os telhados na hora em que todos dormem,
é a última lembrança de um afogado,
é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema
não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve
com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos,
pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p
não é a primeira letra da palavra poema, a palavra
poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido,
nem sequer por mim próprio, ainda que o meu
sentido esteja em todos os lugares onde sou,
o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe
porque me olhas, o poema é o teu rosto, eu,
eu não sei escrever a palavra poema, eu, eu só sei
escrever o seu sentido.

José Luís Peixoto
In A criança em ruínas. V.N.Famalicão: Quasi,2002

4.4.07

Parto esta noite

Pascal Renoux


Parto esta noite com uma chama
entornada na boca.
Atravesso as ruas em direcção ao rio.
Passeio sobre os escombros
de uma ficção com âncoras,
e bordo o teu nome, letra por letra,
no pano de um veleiro pronto a largar à bolina
na liquidez enchente do meu olhar.
Mas não posso descrever-te.
Um perpétuo segmento constrói a teia
num lugar oposto à intimidade.


Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997

3.4.07

À mercê da lua

Amedeo Modigliani


A noite enrosca-se-me na cintura,
a mover-me um cerco,
a colocar-me à mercê da lua.
Um trilho de água-doce
humedece a orla de uma nudez
convergente com o desejo.

Perante a indiferença de toda a gente,
uma mulher desceu a montanha,
prenhe de solidão. Fascinada pela noite,
deixou que lhe mutilassem as mãos,
para parir sem algemas.
E doeu-lhe no peito o grito de nascer
de todos os filhos, o soluço sufocado
de todas as mães. Depois, pairou no ar,
um estranho aroma de sardinheiras brancas.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002

2.4.07

Em seara alheia


Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos Ary dos SantosIn: Vinte Anos de Poesia, 1963-1983.Lisboa: Distri, 1983

1.4.07

Primavera

Shirley Novak

Entre abril e a liturgia das papoilas,
o perpétuo equívoco das cerejas brancas:
diurnos frutos que o sol protege
dos sobressaltos de maio.
Apenas os pássaros migrantes
conhecem os locais onde se enlouquece
por adiar o destino do coração,
ou o caminho por onde se foge
de impossíveis voos, sem deixar,
nas asas, vestígios de cansaço.


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996