Um homem escreve uma carta a uma mulher
como se fosse um acto antigo
O homem escolheu o mais terno papel rosa
e sobrescrito a condizer _ com cantos violeta
nele escreveu o nome da mulher
e o lugar de destino
O homem carregou de tinta azul a sua estimada
e bela caneta que estava muda desde
quando disse a última carta
Escreveu a data na primeira linha
o dia registado _ seminal
com letras maiores escreveu no meio da página
Amo-te, tenho saudades
na última linha, o homem assinou apenas
com o seu primeiro nome
O homem guardou a carta no sobrescrito
que não colou _ beijou-o duas vezes
e encostou-o à jarra onde tinha as flores
que amanhã levaria para depositar
no lugar inscrito a seguir ao nome da mulher
Depois deitou-se para dormir e sonhar
como fazia todos os anos.
Luís Raimundo Rodrigues
In: No espaço da minha boca. Edições Gato Cinzento, 2023, p. 92
