10.7.23

Em seara alheia



A carta 

Um homem escreve uma carta a uma mulher 
como se fosse um acto antigo 
O homem escolheu o mais terno papel rosa 
e sobrescrito a condizer _ com cantos violeta 
nele escreveu o nome da mulher 
e o lugar de destino 
O homem carregou de tinta azul a sua estimada 
e bela caneta que estava muda desde 
quando disse a última carta 
Escreveu a data na primeira linha 
o dia registado _ seminal 
com letras maiores escreveu no meio da página 
     Amo-te, tenho saudades 
na última linha, o homem assinou apenas 
com o seu primeiro nome 
O homem guardou a carta no sobrescrito 
que não colou _ beijou-o duas vezes 
e encostou-o à jarra onde tinha as flores 
que amanhã levaria para depositar 
no lugar inscrito a seguir ao nome da mulher 
Depois deitou-se para dormir e sonhar 
como fazia todos os anos. 

Luís Raimundo Rodrigues 
In: No espaço da minha boca. Edições Gato Cinzento, 2023, p. 92