4.6.18

Mulher com xaile vermelho

Amedeo Modigliani



Uma brisa fria vem roçar-me a cara
nesta primavera desabrigada,
onde os pássaros rodopiam
uma valsa estremecida,
como se temessem o vento. 

Falo pouco nestes dias,
em que me cobre
uma luz lívida e muda. 

Cubro os pulsos com os folhos da blusa
para jurar silêncio, quando a mancha
do luar atingir o peitoril da janela. 

Na borda da cadeira em que me sento
poiso, ao de leve, as minhas mãos
frias, quase de pedra. 

Tenho a cingir-me o peito
um xaile de merino para abafar
as batidas desoladas do coração.

Graça Pires
De Fui quase todas as mulheres de Modigliani, 2017, p. 43