Silena Lambertini
As flores sem rega nos peitoris das janelas
retalham os punhos, nervo a nervo.
E, de porta em porta, as mães acendem as lamparinas
para avistarem as mágoas escondidas
nas fissuras
dos muros sem ramagem.
Ensombra-me o brilho que incide sobre as pedras
e sobre a desordem baldia dos taludes.
Amplio as mãos para que sejam margens
de um rio caudaloso onde me navego e me aprofundo.
A luz quase se esgota em meus olhos,
tão ávidos de paisagens líquidas.
Para encontrar um veio de água, tornei-me caminhante
e escalei o declive das nascentes.
Agora posso abraçar os lírios brancos,
adorar a lua cheia ou amar as bailarinas de degas.
Mas não me perguntem por que razão
se comovem os meus olhos em horas perturbadas.
Graça Pires
De Antígona passou por aqui, 2021, p. 50
Para quem gostar de ouvir o poema:
https://youtu.be/y1sif_TCvEU
